Para saciar a fome, não para encher o lixo

Pense em um caminhão de carga com capacidade para transportar 40 toneladas de alimentos. Agora, imagine aproximadamente 23 milhões destes caminhões enfileirados. Essa seria a frota necessária para transportar os 931 milhões de toneladas de alimentos que as famílias, os varejistas, os restaurantes e outros serviços de alimentação em todo o mundo jogaram no lixo em 2019, conforme dados do Índice de Desperdício de Alimentos 2021, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Desse total desperdiçado, 60% ocorreu no ambiente doméstico. Neste tempo em que amigos e familiares se reúnem para as ceias de Natal e Ano-Novo, é oportuno refletir sobre esta realidade e mudar hábitos.

Comece pelos cuidados ao comprar e armazenar os itens

Muito do desperdício pode ser evitado a partir de simples cuidados na compra dos alimentos e no seu armazenamento em casa, conforme as dicas que a nutricionista Gilmara Cavassani (@nutrigilmara), especialista em Nutrição Clínica, apresentou ao O SÃO PAULO.

Atenção aos perecíveis já embalados

Ao comprar carnes, embutidos e frios embalados, a primeira dica é prestar atenção a indícios de que o produto possa ter ficado sem a devida refrigeração.

“Um dos sinais de que uma carne ficou fora da refrigeração ideal é o fato de ela estar com acúmulo de líquido. E, no caso da carne vermelha, o acúmulo do próprio sangue da carne. Já para os queijos, eles ficam com uma aparência mais amolecida. Outro sinal é a coloração do alimento, como ocorre com uma carne bovina muito esbranquiçada ou o presunto e o peito de peru fatiados sem aquela cor mais típica de quando estão frescos. Também é importante atentar- -se ao cheiro. Carne com cheiro muito forte é sinal de que algo não está normal”, detalhou.

Outra recomendação de Gilmara é que, sempre que possível, o consumidor compre o item cortado ou fatiado na hora ou adquira aqueles embalados no próprio dia: “Às vezes, nas promoções, o item congelado ou resfriado tem um preço atraente, mas quando você vai ver já está embalado há dois dias e, assim, você terá de consumi-lo logo”.

A nutricionista também orienta que, ao chegar em casa, alimentos como carnes sejam separados e congelados em saquinhos na quantidade em que serão consumidos futuramente. Se a opção for a de mantê-los resfriados, que sejam retirados da bandeja em que vieram do supermercado “para que se evite que o alimento se mantenha em contato com o líquido que já havia em seu interior”. Ela lembra que carnes congeladas devem ser consumidas em até 60 dias.

Cuidados redobrados com as frutas

Em relação ao consumo de frutas, a nutricionista diz que o recomendável é optar pelas próprias de cada época. “Elas estão em um grau de maturação muito melhor, serão agradáveis ao nosso paladar e o preço é muito mais acessível.”

A todo tempo, vale sempre olhar a cor e a textura das frutas, em especial quando são vendidas em recipientes. “Por exemplo, quando a uva vem em caixinha, olhe bem embaixo e nas laterais, pois às vezes se colocam as mais bonitas por cima e as estragadas por baixo. No caso do morango, veja se a caixinha já não está com aquele ‘caldinho vermelho’ embaixo. Em relação às melancias, prefira as com cabinho mais verdinho; e para o abacaxi, um sinal de alerta é se estiver com alguma parte esbranquiçada na casca”, exemplificou, citando algumas das mais consumidas nesta época de Natal.

Gilmara enfatiza que ainda que os sinais de bolor e putrefação estejam em apenas uma parte de um hortifrúti, o recomendável é que ele seja descartado por inteiro. “O risco de tudo estar contaminado é muito grande, podendo haver bactérias ou fungos que podem causar algum tipo de infecção intestinal ou virose.”

Outro cuidado é com a gaveta da geladeira onde são guardadas as frutas, legumes e verduras. “Se todos estão em contato, a contaminação de um alimento pode estragar todos os demais”, alerta, recomendando que a compra de hortifrútis ocorra semanalmente e não de uma vez só para que não se estraguem.

Aparência e validade de alimentos industrializados

Para alimentos como bolachas, bisnaguinhas, molhos e outros alimentos industrializados, a principal dica já é conhecida pela maioria das pessoas: olhar o prazo de validade do item.

Outra recomendação da nutricionista é ter a real dimensão do quanto a família consome e atentar-se às condições de armazenamento: “O ambiente mais quente faz com que a durabilidade diminua ainda mais. Além disso, já no mercado, a exposição a um clima abafado faz com que este produto possa já estar com bolor enquanto ainda estiver na prateleira. Assim, é preciso olhar muito bem as embalagens onde seja possível ver o produto para observar a textura, coloração e eventuais bolores”.

INDÚSTRIA PRETENDE AMPLIAR PRAZO DE VALIDADE DE ALIMENTOS

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) divulgou no começo deste mês a proposta de uma mudança nas rotulagens de produtos não perecíveis, de modo que a data de validade seja substituída pelo indicativo de “Consumir preferencialmente antes de”.

Na prática, os mercados poderiam continuar a vender produtos não perecíveis após o prazo de validade. Hoje tal prática não é permitida. O que alguns estabelecimentos fazem é reduzir os valores dos itens quando estão próximos do vencimento, devendo informar o consumidor a esse respeito.

De acordo com a Abia, o chamado “best before” já é adotado em outros países, como Portugal e Noruega, e amplia a possibilidade de aquisição de produtos pelas pessoas com menos posses financeiras. “A adoção do conceito regulatório ‘best before’ nos parece uma das formas de combater o desperdício de alimentos, evitando que muita comida boa, adequada e segura para consumo vá para o lixo, como ocorre hoje”, afirmou a instituição em nota à imprensa, em que cita uma pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados, segundo a qual 42,5% de perda de alimentos não perecíveis no varejo tem como causa a data de validade vencida.

Para entrar em vigor, a proposta depende de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A Abia ainda não a apresentou formalmente a esses organismos. A possível mudança é vista com preocupação pela pediatra nutróloga Maria Paula de Albuquerque, membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e do Grupo de Pesquisa Nutrição e Pobreza, do Instituto de Estudos Avançados da USP. “É muito complicado colocar nas costas do consumidor a responsabilidade da qualidade biológica desses alimentos. Ainda que a proposta só se aplique àqueles não perecíveis, eles são passíveis de causar doenças se a conservação não estiver adequada.”

A partir de sua experiência como gerente-geral clínica do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN), que atua no tratamento de crianças com diagnóstico de má nutrição e na orientação a suas famílias, Maria Paula também tem preocupação quanto ao discernimento que a população mais pobre terá para fazer tal escolha.

“Quando a família já está no nível leve de insegurança alimentar, ela começa a fazer as substituições. Um exemplo clássico é o de passar a comprar salsicha em vez de carne in natura. Assim, a preocupação com a lógica do desperdício de alimentos precisa ser anterior à redução dos preços. Não é possível falar em acesso a alimento sem pensar em renda, sem pensar em redução de desigualdade”, enfatizou à reportagem.

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