‘Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza’

Vatican Media

No domingo, 14, a Igreja comemora o V Dia Mundial dos Pobres, data instituída pelo Papa Francisco em 2016, como gesto concreto do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

Este ano, a mensagem enviada pelo Pontífice para essa comemoração tem como tema “Sempre tereis pobres entre vós” (Mc 14,7), palavras pronunciadas por Jesus, alguns dias antes da Páscoa, por ocasião de uma refeição na casa de Simão, chamado “o leproso”, ocasião em que uma mulher derramou perfume sobre sua cabeça.

O Pontífice reflete sobre as duas interpretações diante da atitude daquela mulher. A primeira é a de Judas, preocupado com o dinheiro que o perfume poderia render. “Não é por acaso que esta crítica dura sai da boca do traidor: é a prova de que quantos não reconhecem os pobres, atraiçoam o ensinamento de Jesus e não podem ser seus discípulos”, destacou Francisco.

Já a segunda interpretação é a do próprio Jesus, que permite individuar o sentido profundo do gesto realizado pela mulher. O Senhor defende a mulher por sua sensibilidade e “vê, naquele gesto, a antecipação da unção do seu corpo sem vida antes de ser colocado no sepulcro”.

“Esta visão ultrapassa todas as expectativas dos convivas. Jesus recorda-lhes de que Ele é o primeiro pobre, o mais pobre entre os pobres, porque os representa a todos”, salienta o Papa.

Os pobres e a evangelização

O Papa afirma que, a partir da forte empatia entre Jesus e a mulher e o modo como ele interpreta a sua unção, em contraste com a visão escandalizada de Judas e dos outros, “inaugura-se um fecundo caminho de reflexão sobre o laço indivisível que existe entre Jesus, os pobres e o anúncio do Evangelho” e reforça: “A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja”.

O Bispo de Roma frisou que a esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura. “A primeira corre o risco de gratificar quem a dá e humilhar quem a recebe, enquanto a segunda reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça”. Em seguida, o Papa acrescenta que “os crentes, quando querem ver Jesus em pessoa e tocá-lo com a mão, sabem aonde se dirigir: os pobres são sacramento de Cristo, representam a sua pessoa e apontam para Ele”.

Reforçando a necessidade de aderir com plena convicção ao convite de Jesus – “Convertei-vos e acreditai no Evangelho” –, o Pontífice sublinha que essa conversão consiste, primeiro, “em abrir o nosso coração para reconhecer as múltiplas expressões de pobreza e, depois, em manifestar o Reino de Deus por meio de um estilo de vida coerente com a fé que professamos”.

Novas formas de pobreza

O Santo Padre ressalta que o Evangelho de Cristo impele a ter uma atenção muito particular para com os pobres e requer que se reconheçam as múltiplas e demasiadas formas de desordem moral e social que sempre geram novas formas de pobreza.

“Um mercado que ignora ou discrimina os princípios éticos cria condições desumanas que se abatem sobre pessoas que já vivem em condições precárias. Desse modo, assiste-se à criação incessante de armadilhas novas da miséria e da exclusão, produzidas por agentes econômicos e financeiros sem escrúpulos, desprovidos de sentido humanitário e responsabilidade social”, alerta Francisco.

O Papa recorda, ainda, que a pandemia de COVID-19 agravou a situação de todos os pobres, além de evar muitas pessoas à pobreza em todas as partes do mundo. “É urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens. A solidariedade social e a generosidade de que muitos, graças a Deus, são capazes, juntamente com projetos clarividentes de promoção humana, estão a dar e darão um contributo muito importante nesta conjuntura”, enfatiza.

Individualismo

“Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza e, muitas vezes, descarrega sobre os pobres toda a responsabilidade da sua condição”, afirma Francisco, salientando que a pobreza não é fruto do destino, mas é consequência do egoísmo.

O Pontífice pondera que se impõe uma abordagem diferente da pobreza, desafio que os governos e as instituições mundiais precisam enfrentar.

Por fim, Francisco recorda o pensamento do Padre Primo Mazzolari, sacerdote italiano que se dedicou ao cuidado dos pobres: “Gostaria de pedir-vos para não me perguntardes se existem pobres, quem são e quantos são, porque tenho receio de que tais perguntas representem uma distração ou o pretexto para escapar de uma específica indicação da consciência e do coração. […] Os pobres, nunca os contei, porque não se podem contar: os pobres abraçam-se, não se contam”.

Para ler a íntegra da mensagem, acesse: https://tinyurl.com/yfvw44b9.

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