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Dom Luiz Fernando fala a seminaristas da Arquidiocese sobre a ação da Igreja em Moçambique

‘Que a vocação de vocês seja cada vez mais sustentada pela vida de oração, pelos estudos, pela vida em comunidade’, expressou o Bispo de Pemba durante Simpósio Missionário

Dom Luiz Fernando fala a seminaristas da Arquidiocese sobre a ação da Igreja em Moçambique

Em continuidade ao Simpósio Missionário realizado pelo Seminário Arquidiocesano Imaculada Conceição, Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo da Diocese de Pemba, em Moçambique, deu um testemunho missionário para os seminaristas da Arquidiocese, na tarde da quinta-feira, dia 2.

Dom Luiz iniciou com um breve relato do trajeto que o levou até Moçambique. Ele recordou que ainda criança foi com sua família para Osasco (SP), onde conheceu os Passionistas, ingressou no Seminário da Congregação e foi ordenado sacerdote. Já durante os estudos de Filosofia, sentiu nascer no coração uma inquietação missionária e começou a alimentar o desejo de uma missão no continente africano.

Essa inquietação encontrou anos depois uma forma concreta: enquanto estudava Missiologia, dom Luiz teve contato com um sacerdote de Moçambique que se encontrava em São Paulo. Assim, ele iniciou as relações com a Diocese de Pemba, que se estreitaram e o Bispo permaneceu oito anos em missão naquela diocese. Após esse período, retornou para o Brasil, permanecendo por quatro anos em uma paróquia de Curitiba (PR), quando, em 2013, foi nomeado pelo Papa Francisco como Bispo de Pemba.

EVANGELIZAÇÃO  E DESAFIOS

A Diocese de Pemba é enorme e conta com comunidades que estão a mais de 400 quilômetros da sede. Há ilhas em seu território e certas zonas permanecem isoladas nos períodos de chuvas. Os sacerdotes são poucos e as comunidades carecem de lideranças – algumas paróquias contam com mais de cem comunidades. Por isso, Dom Luiz iniciou seu ministério pedindo auxílio a várias congregações e dioceses, para que enviassem missionários e recursos. Assim nasceu a “feliz cooperação”, nas palavras do Bispo, com o Regional Sul 1 da CNBB (São Paulo), que mantém atualmente nove missionários em Pemba.

Muitos foram os frutos: lideranças formadas, mais sacerdotes e missionários, dezenas de seminaristas. A partir de 2017, porém, surgiram novos e graves problemas. Homens armados, fundamentalistas islâmicos, começaram a atacar as aldeias mais distantes, postos policiais e estradas, queimando casas e decapitando os habitantes. Com o tempo, os ataques cresceram e começaram a atingir regiões mais povoadas.

Estima-se que, desde de 2017, sejam já mais de 1.100 mortos e 200 mil deslocados por conta do medo e da destruição. Esse deslocamento, enorme para as proporções de Pemba, criou uma situação de verdadeira calamidade pública. A população está assustada, há crianças que se perdem dos pais e vagam pelos bosques, há fome, aglomeração e, com isso, agrava-se, também, o problema das epidemias, que de tempos em tempos afligem a região.

Tal cenário tem exigido muitos esforços da Igreja local. No início de fevereiro, Dom Luiz escreveu ao Papa Francisco pedindo que, além das orações, fizesse declarações públicas para chamar a atenção internacional para o problema, já que os motivos dos ataques não estão inteiramente claros e o governo local tem procurado escondê-los. A província de Cabo Delgado, onde se encontra a Diocese de Pemba, é riquíssima em riquezas naturais, com reservas recém descobertas de gás, mas também petróleo, ouro e outros materiais. Há muitas multinacionais interessadas na exploração da região, e o governo tem procurado esconder os ataques para não prejudicar investimentos estrangeiros. Jornalistas têm sido perseguidos e um está desaparecido há dois meses.

Por conta de toda essa situação, a pandemia do coronavírus está em segundo plano. “Imaginem o que é dar comida para 200 mil pessoas! Não há comida que chegue”, falou Dom Luiz. Além disso, existe a preocupação de retirar os missionários dos distritos que têm sido atacados.

VIDA MISSIONÁRIA

Dom Luiz Fernando fala a seminaristas da Arquidiocese sobre a ação da Igreja em Moçambique

Com a experiência adquirida nesses anos de missão, Dom Luiz pôde transmitir alguns ensinamentos valiosos para a formação missionária dos seminaristas. Recordou que, para ser missionário em qualquer lugar, é essencial compreender as necessidades concretas do local para o qual se vai e estar disposto a ser surpreendido por Deus.

