A pandemia ainda não acabou!

São Paulo registra alta de casos de COVID-19. Parte da população aparenta ter se descuidado das recomendações sanitárias de segurança contra o vírus

A pandemia ainda não acabou!
No centro e em outras regiões tem sido comum ver pessoas que não usam máscaras, pondo em risco a própria saúde e a do próximo (foto: Luciney Martins/ O SÃO PAULO)

POR DANIEL GOMES E FERNANDO GERONAZZO

O aumento no número de casos e de internações de pacientes com COVID-19 em São Paulo levou o governo paulista a retroceder todo o estado à fase amarela da flexibilização de atividades, conforme anunciou o governador João Doria, na segunda-feira, 30 de novembro.

Naquele dia, a taxa de ocupação de leitos de UTI para COVID-19 no estado era de 52,2% e na Grande São Paulo de 59,1%, confirmando a alta verificada nas duas semanas anteriores.

Na capital paulista, na ocasião, esse índice estava em 52% na média, sendo que na rede particular a taxa de ocupação de leitos de UTI para o coronavírus tem se mantido acima dos 80%.

No Brasil, já foram registrados mais de 6 milhões de casos e até o começo desta semana mais de 173 mil pessoas haviam morrido em razão dessa doença.

Na fase amarela de flexibilização, há restrições para o horário de funcionamento do comércio e dos serviços, passando das 12 horas, da fase verde, para 10 horas por dia, bem como redução do percentual de ocupação desses locais a 40% de sua capacidade. Não haverá, porém, mudanças no funcionamento das instituições públicas e privadas de ensino. A próxima reclassificação de fase está agendada para 4 de janeiro.

Descuidos com a prevenção

Ao percorrer algumas ruas e locais de grande circulação na capital paulista, a reportagem do O SÃO PAULO constatou que muitas pessoas não estão seguindo as medidas preventivas básicas, como o distanciamento social e o uso de máscara.

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Na Estação São Bento do Metrô, nem todos utilizavam máscaras, no sábado, 28

Nas entradas das estações de metrô e terminais de ônibus, foi comum encontrar usuários que chegam sem máscara e só a colocam quando embarcam. Há, ainda, aqueles que, mesmo dentro dessas dependências, permanecem com a máscara no queixo ou nas mãos e só a vestem quando são abordados por funcionários.

Além disso, ao saírem desses locais, muitos retiram facilmente o protetor facial e não higienizam as mãos.

Há, ainda, os que não usam a máscara corretamente, deixando o nariz descoberto, e aqueles que a retiram para conversar, um comportamento de risco, uma vez que a transmissão do vírus também ocorre por meio das gotículas de saliva.

A reportagem também viu recorrentes aglomerações em alguns supermercados, terminais de transporte e outros estabelecimentos comerciais.

No Viaduto do Chá e em ruas próximas à estação São Bento do metrô, no último sábado, foi possível verificar que alguns caminhavam sem máscara entre as outras pessoas e, não raro, em um grupo da mesma família ou entre amigos parte usava a máscara, parte não.

As pessoas questionadas informalmente sobre o descumprimento dos protocolos preventivos deram respostas evasivas como “eu esqueci de usar a máscara”; “estou em um lugar aberto e não tem ninguém próximo”; “a máscara me incomoda”; e ainda houve argumentos como “não há necessidade”, “isso é bobagem, todo mundo vai pegar COVID-19 algum dia” ou “já tive a doença e, por isso, estou imune”.

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Na Rua 25 de Março, alguns circulavam sem máscara ou a utilizavam erroneamente

Em todo o estado de São Paulo, o uso de máscara também é obrigatório nas áreas comuns dos condomínios, sendo passível de fiscalização da Vigilância Sanitária e aplicação de multa de até R$ 5 mil por morador que descumprir a regra.

Em uma conferência aos membros do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), o advogado especialista em Direito Condominial, Carlos Eduardo Quadratti, afirmou ter recebido diversos relatos de síndicos que têm enfrentado a resistência de moradores em usar máscaras dentro de condomínios.

Há previsão legal para que a multa recebida seja repassada ao morador responsável pela infração, uma vez que este causou um dano ao condomínio. “É uma pena que sejam necessárias tais medidas, quando cada pessoa deveria ter consciência da importância desses cuidados”, lamentou o advogado.

Aumento de casos entre os jovens na pandemia

Uma das preocupações das autoridades é com o aumento dos casos entre os jovens de 20 a 29 anos. Em junho, os infectados nesta faixa etária representavam 13,6% do total, mas em 20 de novembro esse percentual subiu para 17,1%.

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Jovens caminhavam pela Praça Ramos de Azevedo sem máscaras

Chefe da Vigilância Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER), a médica infectologista Ana Angélica Bulcão Portela disse à reportagem que o número de jovens nos leitos de enfermaria para COVID-19 aumentou nas últimas semanas.

“Com a saída deles do isolamento social, especialmente para lazer, até por questões de saúde mental, as internações se tornaram mais intensas. Os jovens têm relatado que participam de reuniões em casa, eventos estes que reúnem 20 pessoas, por exemplo, e se uma delas está com o vírus, pode infectar as demais. Também tem havido o aumento das aglomerações, o que leva à diminuição do distanciamento físico das pessoas”, observou.

