Um centro que acolhe o renascimento da esperança

Associação Amparo Maternal mantém o Centro de Acolhida para Gestantes, Mães e Bebês na zona Sul da cidade. Conheça as histórias de algumas das mulheres assistidas e participe da campanha “Amparo pela Vida”

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo
Fotos: Cláudia Pereira

A palavra amparo tem um significado ainda maior quando o seu complemento é seguido de fraternidade. Mais do que um centro de acolhida, o Amparo Maternal é o gesto concreto do verbo cuidar. Localizado na zona Sul da cidade, a casa de acolhida segue a filosofia da fundadora e religiosa Madre Marie Domineuc, da Congregação Franciscanas Missionárias de Maria: “Nunca recusar ninguém”. Um espaço onde renasce a esperança todos os dias e no qual mães e bebês contam com assistência integral, que além do parto, inclui o pré-natal, pós-parto e reinserção social. 

O espaço, que abrigava mulheres grávidas rejeitadas pela sociedade do século XX, hoje acolhe mulheres vítimas de violência, dependentes químicas e estrangeiras que recebem assistência social e psicológica, alimentação, cuidados com a saúde materno-infantil e paticipam de cursos de capacitação de costura, maquiagem, culinária e artesanato. 

CONHEÇA A CAMPANHA AMPARO PELA VIDA

Atualmente, a casa oferece abrigamento para 50 mães com bebês em situação de insegurança social. O tempo de permanência é, em geral, até seis meses após o parto, mas pode chegar a um ano, dependendo das condições que a mulher assistida apresente. 

O Centro de Acolhida é conveniado com a Secretária Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). A manutenção dos serviços prestados, entretanto, também depende das ações de voluntários que atuam desde a arrecadação de donativos aos cuidados essenciais para os assistidos. 

AMBIENTE ACOLHEDOR 

A reportagem acompanhou um pouco da rotina do Centro de Acolhida e conversou com as mulheres abrigadas. Ao chegar ao prédio para gestantes, mães e bebês, a primeira impressão que se tem é de aconchego, como o colo de mãe, um ambiente confortável, que remete ao sentimento de segurança. 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

Foi este sentimento que Fabiana Napolitano, 25, sentiu ao pisar pela primeira vez no prédio. Antes de chegar, ela tinha receio de que fosse viver situações incômodas semelhantes a outros centros de acolhida por onde havia passado. “Aqui fui tratada como gente”, afirma. Fabiana chegou ao abrigo por meio do encaminhamento do Consultório Na Rua, em que multiprofissionais realizam atendimento a pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo. 

Vítima de um relacionamento abusivo e dependente química, Fabiana estava morando nas ruas, grávida e sem perspectiva de deixar as drogas. Assim, temia perder a guarda do seu terceiro filho.

“Quando cheguei aqui, era um final de tarde. Observei que havia outras meninas na mesma situação que a minha. Lembro que dormi e, ao acordar no dia seguinte, tive um sentimento de alívio e um pouco do peso que carregava nas minhas costas parece ter ficado para trás. Essa sensação eu jamais esqueço”, recorda, segurando no colo a sua bebê, Maria Alice, de 10 meses. As duas passaram pelo acolhimento integral, com tempo de um ano e dois meses. Fabiana diz que, durante o processo, percebeu que era a sua última chance para mudar de vida e ser mãe por inteiro. 

“Se não fosse o Amparo Maternal, eu não enxergaria muitas coisas. Eu me aceitei, aprendi a me amar, descobri que posso lutar, posso vencer todos os dias o meu problema de saúde. Estou ‘limpa’ há dois anos. A luta é diária, mas agora preciso fazer meu novo caminho, trabalhar e cursar a minha faculdade. O curso de Psicologia foi outra descoberta que encontrei aqui”, comenta. 

Em reinserção social, Fabiana voltou a morar com a mãe e está reorganizando a vida para voltar ao mercado de trabalho. Ela diz que, além dos sonhos pessoais, o que mais deseja é ser um exemplo para suas filhas.

TRATADA COM CARINHO, ELA DESISTIU DE DOAR O FILHO 

Em novembro de 2021, Fabiana Lage, 40, estava em um abrigo que não lhe parecia propício. Consciente da sua dependência em substâncias químicas, decidiu procurar outro local por conta própria. Ao ligar no número 156, da Prefeitura, indicaram uma vaga no Amparo Maternal. 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

“No dia em que eu vim para o Amparo, estava em um estado crítico da dependência, sob efeito da droga, e debilitada. Lembro-me do momento quando cheguei, da paciência que tiveram comigo e da forma como fui acolhida. As primeiras providências que as assistentes sociais fizeram foi examinar meu estado de saúde e o do bebê, na minha barriga. Passei pelo médico, tomei soro, consegui me alimentar e dormir. Depois, percebi que aqui estava segura. No primeiro momento, a minha intenção era doar o meu filho, mas com o tempo eu me apaixonei pelo Pedro”, diz Fabiana, acariciando a barriga de oito meses. 

Ao contar seus primeiros momentos no Centro de Acolhida, o brilho nos olhos de Fabiana entrega a alegria pela chegada de Pedro. Ela, que é mãe pela terceira vez, se sente plena. Conta que o maior passo foi o reconhecimento do seu problema de saúde e a desintoxicação. Após esse processo e com a ajuda do Amparo Maternal, ela conseguiu uma reaproximação com a família. 

