Jejum: prática que fortalece a alma e converte o coração a Deus

(Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Embora seja uma prática que ganha maior relevância na Quaresma, o jejum faz parte da vida ascética do cristão cotidianamente. Assim como a oração e a esmola, a Igreja o considera como um dos “remédios contra o pecado”.

O jejum consiste na privação voluntária de alimentos, por motivo religioso, durante algum período, como ato de culto perante Deus. Além do jejum, existe a prática penitencial da abstinência, que consiste na escolha de uma alimentação simples ou na renúncia de algum tipo de alimento.

Embora seja uma prática exterior, o jejum impele a pessoa à oração, à escuta de Deus ao exercitar a virtude da temperança, do espírito de sacrifício, do equilíbrio do corpo e da mente, o que leva a uma conversão interior.

Antiga tradição

Os cristãos herdaram esse exercício penitencial da tradição judaica. Na Sagrada Escritura, o jejum é recomendado tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O próprio Jesus o fez por 40 dias no deserto, antes de ser tentado pelo demônio e iniciar a sua vida pública. Ele também aconselhou tal prática quando disse aos discípulos que certas espécies de demônios só podem ser expulsas pela oração e pelo jejum (cf. Mc 9,29).

O povo de Israel jejuava, sobretudo, em intenções especiais, ou em tempos de calamidade, quando eram proclamados dias públicos de jejum, reconhecendo-se pecadores diante de Deus e pedindo-lhe ajuda.

Os profetas exortam incessantemente o povo de Israel a implorar a Deus com coração contrito, a fim de cooperar na realização do desígnio salvador, como se lê na primeira leitura da Quarta-feira de Cinzas: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o co- ração, e não as vestes; e voltai ao Senhor

vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclina- do a perdoar o castigo” (Jl 2,12-13).

Na Igreja

A prática do jejum era muito presente na primeira comunidade cristã. “Tam-bém os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do ‘velho Adão’ e de abrir no coração daquele que crê o caminho para Deus”, recordou o Papa Emérito Bento XVI na mensagem quaresmal de 2009, recordando, ainda, o que escreveu São Pedro Crisólogo: “O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto, quem reza, jejue. Quem jejua, tenha misericórdia”.

São Paulo VI, na constituição apos- tólica Paenitemini, de 1966, reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto do chamado de cada cristão a “não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e… também a viver pelos irmãos”.

Mortificar-se

Para entender o jejum, é preciso com- preender o sentido da palavra mortificação, que, literalmente, significa “fazer morrer”. No livro “Por que mortificar-se? O valor do sacrifício” (Editora Quadrante), o Padre Luiz Fernando Cintra afirma que a mortificação consiste em “trocar a vida que morre pela vida que não mor- re”. Nesse sentido, São Paulo exorta: “Se viverdes segundo a carne, morrereis; se, porém, com o Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis” (Rm 8,13).

Padre Luiz Fernando explica que o conceito paulino de “carne” não se reduz à dimensão da sexualidade, mas “refere-se, acima de tudo, à inclinação para o comodismo, para o orgulho, para a inveja, o ódio, para a ânsia de posse e o consumismo sem freio”. Por isso, o cristão não encara o sacrifício e a mortificação como um fim, mas como um meio para que se manifeste em si a vida de Jesus.

Quando jejuar?

Na tradição católica, os fiéis são cha- mados a se abster de carne em algumas ocasiões, uma vez que este é o quarto mandamento da Igreja: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”.

Tanto na Quarta-feira de Cinzas quanto na Sexta-feira da Paixão, a Igreja prescreve o jejum e a abstinência de carne. O Código de Direito Canônico, contudo, determina que se pratique a abstinência de carne todas as sextas-feiras do ano e durante o tempo da Quaresma, ficando a critério de cada conferência episcopal definir a sua observância. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) substitui a abstinência das demais sextas-feiras por “outras formas de penitência, principalmente obras de caridade e exercícios de piedade”.

A abstinência de carne é prescrita a todos os maiores de 14 anos; enquanto o jejum, aos maiores de 18 anos até os 59 anos. Grávidas e doentes também estão dispensados, bem como aqueles que desenvolvem árduo trabalho braçal ou intelectual no dia do jejum.

Como jejuar?

A orientação tradicional da Igreja é que se faça apenas uma refeição completa durante o dia e, caso haja necessidade, pode-se tomar duas outras pequenas refeições, menores que a quantidade habitual. Este é o chamado “Jejum da Igreja”.

Existem, ainda, outros tipos de jejum que, para serem seguidos, é recomendada a orientação de um diretor espiritual e a avaliação das condições de saúde. Veja quais são:

A pão e água

Após o café da manhã, apenas comer pão e beber água sempre que estiver com fome e sede. Não é indicado ingerir os dois itens ao mesmo tempo, mas aos poucos, durante o período até o anoitecer.

À base de líquidos

Após o café da manhã, alimentar-se ao longo do dia apenas com líquidos, como sucos, chás e cal- dos de verduras, legumes e até de carnes.

Completo

Após o café da manhã, não ingerir qualquer tipo de alimento nem beber água até por volta das 16h.

(Fonte: Livro “Práticas de jejum”, do Monsenhor Jonas Abib)

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