Também médico infectologista do IIER, Jamal Suleiman critica quem promove tais atividades. “Irresponsabilidade é o adjetivo certo para o atual comportamento desses jovens. Não se trata de um juízo moral, mas técnico, na medida em que a pessoa tem o domínio da informação sobre as formas de proteção e a importância disso pra ela e o seu entorno, mas não segue”, lamentou, temendo pela piora dos números com as aglomerações nas festas de fim de ano. “Isso nos traz uma angústia, porque o resultado vai ser muito dramático e veremos as consequências em janeiro e fevereiro”, comentou.

Em coletiva de imprensa na última segunda-feira, Jean Gorinchteyn, secretário estadual de Saúde, disse que o governo pretende intensificar a fiscalização em todo o estado para evitar aglomerações e impedir a realização de festas clandestinas.

E quando o vírus bate à porta, o que fazer?

Em julho, ao saber que o resultado do teste do filho para a COVID-19 havia dado positivo, Maria de Fátima Rodrigues Fidelis procurou a Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Vista Alegre, na zona Noroeste, com sintomas de gripe e uma leve dor de cabeça.

Ela e uma de suas filhas, que estava assintomática, foram submetidas ao teste RT-PCR, no qual um swab nasal (uma haste longa e achatada, cujo formato lembra um cotonete) é introduzido nas narinas e na garganta para colher a secreção respiratória e detectar a presença de material genético ativo do Sars-Cov2 (novo coronavírus). Ambas receberam a recomendação de permanecer em isolamento social até o resultado, que ficou pronto após sete dias, com o diagnóstico de infecção para a mãe e a filha.

“O médico nos deu mais 14 dias de atestado. Como eu estava sintomática, ele me receitou a azitromicina [antibiótico usado no tratamento de infecções respiratórias e que age também contra alguns vírus]. Não houve qualquer recomendação do posto de saúde para que voltássemos para fazer um novo teste depois”, disse Maria de Fátima à reportagem.

O monitoramento

A moradora da zona Noroeste da cidade está entre os 779 mil pacientes que a Secretaria Municipal da Saúde afirma já ter monitorado nas UBSs desde o começo da pandemia, entre pessoas com sintomas leves e moderados de COVID-19.

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Foto: Governo do Estado de São Paulo

Segundo a Secretaria, “a atuação consiste no monitoramento telefônico diário dos casos, por um período de 14 dias. Se não há contato, as equipes realizam visitas domiciliares. Nas regiões com Estratégia de Saúde da Família, há intensificação das ações com profissionais de saúde e agentes comunitários de saúde, que orientam sobre formas de transmissão e a importância do isolamento adequado, reforçando as medidas de distanciamento social entre as pessoas do convívio”, consta na nota enviada ao O SÃO PAULO, na qual se informa que mais de 20,5 mil ações comunitárias de orientação e prevenção da pandemia foram feitas, com 2,6 milhões de abordagens.

Conforme o protocolo do Ministério da Saúde, assegura a Secretaria, a prioridade de testagem é para aqueles que apresentem sinais e sintomas da doença, desde que sejam classificados como suspeitos após a avaliação médica. Aqueles que tiveram contato com pessoas cujo resultado do teste para a COVID-19 foi positivo, ainda que estejam assintomáticos, “são orientados sobre as normas de biossegurança, devendo realizar isolamento social”.

A Pasta informou, ainda, que o teste pelo RT-PCR é indicado preferencialmente do 3º ao 7º dia do início dos sintomas, enquanto os testes sorológicos (teste rápido ou sorologia) são os adotados após o 7º dia do começo dos sintomas.

O infectologista Jamal Suleiman ressalta que a estratégia de isolamento não é sempre condicionada à detecção do vírus na mucosa oral por meio do teste RT-PCR. “Por exemplo, se a pessoa chega nos contando que teve um mal-estar, febre, perdeu o paladar ou a capacidade de sentir cheiro, pode ocorrer que o teste dê ‘não detectado’. Isso não é comum, acontece em até 10% das vezes, e nesse caso fazemos o mesmo para quem teve o resultado do teste positivo: a pessoa deverá permanecer em isolamento, inclusive dos contatos domiciliares, e não poderá sair para trabalhar”, detalha.

É fundamental que aqueles cujo resultado do teste para a COVID-19 tenha dado positivo e as pessoas colocadas em isolamento preventivo assim permaneçam, mas isso nem sempre acontece, como relatou, sob a condição de anonimato, uma médica de uma UBS da zona Sul da cidade. “Quando temos a chegada de um paciente com suspeita, buscamos atestar a família inteira para que não vá trabalhar, só que as pessoas aproveitam para ficar na rua ou para viajar, não entendem que se trata de um atestado para isolamento social”, lamentou.

Todos precisam usar máscaras

A Secretaria Municipal da Saúde afirma que, passado o período de 14 dias, o paciente pode receber alta ou ser encaminhado para um hospital de referência em COVID-19 da região, e quem já teve a doença pode voltar a procurar a unidade de saúde de referência para acompanhamento dos sintomas ou desdobramentos da enfermidade.

