Instituída capelania para católicos nigerianos na Arquidiocese de São Paulo

Instituída capelania para católicos nigerianos na Arquidiocese de São Paulo
Dom Eduardo Vieira dos Santos entrega ao Padre Modestus o decreto de nomeação como Capelão da comunidade nigeriana na Arquidiocese (Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Uma missa na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no centro da capital paulista, no domingo, 28 de fevereiro, marcou a instituição da Capelania Pessoal Santa Josefina Bakhita para os católicos nigerianos de São Paulo.

Na mesma celebração, Dom Eduardo Vieira dos Santos, Bispo Auxiliar de São Paulo na Região Episcopal Sé, apresentou o primeiro capelão dessa comunidade, o missionário nigeriano Padre Modestus Oguchi Aloize.

A Capelania foi instituída pelo Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, após um pedido feito há dois anos por um grupo de nigerianos católicos que desejava um horário permanente de missas no seu idioma nessa histórica igreja da cidade, cuja origem está ligada à devoção dos afrodescendentes.

A língua oficial falada na Nigéria, e também usada na liturgia, é o inglês. No entanto, como em muitos países africanos, a população se comunica por meio dos diversos dialetos falados nas várias regiões do país, como o igbo, yorubá e o hausa, que também se fazem presentes nas celebrações e práticas de piedade dos nigerianos.

Antes de instituir oficialmente a Capelania, o grupo havia convidado o Padre Modestus para passar um período de três meses no Brasil, atendendo a comunidade. Os diálogos avançaram, até que se consolidou a vinda definitiva do Sacerdote, por meio de um convênio entre a Arquidiocese de São Paulo e a Congregação dos Filhos dos Dois Corações do Amor de Jesus e Maria, fundada na Nigéria.

O Cardeal Scherer destacou que São Paulo é “uma cidade multiétnica e pluricultural”, por isso, além de paróquias territoriais, existem as paróquias ou capelanias pessoais destinadas a grupos étnicos diversos, como italianos, franceses, alemães, coreanos, chineses, nipo-brasileiros, latino-americanos. “Com o tempo, a partir de como essa capelania irá se desenvolver, poderá ser criada mais uma paróquia pessoal”, explicou o Arcebispo.

Comunidade numerosa

Estima-se que haja de 2 mil a 3 mil nigerianos católicos na cidade. No entanto, muitos desses fiéis ou participam das comunidades e paróquias brasileiras ou, então, acabaram migrando para igrejas evangélicas pentecostais fundadas por nigerianos, justamente pela dificuldade do idioma e da cultura.

Um dos responsáveis pela iniciativa da Capelania é o leigo Ikenna Kingsley Ojukwu, 51, mais conhecido como Maurício, que vive no Brasil há dez anos. Ele relatou ao O SÃO PAULO que muitos nigerianos católicos têm dificuldades para se inserir nas paróquias brasileiras principalmente pela dificuldade do idioma. “Sentimos falta não apenas de ouvir a Palavra de Deus e celebrar na nossa própria língua, mas também de cultivar os laços da nossa identidade nigeriana como comunidade”, afirmou.

Instituída capelania para católicos nigerianos na Arquidiocese de São Paulo
(Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Sua esposa, Chinonye Benneth Ojukwu, 35, veio definitivamente ao Brasil há dois anos e afirmou estar muito feliz com o início da Capelania. Ela sublinhou que, por mais que houvesse outras comunidades cristãs nigerianas na cidade, essas não podiam oferecer aquilo que é o mistério central da fé católica: a Eucaristia. “Eu sentia muita falta de poder receber a Sagrada Comunhão em uma celebração com o meu povo”, disse.

Segundo Maurício, esse movimento já começou a reunir os católicos que estavam dispersos na cidade. “Desde que souberam que haveria um padre nigeriano permanentemente, muitos dos irmãos que frequentavam outras igrejas já começaram a procurar nossas missas”, relatou, acrescentando que a Capelania também pretende ser um lugar de referência para os imigrantes católicos de outros países africanos de língua inglesa, como a África do Sul e o Quênia.

Capelão

Padre Modestus tem 30 anos e é Sacerdote há quatro. Ele afirmou à reportagem que o fato de poder servir seus compatriotas em São Paulo é uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, um privilégio. Também garantiu que irá se empenhar para ir ao encontro dos muitos fiéis que estão mais distantes, para que se aproximem dessa comunidade de fé. “Eu pretendo oferecer o melhor de mim para realizar essa missão. Nosso povo tem uma fé viva e pode dar um belo testemunho de Deus nesta cidade”, afirmou.

O Capelão também garantiu que pretende aprender logo o português, para poder se comunicar melhor com a Igreja local e com a nova geração de descendentes de nigerianos que começa a surgir. Inclusive, durante a missa de instituição da capelania, quatro crianças foram batizadas.

Viver a fé com liberdade

A liturgia, celebrada em inglês e presidida pelo Superior-Geral da Congregação dos Filhos dos Dois Corações do Amor de Jesus e Maria, Padre Mathew-Mary Chizoba Affusim, foi marcada por cânticos e hinos tradicionais da piedade nigeriana, que eram entoados com fervor por uma comunidade saudosa dessa herança cultural.

Entre esses fiéis estava Hyginus Ugwu, 36. Antes de chegar ao Brasil, há quatro anos, ele viveu um período no Catar. Embora tenha reconhecido que esse país tivesse boas oportunidades de trabalho para africanos, era um lugar difícil para viver a fé católica, por ser majoritariamente muçulmano. “Aqui, no Brasil, além de ser um país católico, fui muito bem acolhido e tenho liberdade para viver minha fé com minha família”, relatou o imigrante, que vive em São Paulo com sua esposa e uma filha.

