É possível se infectar com a COVID-19 mesmo após estar vacinado?

Não é o que ocorre na maioria das vezes, mas pode acontecer, especialmente se a pessoa adquiriu o vírus dias antes de ser vacinada e o avanço da doença ocorreu primeiro que a produção de anticorpos no organismo

É possível se infectar com a COVID-19 mesmo após estar vacinado?
Fotos: Governo do Estado de São Paulo

Gradualmente, a vacinação contra a COVID-19 avança em todo o Brasil e vão sendo ampliados os grupos aptos a receber o imunizante. No estado de São Paulo, por exemplo, teve início na sexta-feira, 26, a vacinação de idosos entre 69 e 71 anos, um grupo de aproximadamente 910 mil pessoas.

Todos os imunizantes atualmente disponíveis contra o coronavírus no mundo passaram por um detalhado período de testes e aprovações técnicas antes de serem liberados para a aplicação em larga escala. Assim também ocorreu com as vacinas aplicadas no Brasil: a CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan; e a Covishield, da AstraZeneca/Oxford, distribuída e produzida pela Fiocruz.

No entanto, por mais eficaz que seja, nenhuma vacina proporciona 100% de garantia de proteção contra o vírus ou bactéria que pretende combater. Além disso, há outros fatores que explicam o porquê de, raras vezes, quem tomou uma vacina se infecte com aquilo que ela deveria proteger.

Tempo de resposta no organismo

“Todas as vacinas seguem uma mesma lógica básica: ‘enganar’ o sistema imune, apresentando-lhe algo que seja inócuo, mas que desencadeie uma reação eficaz contra o agente infeccioso, o vírus ou bactéria, que se pretende combater”, explicam em artigo no site do Instituto Questão de Ciência (ICQ), a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto, e o doutor em imunologia Gustavo Cabral de Miranda.

“Se a estratégia funcionar, o sistema imune ‘acredita’ que o microrganismo está lá, e monta uma resposta imune como se enfrentasse uma infecção de verdade. Isso gera o que chamamos de memória imunológica. Desta forma, o corpo fica preparado para reagir rapidamente quando se encontrar, de fato, com o agente infeccioso. Qualquer agente – vírus, bactéria, molécula, pedaço de molécula – que chame a atenção do sistema inume recebe o nome de ‘antígeno’. O processo de vacinação consiste em introduzir no organismo antígenos que não causem doenças, mas que o preparem para reagir com eficiência aos que causam”, detalham Natalia e Miranda.

E é este tempo para a montagem da resposta imune, também chamado de janela imunológica, uma das possíveis explicações para os casos em que alguém que tenha sido vacinado contra a COVID-19 apresente sintomas da doença dias depois, conforme explicou ao O SÃO PAULO a médica infectologista Ana Angélica Bulcão Portela, chefe da Vigilância Hospitalar do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER).

“Quando você toma uma vacina, há um tempo mínimo para que você produza os anticorpos, o que geralmente ocorre de sete a 15 dias após ter recebido a vacina. Nesse período, você ainda está exposto e pode adoecer”, detalhou.

“Imagine que alguém se vacinou contra a COVID-19 hoje, mas que tenha se infectado com o coronavírus ontem. O vírus ainda está no período de incubação e, assim, essa vacina acaba não protegendo essa pessoa. Toda a vacina precisa de um tempo para que organismo monte uma resposta, mas enquanto isso não ocorre, a pessoa está suscetível ao vírus”, exemplificou Ana Angélica.

E há esse risco mesmo após a 2a dose?

É possível se infectar com a COVID-19 mesmo após estar vacinado?

No começo deste mês, se tornou conhecido o caso do condutor socorrista Rogério Araújo de Oliveira, de Itabuna (BA), que cinco dias após tomar a 2a dose da CoronaVac teve o resultado positivo de seu teste para o novo coronavírus. Ele apresentou sintomas como tosse, calafrios, perda de olfato e paladar. Cumpriu o isolamento social em casa e não precisou de internação.

Em nota à imprensa na ocasião, o Instituto Butantan explicou que a vacinação diminui o risco de infecção, mas nenhuma vacina é 100% eficaz. Desse modo, algumas pessoas podem desenvolver a doença ainda que vacinadas, porém, a terão de forma menos grave, em função da ação do imunizante. Além disso, explicou o órgão, a resposta imune maior só é alcançada semanas após a aplicação da 2a dose.

“No caso das vacinas, há muitas variáveis. Uma delas é sua eficácia. Nenhuma vacina cobrirá 100%, de modo que pode haver pessoas que não produzam anticorpos após vacinadas e aquelas só vão produzi-los tempos depois. Enquanto isso, ainda podem se infectar”, explicou à reportagem a infectologista Ana Angélica.

No caso específico da CoronaVac, conforme o estudo clínico desenvolvido no Brasil, sabe-se que sua eficácia global é de 50,38%, ou seja, quem tomar as duas doses desse imunizante tem esse percentual de segurança de que não irá se infectar com a COVID-19. Caso se infecte, a proteção para casos leves é de 78%, ou seja, esse é o percentual de chances de que a doença não evolua para um quadro mais grave. E para a totalidade dos vacinados, há a garantia de 100% de proteção para quadros moderados e graves da doença, assim os infectados não precisarão de internação.

Os impactos já percebidos com a vacinação

Na cidade de São Paulo, os efeitos da vacinação nos mais idosos já começam a ser mensurados. Em janeiro, quando a imunização das pessoas com mais de 90 anos começou, morreram por COVID-19 um total de 127 idosos nesta faixa etária. Em fevereiro, o número de óbitos foi de 38, queda de 70%.

Quanto ao número de internações para essa faixa etária, em janeiro foram 246 pessoas; já em fevereiro, o total foi de 104 casos, redução de 57,7%.

“Quando falamos em qualquer intervenção de saúde pública ou médica, fazemos uma análise de risco e benefício. E fazendo cruamente uma análise de risco e benefício desta vacina [CoronaVac], temos uma situação em que o risco pessoal é quase zero, porque os efeitos adversos são mínimos e irrisórios, e há um benefício que não é só individual, mas coletivo, de saúde pública, de reduzir o risco de doença em pelo menos 50%”, afirmou Natalia Pasternak, em uma coletiva de imprensa em janeiro.

No entanto, conforme lembrou a microbiologista, a vacina “não vai pôr fim à pandemia e muito menos vai fazer isso instantaneamente. Nós vamos precisar continuar com as medidas de prevenção, juntamente com a vacina por um bom tempo”, comentou.

Também o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomendou, em fevereiro, que após tomar a vacina contra a COVID-19, todos mantenham cuidados como a higienização frequente das mãos, o uso de máscaras e o distanciamento social, uma vez que o organismo só criará anticorpos passadas uma ou duas semanas após receber a 2a dose de um imunizante contra o novo coronavírus.

(Com informações de G1, UOL, Techmundo e Instituto Questão de Ciência)

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