A infectologista Ana Angélica explica que se o paciente cumpriu o isolamento recomendado e foi devidamente monitorado, não precisará fazer outro teste passados os 14 dias, uma vez que o vírus já terá sido expelido do organismo. “A pessoa só terá o anticorpo quando deixa de ter a doença na garganta, e sabemos, por estudos publicados, que o tempo do vírus na garganta é de, no máximo, 14 dias. Assim, passado esse período, quem já se contagiou com o vírus não mais oferece ricos de transmiti-lo a outras pessoas.”

No entanto, também para os já recuperados, as medidas de distanciamento social, higienização das mãos e, principalmente, o uso de máscaras continuam válidas.

“De fato, passados os 14 dias, ainda que a pessoa tenha fragmentos da partícula viral na mucosa oral, ela é incapaz de transmitir a doença. No entanto, precisará usar máscara, pois ainda que não tenha mais o vírus relativo à primeira infecção, caso ela esteja sem máscara e tenha contato com outra pessoa com um vírus de uma outra variante, pode se contaminar de novo. Embora a reinfecção seja um fenômeno extremamente raro, o que significa que se essa pessoa pegar o vírus de novo a chance de que adoeça é remota, a possibilidade de que ela transmita o vírus com uma outra variante existe”, detalhou Suleiman.

Testagem da população

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A Prefeitura de São Paulo informou à reportagem que até o dia 23 de novembro realizou, nos serviços de saúde que administra, mais de 1,539 milhão de testes, sendo 837 mil de RT-PCR, 500 mil testes rápidos e mais de 201 mil testes sorológicos.

De acordo com Suleiman, apenas com a testagem da população em larga escala há a possibilidade de bloquear a transmissão comunitária da doença: “Com isso, é possível identificar pessoas que são positivas, já que há um grande contingente que tem a infecção, mas sem sintomas. É preciso identificá-las, para, depois, colocá-las em isolamento e rastrear todos os seus comunicantes e aqueles com quem convivem, seja ligando para elas, seja com os agentes comunitários indo até suas casas para ver como está sendo este isolamento, para identificar quais foram os contatos que tiveram e testar todos estes comunicantes. Essa seria a estratégia ideal”.

Ana Angélica também defende a testagem massiva, especialmente em locais com grandes aglomerações de populações vulneráveis ou comorbidades de saúde, além de testar aqueles que procuram as unidades de saúde por já ter um histórico de outras doenças. “Alguém com hipertensão, por exemplo, que já chega sentindo uma coriza, dor de cabeça leve, poderia ser testado. Outra alternativa é fazer a testagem considerando os contatos. Então, se você está com COVID-19, foi ao posto de saúde, o quadro é leve e recebeu o atestado, todas as pessoas de sua convivência deveriam ser monitoradas”, analisou.

NÃO SE DESCUIDE NA HORA DA MISSA
 
1) O uso de máscara para acesso aos templos e permanência neles é obrigatório, devendo ser brevemente retirada, com todo o cuidado, apenas para o recebimento da Comunhão.
 
2) Antes de entrar na igreja, o fiel tem sua temperatura medida e deve higienizar as mãos com álcool em gel. Essa higienização deve ocorrer sempre que a pessoa tocar em qualquer superfície ou objeto e, especialmente, antes e depois de receber a Comunhão.
 
3) As portas das igrejas devem permanecer abertas durante toda a missa, a fim de evitar que o fiel tenha de tocar em puxadores ou maçanetas.
 
4) O fiel deve se sentar apenas nos lugares demarcados, para que se garanta o distanciamento mínimo recomendado. Pessoas que vivam na mesma casa podem se sentar juntas, mas neste caso o ideal é que elas não dividam o banco com outras.
 
5) Os leitores e cantores devem desinfetar as mãos antes e depois de tocarem no ambão ou nos livros.
 
6) Os envolvidos com a Liturgia precisam estar de máscara, à exceção do presidente da celebração, mas se recomenda que este mantenha certa distância em relação aos demais.
 
7) Na procissão para a Comunhão, os fiéis devem respeitar o distanciamento demarcado no chão.
 
8) O sacerdote e os ministros que distribuírem a comunhão precisam usar máscara e desinfetar as mãos antes e depois da distribuição; nesse momento, é indicado que o fiel receba a Comunhão na mão, tomando os devidos cuidados para não desprezar as partículas da Eucaristia e comungar na frente do sacerdote ou do ministro.
 
9) Ao término da missa, a saída das pessoas do templo deve ocorrer sem que haja aglomerações.
 
10) Após a missa, o templo deve ser arejado durante pelo menos 30 minutos, e os pontos de contato, como vasos sagrados, livros litúrgicos, objetos, bancos, puxadores e maçanetas das portas e instalações sanitárias, precisam ser cuidadosamente desinfetados.
 
Fonte: “Orientações Litúrgico-Pastorais para o retorno às atividades presenciais”, produzido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia (maio de 2020)

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