São José: O Patrono dos exilados, dos aflitos e dos pobres

Novas invocações ao Esposo da Virgem Maria foram acrescida à ladainha no ano passado

São José: O Patrono dos exilados, dos aflitos e dos pobres, Jornal O São Paulo
Sebasti Zuar /Cathopic

Em meio ao medo e às incertezas da guerra ou das ameaças constantes feitas por grupos extremistas, famílias se veem obrigadas a deixar suas casas para garantir a própria sobrevivência. No mundo, essa realidade foi vivida por 82,4 milhões de deslocados internos e refugiados em 2020, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), e agora é vista com a invasão das tropas russas à Ucrânia, que já levou mais de 3,5 milhões de ucranianos a fugirem do país natal.

Há pouco mais de 2 mil anos, também a Sagrada Família precisou deixar o seu lar para fugir da perseguição de Herodes. Avisado em sonho pelo Anjo do Senhor, José fugiu para o Egito com Maria e o menino Jesus (cf. Mt 2,13-15). Após a morte de Herodes, o Anjo falou ao Pai adotivo de Jesus que regressasse primeiro a Israel e, depois, em outros sonhos, recomendou que a família fosse a Nazaré, para manter o menino a salvo.

Tanto naquela época quanto agora, o ódio tenta se sobrepor à paz. “Estes não são tempos fáceis, sabemos disso. Também não foram fáceis para José. Mas, ele confiou em Deus, confiou plenamente Nele e ofereceu todas as suas capacidades, seus talentos e habilidades para servi-lo. E Deus, por sua vez, confiou em José, e lhe deu sua graça para cumprir a difícil missão que lhe foi confiada”, lembrou o Papa Francisco, na quinta-feira, 17, em audiência com membros da Ordem dos Agostinianos Recoletos, que tem São José como protetor.

NOVAS SÚPLICAS

Desde maio de 2021, a Ladainha em honra a São José, piedade popular aprovada pela Santa Sé em 1909, tem mais sete invocações, quatro das quais mencionadas pelo Papa Francisco na carta apostólica Patris corde, publicada em dezembro de 2020, no 150o aniversário da declaração do Esposo da Virgem Maria como Padroeiro da Igreja.

Agora, os fiéis já podem pedir a São José que interceda junto a Deus para o “Amparo nas dificuldades”, bem como a ele recorrer como “Patrono dos exilados, dos aflitos e dos pobres”.

“Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade”, escreveu Francisco, na Patris corde. Em outro trecho, o Pontífice aponta que “todo o necessitado, pobre, atribulado, moribundo, forasteiro, recluso, doente são ‘o Menino’ que José continua a guardar. Por isso mesmo, São José é invocado como protetor dos miseráveis, necessitados, exilados, aflitos, pobres, moribundos”.

FÉ, ESPERANÇA E CORAGEM

Na audiência geral de 29 de dezembro do ano passado, o Papa ressaltou que São José foi “um migrante perseguido e corajoso” e lembrou que “a família de Nazaré sofreu tal humilhação e experimentou em primeira pessoa a precariedade, o medo e a dor de ter que deixar a sua terra”.

“Podemos imaginar as peripécias que [São José] teve de enfrentar durante a longa e perigosa viagem, e as dificuldades que enfrentou durante a permanência num país estrangeiro, com outra língua: inúmeras dificuldades! A sua coragem sobressai também na hora do regresso quando, tranquilizado pelo Anjo, supera os seus compreensíveis receios, estabelecendo-se com Maria e Jesus em Nazaré (cf. Mt 2,19-23)”, prossegue o Pontífice.

A fuga da Sagrada Família para o Egito é relatada no Evangelho de Mateus (2,13-23), mas não há detalhes sobre as dificuldades enfrentadas ao longo dos mais de 400km. Entretanto, um escritor polonês contemporâneo, Jan Dobraczynski, ilustra no livro-romance “A sombra do Pai – História de José de Nazaré”, editora Cultor de Livros, como isso teria se dado.

Dobraczynski narra que, após ser avisado pelo Anjo do Senhor, José tomou a Maria (na obra mencionada como Miriam) e o menino e partiram com um pouco de roupa, comida e algumas ferramentas de carpinteiro. “José ia adiante com o menino nos braços. O asno seguia atrás, puxado por Miriam. Agora o barranco era muito estreito. Parecia um túnel por onde corria um rio de pedras. Não havia trilha. José descia por ali, convencido de que voltaria a encontrá-la mais abaixo. Os pés afundavam na areia grossa. O asno afundava muito mais. Tentando retirar a pata presa entre as pedras, o animal caiu” (p. 244).

O livro também ilustra como a Sagrada Família se acomodou sob condições precárias ao longo do caminho e retrata os esforços de José: “Extremamente preocupado por ter de deixar Miriam e Jesus sozinhos num local deserto, José dirigiu-se ao povoado próximo para adquirir provisões. Na caverna estreita onde se ocultavam, José arrancou um elo do colar presenteado por Baltasar [um dos três reis magos] e, golpeando-o, converte-o em lâminas. Tinha a intenção de pagar as provisões com essas lâminas. Não tinha dinheiro” (p. 254).

Há menções, ainda, sobre a angústia de José ao saber que Herodes matara todos os meninos de Belém e que as tropas continuavam a procurar pelo menino Jesus. Também é apresentada a tensão de quem foge sabendo que está sendo perseguido – “Quando se aproximava de uma esquina, José parava e, com precaução, mostrava primeiro a cabeça. Quando não via nenhum movimento na rua, prosseguia o caminho” (p. 268) –, mas que confia nos desígnios de Deus – “Eu também creio que estará sempre conosco. Mas cada instante traz novos perigos. É preciso tomar decisões…” (p. 271). Após muitas dificuldades, “chegaram ao Egito através de uma esgotante caminhada pelo deserto, durante a qual muitas vezes pensaram que jamais iriam chegar (…) Quando entraram no Egito eram pobres, carentes de todo o recurso” (p. 282-283) – e com o tempo reconstruíram a vida, trabalhando e mantendo uma postura de oração. Anos depois, regressaram à terra de origem, para que o menino fosse mantido a salvo daqueles que o perseguiam e pudesse cumprir sua missão.

ORAÇÃO

A São José todos podem recorrer, incluindo os exilados, aflitos e pobres. Eis a oração recitada pelo Papa Francisco, na audiência de 29 de dezembro de 2021:

São José,
vós que experimentastes o sofrimento de quem deve fugir
vós que fostes obrigado a fugir para salvar a vida dos entes mais queridos,
amparai todos aqueles que fogem por causa da guerra, do ódio e da fome.
Ajudai-os nas suas dificuldades,
fortalecei-os na esperança
e fazei com que encontrem acolhimento e solidariedade.
Guiai os seus passos e abri o coração de quantos os podem ajudar.

Amém!

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