Todos os Santos e Fiéis Defuntos: momento de celebrar a vida em Deus

Na iminência da chegada do mês de novembro, a Igreja convida os fiéis a agradecer com alegria o dom da vida dos que já se foram

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Novembro se aproxima e, logo na abertura do mês, dia 1º, a Igreja se une para celebrar a Solenidade de Todos os Santos e lembrar os eleitos que se encontram na glória de Deus. Em seguida, no dia 2, é a oportunidade de se dedicar à Comemoração dos Fiéis Defuntos, na qual se recordam os cristãos que já faleceram, marcados com o sinal da fé.

Trata-se de duas celebrações importantes, que estabelecem um vínculo entre si e trazem à reflexão o futuro da existência do ser humano, tão necessário para conferir pleno sentido à vida de cada um. Ambas destacam, portanto, a dimensão da eternidade que permeia a vida terrena.

TODOS OS SANTOS

Na celebração de Todos os Santos, o momento é de recordar não somente os santos já canonizados e elevados à honra dos altares, popularmente conhecidos e venerados, mas também aquelese que, na simplicidade e no anonimato de sua vida cotidiana e mesmo sem a anuência da Igreja, empenharam-se em observar a vontade divina e testemunharam sua fidelidade a Cristo, tornando-se exemplos de que a santidade é possível e está ao alcance de todos.

EMBASAMENTO

Embora se saiba que a verdadeira santidade será alcançada e vivida em plenitude somente no céu, ela pode (e deve!) começar aqui na terra. Assim como o primeiro chamado feito por Deus a cada um é à vida, todos são igualmente convidados a vivê-la de maneira santa, conforme nos recorda o Catecismo da Igreja Católica (CIC, 2013):

“Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Todos são chamados à santidade: ‘Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5,48)”.

As Escrituras também afirmam que cada cristão traz consigo o dom da santidade dado por Deus, como diz a Carta de São Paulo aos Efésios: “Deus nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos” (Ef 1,4).

COMO COMEÇOU

O culto aos santos por parte dos cristãos remonta aos primeiros séculos, ainda na era da Igreja primitiva, começando pelos mártires. Ao viver essa tradição, a Igreja convida cada um a contemplar essas pessoas, exemplos de fé, esperança e caridade, e a se espelhar em suas virtudes.

Com o passar do tempo, a Igreja organizou a recordação devida àqueles que são os precursores na fé e, ao longo de cada ano, celebra ou faz memória diariamente de um ou mais santos. No dia 1º de novembro, porém, ela reúne todos numa festa comum, justamente porque, mesmo entre os canonizados, muitos deles não têm um dia exclusivo para sua homenagem.

Essa tradição começou no século III, na Igreja do Oriente, e se instaurou como consequência da grande perseguição deflagrada pelo imperador Diocleciano, no início do século IV, pela grande quantidade de mártires causada pelo poder romano.

NO OCIDENTE

Por outro lado, em Roma, houve a festa de Todos os Santos pela primeira vez em 13 de maio de 609 (século VII), por determinação do Papa Bonifácio IV, ao transformar o Panteão, templo dedicado a todos os deuses pagãos do Olimpo, em uma igreja em honra à Virgem Maria e a Todos os Santos.

Em torno do ano 800, porém, houve a mudança do dia: os pagãos celtas entendiam o 1º de novembro como um dia de comemoração que anunciava o início do inverno. Quando eles se convertiam, queriam continuar com a tradição da festa. Assim, a veneração de Todos os Santos, lembrando os cristãos que morreram em estado de graça, foi instituída no dia 1º de novembro.

O Papa Gregório IV, em 835, fixou e estendeu para toda a Igreja a comemoração na data conhecida hoje. Oficialmente, a mudança do dia da festa de Todos os Santos, de 13 de maio para 1º de novembro, somente foi decretada em 1475, pelo Papa Sisto IV.

FIÉIS DEFUNTOS

Desde o século I, os cristãos rezavam pelos falecidos. Costumavam visitar os túmulos nas catacumbas para rezar pelos mártires e, também, por aqueles que não haviam sofrido o martírio.

No século IV, já existia a memória dos mortos na celebração da missa. Desde o século V, a Igreja dedica um dia por ano para rezar por todos os falecidos, sendo que, a partir do século XIII, esse dia foi fixado em 2 de novembro, porque no dia 1º de novembro é a festa de “Todos os Santos”.

O Dia dos Fiéis Defuntos, portanto, celebra todos os que morreram não estando em estado de graça total, mas precisamente os que se encontram em estado de purificação de suas faltas e, assim, necessitam de orações.

FINADO OU DEFUNTO?

A palavra finado significa, em sua origem, “aquele que se finou, ou seja, que teve seu fim, que se acabou, que foi extinto”. Por sua vez, a palavra defunto, originada no latim, era o particípio passado do verbo defungor, que significava “satisfazer completamente, desempenhar a contento, cumprir inteiramente uma missão”. Mais tarde, foi utilizada e difundida pelo Cristianismo para dizer que uma pessoa morta era aquela que já havia cumprido toda a sua missão de viver.

Nesse contexto, o Dia dos Fiéis Defuntos, portanto, é o dia em que a Igreja celebra o cumprimento da missão das pessoas queridas que já faleceram, por meio da elevação de preces a Deus por seu descanso eterno.

A COMUNHÃO DOS SANTOS

A Igreja ensina a crer na comunhão de todos os fiéis de Cristo: dos que ainda peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda estão em purificação (e que necessitam de orações) e dos bem-aventurados do Céu (intercessores de toda a humanidade), formando todos juntos uma só Igreja, conforme se professa no Credo.

A comunhão dos Santos, portanto, indica a participação de todos os membros da Igreja na fé, nos sacramentos, nos carismas e outros dons espirituais. Designa ainda a comunhão entre as pessoas santas, isto é, entre os que, pela graça, estão unidos a Cristo, morto e ressuscitado. […]. Todos juntos formam, em Cristo, uma só família, a Igreja, para louvor e glória da Trindade (Catecismo da Igreja Católica, Compêndio, 195).

Os primeiros cristãos viveram-na como ninguém. O fato de colocarem tudo em comum, inclusive os próprios bens materiais (cf. At 4,32), era a prova máxima desta vivência. Nas dificuldades e no pecado, a reação espontânea era de amor para com aquele irmão que estava em perigo ou em dificuldade. E assim, ele encontrava a força para reconhecer o seu pecado e, graças ao amor, corrigia-se.

Do mesmo modo que a comunhão cristã entre os que peregrinam neste mundo os coloca mais perto de Cristo, assim também a familiaridade com os santos os une a Cristo, de quem emana, como Fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do povo de Deus (Lumen gentium, 50).

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