Há um século, a missão Stella Maris é o apostolado da Igreja no mar

Presente em mais de 300 portos, de 41 países, iniciativa é confiada à intercessão de Nossa Senhora e realiza ações caritativas e de espiritualidade com os navegantes

Há 100 anos, um pequeno grupo de leigos do Apostolado da Oração resolveu estender sua solidariedade pastoral e espiritual às pessoas que trabalham no mar. O primeiro encontro do então chamado Apostolado do Mar ocorreu em 4 de outubro de 1920, em Glasgow, na Escócia.

Há um século, a missão Stella Maris é o apostolado da Igreja no mar
Uma das reuniões do Apostolado do Mar, em Glasgow, na Escócia, na década de 1920 (foto: Arquivo Stella Maris)

A pastoral foi definida como “uma sociedade de homens e mulheres católicos unidos em oração e trabalho para a maior glória de Deus e o bem-estar espiritual dos marítimos em todo o mundo”.

Desde que surgiu, capelães, agentes pastorais e voluntários fazem visitas diárias aos navios atracados nos portos internacionais para distribuir literatura católica, orações e livros, além de oferecer aos marinheiros amizade por meio da escuta.

E assim, há um século, o ministério marítimo da Igreja Católica, que tem a Virgem Maria, a Estrela do Mar, como intercessora, leva o Evangelho por meio do acolhimento fraterno e solidário às tripulações de navios de diferentes nações.

A missão está presente em mais de 300 portos de 41 países. De acordo com dados divulgados no Vatican News, anualmente são realizadas ao menos 70 mil visitas, de navios, a mais de 1 milhão de marítimos em todo o mundo.

Atualmente, Stella Maris é a maior rede de visitantes de navios do planeta, e conta com mais de mil capelães e voluntários. Ela continua a se multiplicar pelos portos internacionais, proporcionando aos trabalhadores do mar acolhimento, sobretudo espiritual, mas, também, apoio psicológico e social quando necessário.

ESPIRITUALIDADE E MISSÃO

Há um século, a missão Stella Maris é o apostolado da Igreja no mar

Em 1922, o Papa Pio XI aprovou e abençoou o Apostolado do Mar e exortou que fosse difundido em todo o mundo.

Para melhor amparar os navegantes em suas necessidades, além das visitas aos navios e celebrações a bordo, o ministério conta com casas de atendimento dentro das docas (cais), com capelas e pontos de acesso à internet e telefones para facilitar o contato dos marinheiros com a família, de quem eles ficam distantes, por vezes, quase durante um ano inteiro.

Nas casas de acolhimento, há ainda salas de leitura e jogos, além de TV com canais internacionais, para facilitar o acesso do navegante às informações de seu país de origem.

Em 1997, São João Paulo II, por meio da carta apostólica em forma de motu proprio Stella Maris, instituiu o regulamento do Apostolado do Mar e atualizou as normas emanadas ao longo dos anos de atuação.

No começo do documento, o Santo Padre reforça que Stella Maris é o nome “com que a gente do mar se dirige Àquela em cuja proteção sempre confiou: a Virgem Maria”. Também recorda que Jesus Cristo “acompanhava os Seus discípulos nas viagens de barca, ajudava-os nas suas fadigas e aplacava as tempestades” e que, da mesma maneira, “a Igreja acompanha os homens do mar, cuidando das peculiares necessidades espirituais daqueles que, por motivos de vários tipos, vivem e trabalham no ambiente marítimo”.

Ao longo da carta, São João Paulo II detalha as atribuições de quem está à frente do Apostolado do Mar, como os capelães e os voluntários, e dos que são assistidos por ação da Igreja.

Em 2020, ao falar sobre o centenário da Stella Maris, o Papa Francisco alertou sobre as dificuldades enfrentadas pelos marinheiros, pescadores e suas famílias, e os colocou em intenção. “Rezemos por todas as pessoas que trabalham e vivem do mar, entre eles os marinheiros, os pescadores e suas famílias.”

Em setembro do ano passado, o nome do Apostolado do Mar foi atualizado para Stella Maris, com o objetivo de unificar a denominação do ministério internacionalmente.

O PORTO SEGURO NOS MARES DA AMÉRICA LATINA E DO BRASIL

A rede Stella Maris tem forte presença nas regiões portuárias do continente europeu e nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. Sua atuação na América Latina também é abrangente. “São 17 centros. Temos uma presença ativa, por meio de sacerdotes e de voluntários, praticamente em quase todas as partes da América Latina”, afirma o Padre Samuel Fonseca Torres, Diretor Nacional do Apostolado do Mar e Coordenador Regional da América Latina e do Caribe.

No Brasil, existem três casas de acolhimento da Stella Maris. A de Santos (SP), fundada em 1970, é a mais antiga do País. Há outra no porto do Rio de Janeiro e mais uma no Rio Grande do Sul.

Há um século, a missão Stella Maris é o apostolado da Igreja no mar
Grupo na Casa Stella Maris em Santos, no litoral paulista (foto: Arquivo pessoal)

Natural da Colômbia e missionário scalabriniano, o Padre Samuel é, desde 2007, o Capelão do Centro Stella Maris do Porto de Santos, o maior do País e da América Latina. “Temos diariamente uma presença de 40 a 45 navios atracados. Em cada um, encontramos de 20 a 22 marinheiros. Isso significa quase mil marinheiros no Porto de Santos por dia. Destes, cerca de 20% frequentam nossa missão”, contou.

Em Santos, a maioria dos trabalha- dores acolhidos tem nacionalidade filipina. Na sequência, estão os de origem indiana, chinesa e de países europeus. “Nós [membros da Stella Maris] temos que ao menos falar três ou quatro idiomas para poder fazer um trabalho bonito com eles: ir a bordo, conversar, escutar e interagir.”

