Os testes sobre a resposta vacinal contra a COVID-19 são mesmo necessários?

Disponíveis para serem feitos em farmácias, eles se popularizam entre aqueles que desejam se certificar que já têm resposta imunológica contra o coronavírus

Fernando Zhiminaicela/Pixabay

Após tomarem a 2ª dose da vacina contra a COVID-19, muitas pessoas que querem saber se estão efetivamente protegidas do coronavírus estão recorrendo a testes sorológicos em busca dessa resposta.

No entanto, realizar esses exames para saber se o imunizante fez ou não efeito no organismo tem desencadeado ainda mais dúvidas, principalmente quando o resultado obtido é “não reagente”, o que tem levado algumas pessoas a julgar que a vacina não fez efeito.

Esses testes são utilizados para auxiliar na detecção de anticorpos IgG (de longa permanência) e IgM (de curta permanência) específicos contra o SARS-CoV-2 em amostras de sangue/soro, os quais são produzidos pelo indivíduo após infecção ou vacinação.

O que os testes indicam?

Carmem Aparecida de Freitas Oliveira, biomédica e pesquisadora científica do Centro de Imunologia do Instituto Adolfo Lutz, que atua em pesquisas aplicadas em microbiologia e imunologia nas áreas de interesse do Laboratório de Saúde Pública, explica que o resultado de um teste sorológico vai indicar a presença ou a ausência de anticorpos no momento da coleta do sangue.

“Alguns testes sorológicos para SARS-CoV-2 (realizados somente em laboratórios) permitem a dosagem quantitativa do anticorpo presente, de tal maneira que se um indivíduo for testado em intervalos frequentes (superior a 30 dias) e sempre com o mesmo kit diagnóstico, é possível avaliar se a quantidade de anticorpos está diminuindo ou aumentando ao longo do tempo”, diz Carmem, reforçando que somente os testes quantitativos permitem este tipo de avaliação.

Carmem acrescenta que alguns testes sorológicos para COVID-19 podem, ainda, diferenciar anticorpos com perfil de neutralização, que detecta anticorpos com capacidades neutralizantes em ensaios substitutos. O resultado desses testes é apresentado em porcentagem, fornecendo uma medida indireta da capacidade funcional dos anticorpos em condições in vitro, ou seja, em ambiente controlado de um laboratório.

“Todavia, o conhecimento adquirido até o momento por meio de pesquisas em todo o mundo não permite dizer qual é a quantidade de anticorpos ou qual seria a taxa de neutralização necessária para proteger um indivíduo, vacinado ou não, contra infecção e reinfecção”, alerta a pesquisadora.

Não se sabe também qual o tempo máximo que os anticorpos anti-SARS-CoV-2 continuam sendo detectáveis no soro/sangue após infecção ou vacinação.

“Embora muitos estudos estejam sendo realizados, não se pode afirmar que a presença de anticorpos anti-SARS-CoV-2 no sangue/soro é garantia de imunidade protetora”, adverte.

Outro ponto é que nenhum teste laboratorial oferece garantia de desempenho de 100%. “Desconheço teste sorológico que possua como característica de desempenho analítico 100% de sensibilidade (capacidade de detectar um caso positivo, quando ele está presente) e de especificidade (capacidade de excluir corretamente os casos negativos)”, afirma Carmem.

Ela recomenda que todo resultado de teste laboratorial seja interpretado conjuntamente com avaliação clínica e dados epidemiológicos do paciente, pois “riscos de um resultado falsamente positivo ou negativo podem existir”.

Resultado ‘não reagente’

Carmem esclarece que, na maioria das infecções agudas causadas por vírus, há um período conhecido como “janela imunológica”, que pode durar de 10 a 15 dias após a infecção, em que a quantidade produzida de anticorpos não é suficiente para ser detectada pelo teste sorológico.

“Neste caso, o resultado ‘não reagente’ não exclui a possibilidade de resposta imunológica, sendo necessária uma nova avaliação após um período, geralmente de 30 dias”, destaca a pesquisadora, salientando que essa interpretação deve ser realizada por um médico, juntamente com a avaliação clínica.

Carmem afirma desconhecer estatísticas a respeito dessas “respostas negativas” e, por isso, diz que não tem como avaliar se elas poderiam estar sendo influenciadas pelos tipos de vacinas.

“É preciso analisar cada caso: o tipo de vacina que foi utilizada; o intervalo entre a vacinação e a coleta da amostra; se a vacinação foi completa ou parcial; o tipo de teste sorológico que foi utilizado etc.”

É preciso testar a proteção da vacina da COVID-19?

“Não há recomendação, no momento, para que cada indivíduo realize teste para avaliar sua resposta imune pós-vacinação ou resposta contra variantes virais”, assegura Carmem.

Por meio de Nota Técnica, publicada em março deste ano, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) frisou que não recomenda a realização de sorologia para avaliar resposta imunológica às vacinas contra a COVID-19.

“A complexidade que envolve a proteção contra a doença torna desaconselhável a dosagem de anticorpos neutralizantes com o intuito de se estabelecer um correlato de proteção clínica, pois certamente não se avalia a proteção desenvolvida após vacinação apenas por testes laboratoriais in vitro por meio da dosagem de anticorpos neutralizantes”, diz a nota pela qual a SBIm também evidencia os resultados positivos da vacinação.

Em artigo disponibilizado no site da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), Martin Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), diz que “não há qualquer motivo, a priori, para acreditar que uma pessoa saudável não vá responder bem à vacina. As vacinas não são infalíveis, claro, mas a grande maioria das pessoas desenvolverá anticorpos e respostas celulares, ficando protegidas das formas graves da doença”.

A vacinação em massa tem se mostrado a principal ação para conter a pandemia do coronavírus. De acordo com os dados do consórcio de veículos de imprensa, obtidos das secretarias estaduais da Saúde, em setembro faleceram no Brasil em decorrência da COVID-19 um total de 16.275 pessoas, cinco vezes menos que em abril, o mês mais letal da pandemia, com 82.401 vítimas.

Além disso, de acordo com o Ministério da Saúde, 1.828 municípios brasileiros não tiveram registros de novos óbitos pela COVID-19 no mês passado e 1.123 cidades não registraram novos casos da doença. A pasta informa, ainda, que, no começo de outubro, cerca de 93% da população adulta já havia sido vacinada com a 1ª dose da vacina e mais de 57% estava completamente imunizada.

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