Papa: em meio às feridas, a Igreja no Iraque testemunha a misericórdia de Deus

Na tarde deste domingo, 7, em Erbil, o Pontífice presidiu missa em um estádio de futebol. Em seu último evento público no país, ele pediu um trabalho conjunto entre as várias comunidades religiosas por um futuro de paz, prosperidade e sem discriminações

Papa Francisco preside missa em estádio na cidade de Erbil (fotos: Vatican Media)

No Estádio Franso Hariri, em Erbil, no Iraque, na tarde deste domingo, 7, cerca de 10 mil pessoas participaram presencialmente da histórica missa presidida pelo Papa Francisco, na primeira visita de um pontífice ao país. Antes, pela manhã, ele rezou pelas vítimas da guerra, em uma praça na cidade de Mossul, e visitou um templo católico em Qaraqosh.

Erbil é uma das cidades mais antigas do mundo, com registros de assentamentos urbanos que datam do século XXIII a.C. Atualmente, acolhe refugiados sírios e meio milhão de deslocados internos, que fugiram das perseguições  do Estado Islâmico.

Ao chegar ao estádio, Francisco, ainda no papamóvel, saudou a todos, percorrendo o local que tem capacidade para 28 mil pessoas, mas que teve menos da metade de sua ocupação, em razão das medidas preventivas para evitar a proliferação do novo coronavírus.

A TENTAÇÃO DO PODER E DA SABEDORIA

Na homilia, o Papa Francisco refletiu sobre “o poder e a sabedoria de Deus” revelados por Jesus por meio da misericórdia e do perdão, e não por “demonstrações de força”, “longos discursos ou exibições de ciência incomparável” que são verdadeiras “armadilhas para construir imagens falsas de Deus”. O Pontífice enfatizou que o poder e a sabedoria de Deus foram revelados por Cristo ao dar sua vida na cruz, oferecendo “ao Pai as feridas pelas quais fomos curados”.

“Aqui, no Iraque, quantos dos vossos irmãos e irmãs, amigos e concidadãos carregam as feridas da guerra e da violência, feridas visíveis e invisíveis! A tentação é responder a estes e outros fatos dolorosos com uma força humana, com uma sabedoria humana. Jesus, ao contrário, mostra-nos o caminho de Deus, aquele que Ele mesmo percorreu e por onde nos chama a segui-Lo.”

A RESPONSABILIDADE DE PURIFICAR IGREJA E CORAÇÕES

Ao tratar do Evangelho do dia (Jo 2, 13-25), Francisco lembrou da importância de purificar a Igreja, mas também o coração, para que não seja um lugar de “turbulência, desordem e confusão”, livrando-o de “falsidades que o sujam, das simulações da hipocrisia”.

“Precisamos ser purificados das nossas seguranças falaciosas, que trocam a fé em Deus pelas coisas que passam, pelas conveniências do momento. Precisamos que sejam varridas do nosso coração e da Igreja as nefastas sugestões do poder e do dinheiro. Para limpar o coração, precisamos sujar as mãos: sentirmo-nos responsáveis e não ficarmos parados enquanto sofrem o irmão e a irmã.”

O Papa lembrou que sozinho ninguém é capaz de purificar o próprio coração, pois só Jesus tem o poder de fazê-lo. Ele nunca abandona a humanidade e a todos chama ao arrependimento e à purificação, “mesmo quando Lhe voltamos as costas”. Com isso, é possível “construir uma Igreja e uma sociedade abertas a todos e solícitas pelos irmãos mais necessitados”. Ao mesmo tempo, disse o Pontífice, “nos revigora para sabermos resistir à tentação de procurar vingança, que nos mergulha numa espiral de retaliações sem fim”.

A SABEDORIA DA CRUZ DA IGREJA NO IRAQUE

O Papa lembrou que com a força de Cristo e do Espírito Santo, todas as pessoas podem se tornar “instrumentos da paz de Deus e da sua misericórdia, artífices pacientes e corajosos de uma nova ordem social”. Disse, ainda, que comunidades cristãs formadas por pessoas humildes e simples, como acontece na Igreja no Iraque, testemunham que o Evangelho tem o poder de mudar a vida; e que é com o poder da Ressureição e os olhos da fé, que o Senhor promete “nos fazer ressurgir das ruínas causadas pela injustiça, a divisão e o ódio”, para encontrar “o bálsamo do seu amor misericordioso”.

“A Igreja no Iraque, com a graça de Deus, fez e continua a fazer muito para proclamar esta sabedoria maravilhosa da cruz, espalhando a misericórdia e o perdão de Cristo, especialmente junto dos mais necessitados. Mesmo no meio de grande pobreza e tantas dificuldades, muitos de vocês oferecem generosamente ajuda concreta e solidariedade aos pobres e atribulados. Esse é um dos motivos que me impeliu a vir em peregrinação até junto de vocês, ou seja, para agradecer e confirmar na fé e no testemunho. Hoje, posso ver e tocar com a mão que a Igreja no Iraque está viva, que Cristo vive e age neste seu povo santo e fiel.”

‘O Iraque ficará sempre comigo, no meu coração’

Ao final da missa, o Papa manifestou sua satisfação pela realização da viagem apostólica, na qual embora tenha escutado relatos de sofrimento e angústia, “ouvi também vozes de esperança e consolação”, e isso se deve, em grande parte, “àquela incansável obra de bem-fazer” realizada pelas instituições religiosas de várias confissões, Igrejas locais e organizações caritativas que assistem o povo “na obra de reconstrução e renascimento social”.

“O Iraque ficará sempre comigo, no meu coração. Peço a todos vocês, queridos irmãos e irmãs, que trabalhem juntos e unidos por um futuro de paz e prosperidade que não deixe ninguém para trás, nem discrimine ninguém. Asseguro a vocês as minhas orações por este amado país. De modo particular, rezo para que os membros das várias comunidades religiosas, juntamente com todos os homens e mulheres boa vontade, cooperem para forjar laços de fraternidade e solidariedade ao serviço do bem comum e da paz. Salam, salam, salam! Shukrán [obrigado]! Deus vos abençoe a todos! Deus abençoe o Iraque! Allah ma’akum [fiquem com Deus]!”, afirmou o Pontífice.

Gratidão ao Papa

Antes que o Papa desse a bênção final aos fiéis, o Arcebispo de Erbil dos Caldeus, Dom Bashar Matti Warda, agradeceu ao Pontífice pela coragem de se deslocar até “este conturbado país, uma terra tão cheia de violência, de intermináveis disputas, de deslocamentos e sofrimento para o povo”.

Dom Bashar afirmou, ainda, que este testemunho em um tempo de pandemia e de crise global, tornaram concretas as palavras de Cristo: “não tenham medo”, disse. “A sua coragem flui em nós”, complementou.

O Arcebispo também agradeceu pelas orações de Francisco aos perseguidos e marginalizados do Iraque e do mundo, por meio das quais o Papa continua a exortar “um tempo de paz, de humildade e de prosperidade, de dignidade de vida e de perspectivas para todos”.

“Agradecemos a mensagem de paz que trouxe para Erbil e para todo o Iraque. A sua poderosa mensagem de fraternidade e perdão é agora um presente para todo o povo do Iraque, deixando-nos – cada um de nós neste país – com a responsabilidade permanente de dar vida continuamente à sua mensagem em nossa vida diária a partir de hoje”, concluiu Dom Bashar.

Fonte: Vatican News

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