Relatório mundial indica recordes nos indicadores de perseguição aos cristãos

360 milhões de pessoas sofreram violências efetivas ou intimidações por professar a fé em cristo, conforme levantamento feito pela organização Portas Abertas

Vila Cristã incendiada Nigéria (Fotos: Relatório ACN)

A Lista Mundial da Perseguição (LMP) 2022, divulgada em 19 de janeiro pela organização internacional Portas Abertas, aponta para um novo recorde na quantidade de cristãos perseguidos: 360 milhões, ou seja, 20 milhões a mais do que o apontado no relatório anterior, mantendo a tendência de crescimento anual. No relatório de 2020, por exemplo, os dados apontavam para cerca de 260 milhões de perseguidos.

A LMP 2022 abrange o período de 1º de outubro de 2020 a 30 de setembro de 2021. Nela estão listados 76 países, dois a mais que em 2021, onde há intensa perseguição aos cristãos, e se destacam os 50 em que há níveis extremos, severos e muito altos de perseguição. O ranking é liderado pelo Afeganistão, que ultrapassou a Coreia do Norte, país que estava no topo da lista havia mais de 20 anos. A relação das dez nações mais perigosas aos cristãos é composta ainda por Somália, Líbia, Iêmen, Eritreia, Nigéria, Paquistão, Irã e Índia. A íntegra pode ser vista no mapa ou acessada pelo link.

Divulgação /Portas Abertas

DE VIOLÊNCIAS CONCRETAS, A PRESSÕES E INTIMIDAÇÕES

A classificação dos países no ranking leva em conta seis pontuações diferentes para níveis de violência e de perseguição na vida privada, familiar, comunitária, cívica e das comunidades da igreja.

Além das agressões físicas e ataques a templos e comércios cristãos, ocasiões que muitas vezes culminam em mortes, há as várias situações de intimidação, que se expressam em diversas formas sutis e evidentes, como discriminação no trabalho; pressão para renunciar à sua fé por membros da família, em especial para com aqueles que eram do Islã e se converteram ao Cristianismo; falta de prioridade para receber remédios e outros equipamentos de proteção individual, algo especialmente visto durante a pandemia de COVID-19; e burocracia para licenciamento de igrejas.

O QUE EXPLICA ESSA MAIOR PERSEGUIÇÃO

Mulher foge com crianças no Afeganistão (Relatório ACN)

Em relação à LMP 2021, a lista deste ano mostra que mais cristãos foram assassinados (5.898 ante 4.761 do ano anterior), detidos (6.175 ante 4.277 do levantamento do ano passado), e houve alta no número de igrejas atacadas (saltando de 4.488 para 5.110).

“O avanço do Talibã no Afeganistão aumentou a esperança de outros grupos radicais jihadistas no mundo de conseguir êxito nas regiões onde estão, como por exemplo o Boko Haram, a Al Qaeda, o Seleka e até o Estado Islâmico. Também se veem governos autoritários e gangues criminosas que continuam usando as restrições decorrentes da COVID-19 para enfraquecer a Igreja”, comentou Marco Cruz, secretário-geral da Portas Abertas Brasil ao O SÃO PAULO. “Publicamos essa lista há 29 anos. Desde o ano passado, com o aumento da perseguição, só se vê duas cores praticamente: o nível severo e o extremo”, completou.

AFEGANISTÃO E OUTRAS NAÇÕES DE MAIORIA ISLÂMICA

O Afeganistão é o local mais perigoso para a sobrevivência dos cristãos na atualidade: homens que se convertem ao Cristianismo são recorrentemente ameaçados de morte; mulheres e meninas cristãs são forçadas a se casar com jovens combatentes do Talibã; as que são estupradas acabam por ser traficadas; e os radicais têm feito um rastreio ativo para perseguir os cristãos, por vezes indo de porta em porta.

“Em muitos países, é ilegal que alguém se converta do Islã para outra religião. Se você nasce muçulmano, deve ter esta fé para sempre, bem como seus descendentes. Não há liberdade para mudar de religião. O convertido sofre perseguição da família e da comunidade, é visto como infiel e maldito e, muitas vezes, o desfecho é a morte”, detalhou Cruz à reportagem.

A intensa perseguição aos cristãos não é exclusividade dos países de maioria muçulmana. Na Índia, onde 80% da população é hindu, 1.315 cristãos foram presos e detidos, como parte de uma política supostamente nacionalista. “O governo do primeiro-ministro Narendra Modi há anos tem um discurso de ódio contra as minorias. Ele diz que ‘ser indiano é ser hindu’. Especialmente nas localidades longe dos grandes centros, os cristãos enfrentam grande discriminação, violência, famílias são vítimas de bullying, espancadas ou não têm acesso ao plano emergencial de auxílio do governo. Há estados na Índia em que existem leis anticonversão”, detalha o secretário-geral da Portas Abertas Brasil. 

ÁFRICA SUBSAARIANA

Também é preocupante a crescente perseguição aos cristãos na África Subsaariana, onde boa parte das pessoas tem sido obrigada a deixar suas casas para escapar de perseguições, e no caso das mulheres e crianças, há o risco adicional de sofrerem agressão sexual ou serem cooptadas por redes de prostituição. Além disso, centenas de igrejas têm sido fechadas em Burkina Faso, Máli, Níger e Nigéria, país que respondeu por 79% do total de cristãos que foram mortos no período que abrange a LMP 2022.

No Níger, onde os cristãos são apenas 0,3% da população, os radicais islâmicos de grupos como o Boko Haram têm perseguido as comunidades cristãs, em especial na região do Sahel.

COREIA DO NORTE, CHINA E CUBA

Também chamam a atenção as práticas de perseguição aos cristãos em três nações sob o regime comunista.

Na Coreia do Norte, vice-líder do ranking, os relatos são de que as perseguições foram intensificadas após a instituição da lei de pensamento antirreacionário, que tem ampliado o número de igrejas domésticas fechadas e de pessoas presas.

Na China, 17ª na LMP 2022, uma lei instituída em maio de 2021 determinava que líderes religiosos “amassem a pátria, apoiassem a liderança do Partido Comunista e o sistema socialista”. Além disso, ao menos em duas províncias, todas as igrejas cristãs oficiais têm câmeras de vigilância instaladas.

Já em Cuba, que ocupa a 37ª posição na lista, tem se verificado o aumento de medidas restritivas às igrejas que se posicionam contra ações do governo comunista. A Portas Abertas lembra que, ao longo da pandemia, os líderes cristãos foram monitorados, presos, extorquidos e tiveram propriedades confiscadas.

NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE FÉ

Na avaliação de Marco Cruz, a perseguição aos cristãos em diferentes países é um tema que deve preocupar a todos, pois o desrespeito à liberdade religiosa coloca em risco a observância de outros direitos fundamentais do ser humano: “Quando o direito de viver a sua religião, a sua fé – que é algo base para a sua vida, suas atitudes, sonhos e objetivos –, lhe é negado, todo o espectro da vida de um ser humano é afetado e outros direitos acabam sendo violados: o da liberdade de expressão, de pensamento, de ir e vir. Por isso, essa é uma questão que deve receber a atenção de todos os países e cidadãos, independentemente de sua crença ou fé”.

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