Paralímpicos mostram ao mundo ‘o que pode realizar uma alma forte, apesar dos obstáculos’

Ao término da 1a edição dos Jogos Paralímpicos em Roma, 1960, São João XXIII enalteceu os esportistas com deficiência. Neste mês, eles voltarão a encantar o mundo na paralimpíada de Tóquio

Cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos de Tóquio (foto: Comitê Paralímpico Internacional)

A 16a edição dos Jogos Paralímpicos, iniciada na terça-feira, 24, em Tóquio, no Japão, reúne, até 5 de setembro, mais de 4 mil paradesportistas, de 153 países, entre os quais 253 brasileiros.

Antes que a primeira disputa das 22 modalidades acontecesse, uma das razões primordiais dos Jogos foi destacada na cerimônia de abertura: a luta permanente para assegurar a dignidade das pessoas com deficiência.

Atualmente, cerca de 15% da população mundial – 1,2 bilhão de pessoas – tem algum tipo de deficiência e, ao longo dos Jogos, a campanha #WeThe15 buscará a conscientização global contra as discriminações que ainda sofrem e suas lutas por inclusão, acessibilidade e dignidade em todos os âmbitos de vida.

Superação das limitações

A busca da dignidade da condição de vida das pessoas com deficiência está nas origens dos Jogos Paralímpicos. Tão logo teve início a 2a Guerra Mundial, em 1939, o governo britânico decidiu se preparar para uma quantidade maior de soldados que retornariam das batalhas com ferimentos graves. Por isso, foi organizada em Stoke Mandeville, na Inglaterra, uma ala hospitalar especializada em lesões de medula.

A partir de 1944, com a guerra ainda em curso, essa ala passou a ser dirigida pelo judeu alemão Ludwig Guttman, que, além das tradicionais técnicas de Fisioterapia, passou a usar objetos esportivos para aprimorar as condições de saúde e de autoestima dos pacientes e desenvolveu novos modelos de cadeiras de rodas.

Em 1948, quando os Jogos Olímpicos voltaram a ser disputados após a 2a Guerra Mundial, Ludwig Guttman foi convidado a organizar competições demonstrativas de arco e flecha e basquete em cadeira de rodas com seus pacientes, para que se inserissem no contexto do maior evento esportivo do planeta. Surgiam, assim, os Jogos de Stoke Mandeville, que se repetiriam nos anos seguintes, com a participação de pessoas de outras nações.

Com o aumento do número de atletas e países, os Jogos de Stoke Mandeville se tornaram a Olimpíada dos Portadores de Deficiência, tempos depois renomeada de Jogos Paralímpicos. A 1a edição aconteceu entre 18 e 25 de setembro de 1960, em Roma. No Vaticano, no começo do século, nos anos 1905 e 1908, atletas com deficiência participaram de competições inclusivas, promovidas por São Pio X.

Força interior

Atleta em disputa nos Jogos Paralímpicos de 1976 (IPC/Arquivo)

No encerramento dos Jogos Paralímpicos de 1960, São João XXIII recebeu em audiência, no Pátio São Dâmaso, uma delegação dos organizadores e de paradesportistas.

“A limitação de suas capacidades físicas não assustou os seus corações e vocês tomaram parte, nestes últimos dias, com um ânimo admirável, de uma série de disputas, cuja realização parecia totalmente impossível. Desse modo, vocês deram um grande exemplo que gostamos de apontar, porque pode ser útil a todos: mostraram o que pode realizar uma alma forte, apesar dos obstáculos – aparentemente insuperáveis – que o corpo se opõe. Longe de se deixar abater pelas provas, vocês as dominaram e, com um sereno otimismo, enfrentaram as competições esportivas, à primeira vista reservadas somente a homens com pleno vigor”, declarou o Pontífice, que revelou ter se emocionado com o que viu ao longo das competições.

São João XXIII também disse que naqueles atletas podia enxergar concretamente o poder da força interior, uma virtude muito necessária especialmente aos cristãos, em seu apostolado evangelizador.

Por fim, o Papa pediu aos atletas que nas lutas diárias para alcançar a vida eterna tivessem o mesmo empenho demonstrado nas disputas esportivas. “Pertençam aos violentos que ‘arrebentam o Reino dos céus’ com a aplicação em fazer o seu corpo dócil aos impulsos do espírito, e sua alma obediente à inspiração da graça”, disse, afirmando ainda estar feliz por poder “confiar a Deus estes filhos sofridos, porém corajosos e alegres, sobre os quais não pode deixar de se inclinar com muito particular afeto o coração do Pai que está nos céus”.

‘Cada um consegue oferecer o melhor de si mesmo’

Em outubro de 2014, o Papa Francisco recebeu em audiência no Vaticano membros do Comitê Paralímpico Italiano e destacou o papel agregador das práticas esportivas.

 “O esporte promove contatos e relações com pessoas que provêm de culturas e ambientes diversos, habitua-nos a viver aceitando as diferenças, a fazer delas uma ocasião preciosa de enriquecimento recíproco e de descoberta. O esporte torna-se, sobretudo, uma oportunidade valiosa para que nos reconheçamos irmãos a caminho, para favorecer a cultura da inclusão e rejeitar a cultura do descartável.”

Segundo Francisco, essa perspectiva esportiva é vivida ainda de modo mais intenso pelos paradesportistas, “porque a deficiência física que vocês experimentaram em seu corpo, mediante a prática esportiva e o sadio espírito de competição, transforma-se numa mensagem de encorajamento para quantos vivem situações análogas à de vocês e torna-se um convite a empenhar todas as energias para realizar coisas boas juntos, superando as barreiras que podemos encontrar ao nosso redor e, antes de tudo, dentro de nós”.

Na ocasião, o Pontífice comentou, ainda, que o testemunho dos atletas paralímpicos era um grande sinal de esperança à humanidade, “uma prova do fato de que em cada pessoa existe um potencial que às vezes nem imaginamos, que só pode ser desenvolvido com a confiança e a solidariedade. Deus Pai é o primeiro a saber disso! Deus conhece perfeitamente os seus corações: sabe tudo. Ele conhece-nos melhor do que todos, e olha-nos com confiança, ama-nos como somos, mas faz-nos crescer segundo aquilo que nos podemos tornar. Assim, no seu esforço por um esporte sem barreiras, por um mundo sem excluídos, vocês nunca estão sozinhos! Deus, nosso Pai, está convosco!”.

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