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A Arte em tempos de pandemia

‘O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero’

A cultura e a arte fazem parte da história da humanidade. Por meio das diferentes manifestações artísticas, o ser humano foi desenvolvendo modos de ver e referenciar a beleza e transmitir mensagens de dor, luta, força e fé. A experiência da pandemia em todo o mundo tem mostrado como as pessoas têm encontrado, na arte, saídas para a angústia causada pelo isolamento social ou até mesmo o medo da morte.

Cenas de pessoas cantando ou tocando instrumentos musicais nas sacadas italianas ganharam espaço nas redes sociais, num dos momentos em que o mundo inteiro acompanhava o aumento de casos pela Europa e, por aqui, as lives, ou seja, transmissões ao vivo de artistas de diferentes estilos proliferaram na internet.

A Arte em tempos de pandemia

‘O violinista verde’ é uma obra realizada em 1923 por Marc Chagall (1887-1985). O pintor russo realizou muitas obras que pretendiam mostrar a fuga construtiva da realidade, sobretudo durante as duas guerras mundiais que ele viveu. Frequentemente citou narrativas bíblicas em seus quadros,
pois considerava o Livro Sagrado como referência essencial para sua pesquisa artística

Além disso, cresceram as vendas de livros, sobretudo clássicos da Literatura, em diferentes formatos, por meio de lojas virtuais. É o que mostra a reportagem publicada pelo Diário de Pernambuco, que relata o aumento de vendas em sites como Amazon, Estante Virtual ou o site de monitoramento editorial PublishNews.

Algumas livrarias, como a pequena livraria infantil PanaPaná, na zona Sul de São Paulo, viu seus pedidos aumentarem após publicar, no Facebook, que precisaria vender 15 livros por dia para continuar aberta.

Leitura em família

Todos os dias a família de Paulo César Carneiro Lopes, 54, se reúne para ler em voz alta um trecho da trilogia “O Senhor dos Anéis”, escrita por John R. R. Tolkien. A obra do autor britânico ficou conhecida em todo o mundo e foi adaptada para o cinema, com sucesso internacional.

“Faz-me tão bem ler Tolkien, é como se fosse um momento de oração, de meditação”, disse Lopes, mestre em Literatura Brasileira e doutor em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (USP). Em sua dissertação de mestrado, ele escreveu sobre “Utopia Cristã no Sertão Mineiro – Uma Leitura de A Hora e Vez de Augusto Matraga”, que posteriormente foi publicada como livro pela Editora Vozes. O conto de Guimarães Rosa é sobre a história de Augusto Esteves Matraga, que vive o processo de mudança de uma religião de aparências para uma experiência de fé latente, comunitária.

“Já em ‘Grande Sertão: Veredas’, por exemplo, o personagem Riobaldo é muito religioso, e as figuras do padre e do professor são seus modelos de vida. Conta-se que, quando Guimarães Rosa entrou para a Academia Brasileira de Letras, depois de ter adiado o ingresso por muito tempo – pois tinha medo de se sentir mal durante a cerimônia -, durante a viagem de carro com outras pessoas, ele pediu a todos que rezassem o Terço com ele.”

As referências à fé e à religião fazem parte da pesquisa acadêmica de Lopes, que salienta a importância do Cristianismo para a cultura ocidental. “O objetivo da arte, e em específico o papel da literatura, é oferecer ao homem uma dimensão que vai além do simples adaptar-se ao mundo”, afirmou Lopes, no artigo escrito juntamente com Gerson Tenório dos Santos, intitulado “Literatura e fenômeno religioso”.

No artigo, os autores analisam a letra da canção “Comida”, de 1987, do grupo Titãs: “A canção fala das necessidades biológicas, da arte, do amor. E conclui com a afirmação de que o que queremos é viver a vida como a vida quer. A vida, então, parece revelar-se como um impulso de vida plena. Mostra-se não como uma paixão inútil, sem sentido, mas sim como uma força que busca sua realização; uma energia com direção certa, seguindo não por acaso, mas por amor”, afirma, em determinado ponto a análise que versa também sobre as escolhas que devem ser feitas baseadas em valores e não somente no puro desejo.

Arte e equilíbrio

Veluma Marcela Barbosa, 30, é bancária e está trabalhando de forma remota, em casa. “Moro sozinha desde os 18 anos, então estou acostumada a apreciar e ser minha própria companhia. Porém antes, além do trabalho e faculdade, possuía uma vida voltada ao voluntariado, lazer e viagens”, disse.

Para aproveitar o tempo, Veluma acorda bem cedo para tomar sol, orar, meditar, pois às 8h deve estar pronta para o trabalho. No fim do dia, dedica-se à música e à poesia. “Aos fins de semana e em horários livres apreciava ir a museus, teatros, cinemas, parques, shows… Atualmente, faço o que mais amo, que é o estudo das artes, desenho e toco instrumentos musicais, tais como violão, percussão, flauta, saltério, dentre outros”, disse.

Autora do livro “Poesia. Um Recanto em Meio ao Caos”, Veluma sonha em formar uma banda musical. “A arte tem grande poder motivacional e papel fundamental na transmissão de mensagens, conhecimentos, sanidade mental e claro, entretenimento. Tem o poder de nos tornar mais saudáveis, plenos, felizes e motivados”, disse.

Guardiões da beleza

Em 8 de dezembro de 1965, na conclusão do Concílio Vaticano II, o Papa São Paulo VI escreveu uma mensagem aos artistas, dirigindo-se a poetas e letrados, pintores, escultores, arquitetos, músicos, homens do teatro, cineastas:

“Para todos vós, agora, artistas, que sois prisioneiros da beleza e que trabalhais para ela. A todos vós a Igreja do Concílio afirma pela nossa voz: se sois os amigos da autêntica arte, sois nossos amigos. Desde há muito que a Igreja se aliou convosco. Vós tendes edificado e decorado os seus templos, celebrado os seus dogmas, enriquecido a sua Liturgia. Tendes ajudado a Igreja a traduzir a sua divina mensagem na linguagem das formas e das figuras, a tornar perceptível o mundo invisível.”

Na mensagem, o Papa afirma que a Igreja tem necessidade dos artistas e, por isso, volta-se para eles. “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração. E isto por vossas mãos.”

E conclui: “Lembrai-vos de que sois os guardiões da beleza no mundo: que isso baste para vos afastar dos gostos efêmeros e sem valor autêntico, para vos libertar da procura de expressões estranhas ou indecorosas”.

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