“Eu quero viver novamente e sou consciente de que o Pedro chegou para mudar a minha forma de ver a vida. Percebo mais as minhas responsabilidades e maior respeito pelo meu corpo”, conta Fabiana, segura do seu novo caminho. Ela enfatiza que o Centro de Acolhida é um es- paço que salva vidas. Atualmente no oitavo mês de gestação, ela passa por todo o processo de acolhimento. Após a chegada do bebê, ainda vai permanecer por mais seis meses e participar do processo de projeto de vida, momento em que ela organiza seus passos para quando sair do Amparo com o bebê estar mais segura para caminhar com a sua família e os filhos. 

ESPAÇO PARA SONHAR E RECOMEÇAR 

Na programação da casa, na última semana de cada mês, são realizados eventos e celebrações com a participação de voluntários, as atuais acolhidas e as mulheres que passaram pelo centro. É um momento de partilha. 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

Entre as participantes naquele dia estava Paulínia Tuika, 29, nascida em Angola. O Amparo Maternal foi o seu refúgio desde quando chegou ao Brasil há cinco meses, já prestes a ganhar a bebê. Entretanto, como não tinha um lugar para ficar, foi encaminhada pelo Centro de Referência e Assistência Social (CRAS) para o Amparo. 

“Eu só queria um lugar para descansar a minha cabeça e meu corpo, e ficar em paz. Tinha medo de ficar na rua. E, quando cheguei aqui, vi que tinha muito além da cama que eu precisava. Eu defino esta casa de acolhida como uma mãe”, relata Paulínia, que tem outras duas filhas, de 7 e 11 anos, que ficaram em Angola. Ela deixou o país por sobrevivência, já que estava sendo vítima recorrente de violência em um relacionamento abusivo. 

Paulínia conta que ainda vive o processo de aculturamento e está aprendendo sobre seus direitos como mulher, negra e migrante. Ela conta já ter sofrido com situações de racismo, mas a maior dor que carrega é a da distância das filhas e dos familiares. 

‘AQUI É UM LUGAR ABENÇOADO PARA ONDE DEUS NOS ENVIOU’ 

A angolana Márcia Silva Costa, 33, há um ano e dois meses no Brasil, já passou por um turbilhão de sentimentos, com momentos de angústia, tristeza e alegria. 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

Com seu olhar sereno e uma voz alegre, Márcia demonstra ser resiliente. Uma mulher forte que viveu a chegada da filha, Rebeca, e suportou a morte do companheiro de vida que não resistiu a uma doença. Ambos chegaram ao Brasil quando ela estava grávida de oito meses. Ele faleceu meses após o nascimento de Rebeca. 

“Eu demorei para entender que os muitos gestos aqui do Amparo eram de cuidado. Eu e o bebê ganhamos roupas novas para vestir, cuidaram da minha saúde e fui aprendendo que aqui é um lugar abençoado para onde Deus nos enviou. A minha vida no meu país foi sofrida. Quando decidimos vir ao Brasil, sabíamos que teríamos algo melhor”, comentou. 

Atualmente, Márcia trabalha como auxiliar de serviços gerais no Centro de Acolhida e sua bebê fica em uma creche durante o seu expediente. 

‘NÃO É DOAR, É PARTILHAR O AMOR’ 

A presença das doulas, mulheres que desempenham uma função essencial para gestantes, proporciona conforto físico e emocional das parturientes. Rosa Maria Grecco é professora e voluntária do Amparo Maternal. Ela atua como doula e já acompanhou mais de 200 partos. Em razão da pandemia, não tem exercido essa atividade, mas está presente junto com outras doulas e voluntárias que colaboram com a programação da casa e com o bazar solidário, que acontece sempre às terças, quartas e sextas-feiras, das 14h às 17h, na sede do Amparo. 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

Doula significa mulher que serve. As doulas do Amparo Maternal, entretanto, exercem uma função diferenciada não apenas por serem voluntárias, mas em razão da experiência e conhecimento da realidade das parturientes que utilizam os serviços do local. 

“Não é doar, é partilhar o amor, e não é preciso dizer palavras bonitas. Basta o toque e olhar com carinho para estas mulheres que estão vivendo um dos momentos mais fortes de suas vidas”, declara Rosa, que define amor como ato de respeito e reforça que a filosofia e história do atendimento do Amparo Maternal é o investimento humano. “Este espaço não se resume a verba, este espaço de acolhida é vida”, concluiu. 

MENSALMENTE, NO CENTRO DE ACOLHIDA SÃO CONSUMIDOS: 

250kg de carnes 
180kg de hortifrútis 
150kg de arroz
120kg de açúcar 
50kg de feijão
30kg de sabão em pó 
25kg de macarrão 
20kg de sal 
20kg de farinha de trigo 
15kg de margarina 
15kg de fubá
10kg de café 
10kg de farinha de milho 
10kg de massa de tapioca 
10kg de maionese
9kg de farinha de mandioca 
7kg de achocolatado 
6kg de sardinha
5kg de massa para bolo
5kg de chá
4kg de gelatina
2,5kg de canjica
2kg de ketchup
1kg de fermento
500g de fermento para pão
30 latas de 800g de leite em pó infantil (até 6 meses)
264 litros de leite
40 litros de óleo
24 litros de refrigerante
20 litros de molho de tomate
10 litros de vinagre
7 litros de azeite
50 pacotes de bolacha doce
50 pacotes de bolacha salgada 
40 unidades de pomada para assadura
40 unidades de lenço umedecido 
3.000 unidades de fraldas descartáveis (P, M, G e GG)
60 frascos de xampu adulto e infantil
60 frascos de condicionador adulto e infantil
60 sabonetes adulto e infantil
60 unidades de barbeador descartável
60 unidades de escova de dentes 
60 unidades de desodorantes 
120 pacotes de absorventes 

Um centro que acolhe o renascimento da esperança, Jornal O São Paulo

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