MÃO ESTENDIDA PARA TODOS

Também missionário scalabriniano, Padre Cesare Ciceri, nascido na Itália, atua como Diretor e Capelão do Centro Stella Maris do Rio de Janeiro, onde atracam de sete a oito navios por semana. Ele pontuou o trabalho inter-religioso do ministério, já que o atendimento é disponibilizado para toda a tripulação que chega aos portos, independentemente da religião ou crença do navegante.

“Somos muito respeitados, e os marítimos sabem muito bem que trabalhamos de forma inter-religiosa. Destacamos, claro, que somos da Igreja Católica Apostólica Romana, mas já fiz várias celebrações inter-religiosas aqui”, pontuou.

Padre Cesare recordou que “90% das mercadorias de todos os nossos comodismos, como roupas, tecnologias e alimentação, são transportadas via mar. Não imaginamos os sacrifícios e os sofrimentos que os marinheiros têm. Por isso, a Igreja Católica se torna, junto com outras Igrejas que trabalham neste setor, um ponto de apoio, serenidade e felicidade, para que eles possam superar essas dificuldades”.

PARA QUE A ESPERANÇA SE MANTENHA A BORDO DURANTE A PANDEMIA
Há um século, a missão Stella Maris é o apostolado da Igreja no mar

A pandemia de COVID-19 também trouxe impactos para a vida dos trabalhadores do mar. Eles estão tendo que lidar com restrições de viagem, ampliação do tempo dos contratos de trabalho e fechamento de fronteiras. Mais de 400 mil marinheiros estão esperando em algum lugar do mundo para voltar a seus países de origem.

Padre Samuel Fonseca Torres, o Capelão do Porto de Santos (SP), afirmou que desde março de 2020 o trabalho pastoral tem sido limitado: “Os marinheiros ficam com medo quando vamos a bordo. Nós estamos correndo o risco de levar o vírus e de também contraí-lo”.

Apesar dos riscos, não houve interrupção das ações: “Nosso trabalho aqui no Porto de Santos continua com visita a bordo diariamente para conversar com os marinheiros, escutá-los, orientá-los e celebrar missas”, explicou o Capelão.

Ele destacou, ainda, que a ampliação do tempo de contrato dos trabalhadores com as companhias das embarcações resulta em um maior período longe de suas casas, e que, por isso, o trabalho de acolhimento foi intensificado, uma vez que “as problemáticas sociais e psicológicas da tripulação triplicaram”.

Também no Rio de Janeiro, a atuação da Stella Maris tem sido limitada por causa da pandemia. “A assistência ficou um pouco mais difícil para acessar os navios, porque os capitães estão com muitas preocupações. A realização de missas a bordo foi reduzida. Até tivemos que fazer algumas celebrações on-line”, conta o Padre Cesare Ciceri.

O Diretor da missão no Rio de Janeiro conta que os funcionários das tripulações tiveram seus contratos de trabalho ampliados de 11 para 16 meses, e que para melhor acolher os navegantes, principalmente neste período de pandemia, são frequentes os contatos entre eles e os sacerdotes da rede Stella Maris da América Latina. “Avisamos os colegas de que chegará uma turma que precisará de apoio ou de alguma coisa específica. Isso facilita o acolhimento”, detalhou.

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Padre Cesare visita marítimos em embarcação no Rio de Janeiro; trabalho é mantido em meio à pandemia (foto: Arquivo pessoal)

À ESPERA DO RETORNO A QUIRIBÁTI

No Porto de Santos, o Centro Stella Maris acolheu 25 marinheiros do Quiribáti, país da Oceania que está com as fronteiras fechadas. Esses trabalhadores desembarcaram em Santos no mês de janeiro de 2020 e estão aguardando a repatriação.

Desde que chegaram, es tão hospedados em um hotel, mas passam o dia no Centro Stella Maris, envolvidos em momentos espirituais e em atividades de convivências fraternas.

“Tinha sido agendado para saí- rem no fim de janeiro, mas foi cancelado porque o país deles continua com as fronteiras fechadas. Está em lockdown. É bem provável que eles só saiam daqui em março ou abril”, ponderou o Capelão de Santos.

Jefrianus Tael, 33, agente de pastoral nascido na Indonésia e que está na Casa Stella Maris, em Santos, contou à reportagem do O SÃO PAULO que o grupo de marinheiros do Quiribáti tem expressado gratidão pelo acolhimento recebido: “Eles se sentem da família e confiantes para conversar”. Além disso, demonstraram a alegria em poder participar de missas celebradas exclusivamente para eles, em inglês.

Outra questão compartilhada pelo grupo é o fato de estarem acostuma- dos a passar rapidamente pelos portos. Devido à situação atual, essa realidade mudou, já que estão tendo a oportunidade de permanecer mais tempo com os membros da pastoral e conhecer, por exemplo, a gastronomia da região e a cidade de Santos.

O marinheiro Kabiriera Ngatau, 31, disse que, apesar de todas as dificuldades, ele e os companheiros conseguem enxergar o lado positivo dessa situação. “Está sendo uma bênção, porque com a missão sentimos que podemos nos voltar para alguém.”

Padre Samuel acrescentou que, além do atendimento religioso aos marinheiros do Quiribáti, que se dá com a celebração de missas e confissões, há acompanhamento psicológico e emocional. “Vemos a saúde psíquica deles, o que estão sentindo por estarem longe de casa há tanto tempo e como estão lidando com a saudade.” Todos os dias, são realizadas diferentes atividades com os marinheiros acolhidos. “Cantamos juntos, temos quadras esportivas onde eles podem jogar bola e, como lá no hotel eles não têm como lavar roupas porque é caro, estamos lavando para eles”, detalhou o Capelão.

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