Documento de Aparecida: Renovação missionária, comunhão e evangelização da cultura

Publicado há 15 anos, o Documento de Aparecida, conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, realizada em Aparecida, em 2007, continua a orientar a vida e a missão da Igreja não só no “novo continente” como em todo o mundo

Documento de Aparecida: Renovação missionária, comunhão e evangelização da cultura
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Um documento que inspirou planos de pastorais nacionais e continentais, além de eventos eclesiais de repercussão internacional como o Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização (2012) e para a Amazônia (2018), e o caminho sinodal universal proposto pelo Papa Francisco. 

Resumir o Documento de Aparecida, dividido em dez capítulos ao longo de 300 páginas, é uma tarefa quase impossível. No entanto, O SÃO PAULO destaca a estrutura do texto e os principais aspectos que indicam sua atualidade. 

O texto parte do próprio tema da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, “Discípulos missionários de Jesus Cristo para que, Nele, nossos povos tenham vida”, destacando a centralidade do encontro com Cristo, do qual nasce a ação missionária da Igreja. 

MUDANÇA DE ÉPOCA 

A primeira parte lança um olhar teológico e pastoral sobre a realidade, a partir do método “ver-julgar-agir”, considerando as grandes mudanças da sociedade que interpelam a evangelização. Analisa os vários processos históricos complexos nos níveis sociocultural, econômico, sociopolítico, étnico e ecológico, e discerne sobre grandes desafios como a globalização, a injustiça estrutural, a crise na transmissão da fé, entre outros. 

Já no primeiro capítulo, o documento enfatiza: "Interessa-nos, como pastores da Igreja, saber como esse fenômeno afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de nossos irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus, e que, no entanto, devem fazê-lo agora desafiados por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo". (35) 

BOA-NOVA 

A segunda parte, a partir do olhar sobre o hoje da América Latina e do Caribe, indica a beleza da fé em Jesus Cristo como fonte de vida para os homens e as mulheres que se unem a Ele e percorrem o caminho do discipulado missionário. 

Trata da alegria de ser chamado para anunciar o Evangelho com todas as suas repercussões como “Boa notícia” na pessoa e na sociedade (capítulo 3), como a Boa-Nova da vida e da dignidade humana, da família, do trabalho, do destino universal dos bens e da ecologia. 

O capítulo 4 fala da vocação à santidade dos batizados configurados a Cristo e animados pelo Espírito Santo. 

Na América Latina e no Caribe, inumeráveis cristãos procuram buscar a semelhança do Senhor ao encontrá-lo na escuta orante da Palavra, no receber seu perdão no sacramento da Reconciliação, e sua vida na celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos, na entrega solidária aos irmãos mais necessitados e na vida de muitas comunidades que reconhecem com alegria o Senhor em meio a eles (142, 147). 

COMUNHÃO 

Em seguida, no capítulo 5, reforça que comunhão é condição essencial do discípulo missionário: 

A vocação ao discipulado missionário é convocação à comunhão em sua Igreja. Não há discipulado sem comunhão. Diante da tentação, muito presente na cultura atual, de ser cristãos sem Igreja e das novas buscas espirituais individualistas, afirma- mos que a fé em Jesus Cristo nos chegou por meio da comunidade eclesial e ela nos dá uma família, a família universal de Deus na Igreja Católica. (156) 

A partir daí, o texto destaca as realidades concretas nas quais essa comunhão se manifesta, como as dioceses, as paróquias, as comunidades eclesiais nas bases e as conferências episcopais. Ao tratar das paróquias, o documento as define como “comunidade de comunidades” e “células vivas da Igreja”, chamadas a ser casas e escolas de comunhão. 

Um dos maiores desejos que se têm expressado nas Igrejas da América Latina e do Caribe, motivando a preparação da V Conferência Geral, é o de uma valente ação renovadora das paróquias, a fim de que sejam de verdade “espaços da iniciação cristã, da educação e celebração da fé, abertas à diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de modo comunitário e responsável, integradoras de movimentos de apostolado já existentes, atentas à diversidade cultural de seus habitantes, abertas aos projetos pastorais e supra-paroquiais e às realidades circundantes. (170) 

RENOVAÇÃO MISSIONÁRIA 

A terceira parte entra na missão atual da Igreja Latino-Americana e Caribenha, e se consideram as principais ações pastorais com um dinamismo missionário. Esse núcleo decisivo do documento apresenta a missão dos discípulos missionários a serviço da vida plena. Aqui se desenvolve uma grande opção da Conferência: converter a Igreja em uma comunidade mais missionária. 

O texto impulsiona uma missão continental, tendo por agentes as dioceses e os episcopados (capítulo 7). Reconhece novos rostos dos pobres (por exemplo, os desempregados, migrantes, abandonados, enfermos e outros) e promove a justiça e a solidariedade internacional (capítulo 8). 

Já o capítulo 9, com o título “Família, pessoas e vida”, a partir do anúncio da Boa-Nova da dignidade infinita de todo ser humano, criado à imagem de Deus e recriado como filho de Deus, o documento promove uma cultura do amor no Matrimônio e na família, e uma cultura do respeito à vida na sociedade; ao mesmo tempo, deseja acompanhar pastoralmente as pessoas em suas diferentes condições e fomenta o cuidado do meio ambiente como casa comum. 

EVANGELIZAR A CULTURA 

Com o título “Nossos povos e nossa cultura”, o capítulo 10 trata da evangelização da cultura, dos desafios pastorais da educação e a comunicação, os novos areópagos e os centros de decisão, a pastoral das grandes cidades, a presença dos cristãos na vida pública, especialmente o compromisso político dos leigos por uma cidadania plena na sociedade democrática, a solidariedade com os povos originários e uma ação evangelizadora que aponte caminhos de reconciliação, fraternidade e integração. 

Os leigos de nosso continente, conscientes de seu chamado à santidade em virtude de sua vocação batismal, são os que têm de atuar à maneira de fermento na massa para construir uma cidade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus [...]. É imprescindível que o discípulo se fundamente no seguimento do Senhor que lhe concede a força necessária, não só para não sucumbir diante das insídias do materialismo e do egoísmo, mas para construir ao redor dele um consenso moral sobre os valores fundamentais que tornam possível a construção de uma sociedade justa. (505-506) 

Para nos converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos [...] É preciso fortalecer a fé “para encarar sérios desafios, pois estão em jogo o desenvolvimento harmônico da sociedade e a identidade católica de seus povos”. (291) Não temos de dar nada como pressuposto e descontado. Todos os batizados são chamados a “recomeçar a partir de Cristo”. (549) 

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