O atual clima de guerra vivido por Pemba exigiu dos missionários trabalhos que eles nunca esperaram ter de fazer. Muitas paróquias estão paradas, várias lideranças se perderam ou desorganizaram, e a atenção maior tem sido para acolher os refugiados. É uma situação dura, mas real. A Igreja tem procurado ser uma voz, falando do que está acontecendo e procurando ressaltar os direitos que faltam. “Tentamos estar próximos dos mais pobres e necessitados, dos atingidos por essa situação, e esse é o nosso modo de ser missionários”, completou.

HISTÓRICO DE CONFLITOS

Perguntado sobre as relações com os muçulmanos, Dom Luiz disse que, antes da presença dos radicais, a convivência entre muçulmanos e cristãos era pacífica. Se pensa que os radicais pertençam ao Estado Islâmico e é possível que tenham vindo de fora do país. Os próprios muçulmanos, segundo Dom Luiz, se dizem contrários a esses terroristas.

Outro fator que talvez explique, ao menos em parte, o cenário atual, é a história recente de Moçambique. A guerra de independência é recente e foi seguida de uma violenta guerra civil que terminou com a implantação de um regime socialista. O processo de pacificação após a guerra nunca chegou a concluir-se, e parece que os ataques sejam ecos das tensões que existiam antes entre grupos rivais. Por fim, os ataques não são somente contra a Igreja – também algumas mesquitas foram destruídas –, mas ela está sofrendo muito: igrejas destruídas, lideranças mortas e sequestradas etc.

SOLIDARIEDADE

Dom Luiz também destacou alguns aspectos positivos da vida na sofrida Diocese. A generosidade das pessoas durante a crise tem impressionado. Ele citou o caso de um ataque a uma vila localizada a 200 quilômetros da sede. Após um tempo, apareceram na cidade 35 crianças daquela vila, que haviam fugido durante os ataques e fizeram todo o caminho a pé, sozinhas, cuidando umas das outras. Um dos meninos, de 15 anos, carregara seu irmão de 2 anos nas costas. A Igreja procurou modos de alojar essas crianças e uma senhora, que já cuidava de oito crianças, levou outras cinco para casa.

Dom Luiz Fernando fala a seminaristas da Arquidiocese sobre a ação da Igreja em Moçambique
Cardeal Scherer em visita à Diocese de Pemba em 2019 (crédito: Michelino Roberto/O SÃO PAULO)

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, que também participou do encontro e visitou Pemba em 2019, lembrou da alegria do povo durante as missas, que podem durar duas, três ou até quatro horas. Dom Luiz explicou que as missas longas, com dança e músicas, são muito piedosas, expressão de autêntica oração. Os africanos têm a música e a dança no sangue. “Cantam muito bem… fazem com naturalidade coros de várias vozes”, e para eles não há música sem dança. A alegria de suas danças não tem nada a ver com nossas danças, cabem muito bem na Santa Missa, não são desrespeitosas nem profanas”, disse o bispo.

Como exemplo desse espírito piedoso, Dom Luiz citou o comportamento das crianças: “pode haver 200 crianças juntas, elas não fazem bagunça e participam comportadas das celebrações, mesmo quando são muito longas”.

 A FORÇA DA ORAÇÃO

Dom Luiz deixou claro de onde vêm as forças para essa missão: “sem a oração, não vamos para frente. A oração é o combustível da nossa missão”. Recordou que isso vale para qualquer missão, e mais ainda para tempos de maior tensão: sem a oração, não se pode servir Cristo e a Igreja.

As perguntas foram várias e, não fossem os limites de tempo, a conversa poderia ter se estendido. “Agora vamos parar, senão Dom Luiz nos roubará todos os seminaristas”, brincou Dom Odilo, aproveitando a brincadeira para reforçar uma mensagem frequente no simpósio e também proposta por Dom Luiz: todo ambiente é, de modos diferentes, ambiente de missão e a missão da Igreja está longe de acabar: há ainda muitas pessoas e lugares nos quais o Evangelho ainda não chegou.

Dom Luiz despediu-se com uma mensagem final, que bem sintetiza a missão da Igreja: “que a vocação de vocês seja cada vez mais sustentada pela vida de oração, pelos estudos, pela vida em comunidade… o que importa é estar a serviço de Deus, fazer a sua vontade”.

O Simpósio Missionário continua nesta sexta-feira, 3, e no sábado, 4. A iniciativa, realizada pelas plataformas digitais, acontece no lugar da missão anual de férias dos seminaristas, que, este ano, não è realizada devido à pandemia do novo coronavírus.

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