Para além da sala de aula: a jornada de professores durante a pandemia

O SÃO PAULO apresenta a história de educadores que, com determinação e criatividade, superaram barreiras para ensinar aos estudantes

Quando as aulas presenciais precisaram ser suspensas diante das incertezas causadas pela pandemia de COVID-19, uma das estratégias adotadas pelas escolas foi o ensino na modalidade on-line. Foi um desafio para educadores, alunos e familiares, especialmente pelo fato de 46 milhões de pessoas (25% da população) não terem acesso à internet no País, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A situação exigiu de professores da rede pública e privada novos planejamentos e ações para garantir o acesso ao ensino e evitar a evasão escolar. Na proximidade da comemoração do Dia do Professor, em 15 de outubro, O SÃO PAULO apresenta algumas dessas histórias.

SOBRE DUAS RODAS

Arthur pedala 20km para levar atividades a seus alunos / Arquivo Pesoal

O professor Arthur do Nascimento Cabral, 30, pedala, em média, 20 quilômetros de bicicleta para levar livros, apostilas e atividades para 20 crianças, de 11 a 13 anos, seus alunos do 6° e 7º anos do Ensino Fundamental.

Às sextas-feiras, o educador percorre quatro bairros da região metropolitana de Recife (PE) para entregar as cartilhas com o conteúdo de suas disciplinas e dos demais professores, além de doações de celulares e cestas básicas às famílias de alguns dos alunos.

Às 8h, ele sai de sua casa em Recife rumo à cidade vizinha Camaragibe. Cabral leva cerca de 30 minutos num trajeto de mais de oito quilômetros até chegar à Escola Estadual Deputado Oscar Carneiro, na qual trabalha.

Tudo começou quando ele percebeu a ausência dos estudantes nas aulas remotas: “Esses alunos estavam ausentes não porque não queriam estudar, mas, alguns, por não terem acesso à internet; outros nem sequer possuem celulares ou computadores para assistir às aulas virtuais, ou, quando há aparelho, não é suficiente para toda a família ou não comporta as ferramentas usadas para as aulas”, explicou.

Como alguns estudantes moram em locais de difícil acesso, por vezes Cabral precisa cumprir o trajeto da entrega dos materiais a pé: “Retorno muito cansado, mas com a sensação de dever cumprido”, comentou. “A nossa profissão não é tão reconhecida no Brasil. Na pandemia, mais do que nunca, precisamos nos reinventar, criar novas estratégias educacionais, sem desistir de ninguém”, disse Cabral. “A educação é um motor de transformação e é nela que temos que nos agarrar”, concluiu.

TRAILER DE REFORÇO ESCOLAR

Simone Garcia montou o ‘Trailer do Saber’ para reforço escolar de estudantes em Barueri (SP) / Arquivo Pessoal

Simone Garcia, 43, é jornalista, pedagoga e psicopedagoga. No início da pandemia, ela percebeu a necessidade de muitos alunos e a preocupação dos pais em relação às aulas de reforço. Decidiu, então, usar o trailer de viagens que fica estacionado em frente à casa de sua família, em Barueri (SP), como espaço para as aulas. Surgia, assim, o projeto Trailer do Saber.

“Adaptei no trailer uma sala de aula. A demanda é grande diante dos impactos da pandemia. De segunda a sexta-feira, as aulas acontecem de modo personalizado para priorizar o aprendizado”, destacou, recordando que o trailer é adaptado para utilização da energia solar.

AMOR À PROFISSÃO

Marcia Cristina Camargo de Souza, 45, é professora e coordenadora pedagógica no Colégio Santa Catarina de Sena, das Irmãs Dominicanas, no bairro do Paraíso, zona Sul da capital paulista.

“Na pandemia, precisamos aprender a mexer com as ferramentas tecnológicas em um curto espaço de tempo. Fomos deslocados da sala de aula para a sala de casa; do encontro presencial para o virtual”, disse a professora, que leciona há 26 anos. Ela ressaltou que as lives, os grupos de WhatsApp, as videoconferências, as chamadas de vídeo, as aulas no método remoto e híbrido permitiram a continuidade do processo educativo.

“Nós, professores, aprendemos a manusear os equipamentos, ensinamos aos pais e aos alunos. Acredito que foi um aprendizado tecnológico coletivo”, contou.

Marcia coordena um projeto musical na escola. Ao longo deste período, as aulas continuaram no novo formato, reaproveitando o que se tem em casa. “Garrafas, colheres e livros se transformaram em instrumentos. A interação, a pesquisa e os jogos lúdicos fizeram parte do projeto com a interação da família”, afirmou.

A professora falou, também, da importância dos momentos de espiritualidade e oração que foram mantidos, mesmo no ambiente on-line. “A formação religiosa, a Catequese e o grupo de jovens permaneceram atuantes e fortaleceram a vivência no tempo de isolamento”, detalhou.

GERAÇÃO DIGITAL

Fernanda Soares de Campos, 44, professora do Colégio Santa Gema, das Irmãs Passionistas, na zona Norte da capital, comentou sobre a readequações que a pandemia impôs a estudantes e professores.

“Embora os aparelhos digitais estejam na palma da mão, foi necessária uma adaptação, pois o novo formato das aulas exigiu criatividade de professores e alunos”, disse, destacando que foi preciso “sair da zona de conforto e criar e recriar meios de manter o contato com os alunos, de forma interativa para a continuidade da aprendizagem”.

Fernanda recordou que, no período de aulas on-line, dinamizou estratégias, construindo junto com os alunos jogos de tabuleiro com itens recicláveis, além de inserir coreografias e danças nas aulas on-line.

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