A felicidade estampada no rosto dos fiéis mostrava que, mais do que compreender o que era falado e cantado na celebração, esses nigerianos puderam se sentir novamente em casa, de onde saíram, muitas vezes, forçados, em busca de uma vida melhor.

País marcado pela fé, sofrimentos e perseguições

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(Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

País mais populoso do continente africano, a Nigéria tem 195 milhões de habitantes, dos quais 11% são católicos.

Apesar de rico em recursos naturais, esse país sofre desde a sua independência do Reino Unido, em 1960, com diversos conflitos internos, muitas vezes, de origem étnica, mas revesti- dos, especialmente nos últimos anos, de motivações religiosas.

Tais conflitos se intensificaram com o crescimento do grupo extremista islâmico Boko Haram, responsável por ataques que deixaram milhares de mortos nos últimos anos e pela imposição de rígidas normas islâmicas que têm levado à fuga de milhares de cristãos. Além disso, o governo do presidente Muhammadu Buhari é marcado por constantes violações constitucionais, corrupção e pobreza generalizada.

Refugiados

Segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), atualmente, existem mais de 200 mil refugiados nigerianos espalhados pelo mundo e cerca de 1,7 milhão de deslocados internos. De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), cerca da metade dos pedidos de refúgio feitos por nigerianos ao Brasil é motivada por conflitos e perseguições. A outra metade se enquadra como migração econômica.

O Serviço de Acolhida e Orientação para Refugiados da Caritas Arquidiocesana de São Paulo, realizado em convênio com o ACNUR, informou ao O SÃO PAULO que, entre 2017 e 2020, foram assistidos 1.376 nigerianos refugiados ou solicitantes de refúgio.

Ainda segundo a Caritas, entre os principais motivos que fizeram esses assistidos buscarem proteção no Brasil estão a perseguição em razão de opinião política, a atuação dos grupos terroristas insurgentes e os conflitos entre cristãos e muçulmanos.

Risco para cristãos

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(Foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

A Nigéria é também considerada um dos países mais violentos para os cristãos. O relatório da Organização Não Governamental Portas Abertas, publicado em janeiro, aponta, pelo sexto ano consecutivo, a Nigéria entre “os países onde mais pessoas foram mortas por sua fé” (3.530 mortos), à frente da República Democrática do Congo (460) e do Paquistão (307).

O Relatório Liberdade Religiosa 2018, da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, ressalta que os nigerianos sofrem com ataques sangrentos, cometidos, sobretudo, contra agricultores cristãos e realizados por pastores de gado muçulmanos da etnia fulani. O documento sublinha, ainda, que a motivação religiosa se sobrepõe às razões sociopolíticas nesses casos.

Sequestros

No dia 26 de fevereiro, homens armados invadiram os dormitórios de uma escola feminina do vilarejo de Jangebe, no estado de Zamfara, no noroeste do País, e sequestraram 279 jovens estudantes, que foram libertadas na terça-feira, 2.

Não é a primeira vez que os nigerianos sofrem com o sequestro de estudantes. Em 2014, das 276 estudantes sequestradas pelo Boko Haram em Chibok, no estado de Borno, apenas algumas dezenas delas conseguiram voltar às suas famílias, apesar da mobilização internacional. Há pouco mais de dez dias, 42 pessoas, incluindo 27 alunas, foram libertadas após terem sido sequestradas em uma escola no centro-oeste do País

Em 15 de janeiro, o Padre John Gbakaan, da Diocese de Minna, foi sequestrado e no dia seguinte, morto. Em 27 de dezembro, pela primeira vez na história da Igreja Católica na Nigéria, um Bispo, Dom Moses Chikwe, Auxiliar da Arquidiocese de Owerri, foi sequestrado por homens armados e retido por alguns dias. Um mês antes, fora sequestrado o Padre Valentine Ezeagu, sacerdote da Congregação dos Filhos de Maria Mãe da Piedade, libertado 36 horas depois. No dia 22 de novembro, o Padre Matthew Dajo, da Arquidiocese de Abuja, foi retirado de sua casa paroquial e libertado após dez dias de cativeiro.

Apelo dos bispos

No início de fevereiro, os bispos das dioceses que compõem a Província Eclesiástica de Ibadan, uma das regiões mais populosas da Nigéria, fizeram um forte apelo pela proteção da população e denunciaram falhas do governo na gestão da segurança nacional.

“Nós, bispos, unimo-nos a todos os nigerianos de boa vontade para pedir às autoridades que permitam iniciativas alternativas e legais às atuais forças de segurança, de modo a proteger a vida e a propriedade de todos os cidadãos”, diz a nota.

Os bispos concluíram o longo comunicado pedindo, “aos nossos fiéis e a todos os nigerianos que rezem incessantemente para que Deus continue a conceder a sua misericórdia ao nosso país, aos nossos líderes e ao nosso povo”.

(Com informações de Agência Fides e ACNUR)

Santa Bakhita

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Primeira santa africana, Josefina Bakhita nasceu em uma aldeia perto da montanha Agilerei, no Sudão, em 1869. Escrava, experimentou diversas humilhações e sofrimentos físicos que fizeram com que esquecesse o próprio nome.

Bakhita, que significa “afortunada”, foi o nome que ela recebeu de comerciantes de escravos. Após ser comprada por um cônsul italiano, foi levada para a Itália e entregue a uma família para ser babá de sua filha.

Essa família teve que retornar para a África e decidiu deixar a filha e a babá aos cuidados das religiosas de Santa Madalena de Canossa. Foi, então, que Bakhita teve seu encontro com o Senhor e foi batizada aos 21 anos, recebendo o nome Josefina.

Em 1896, ela sentiu o chamado para a vida religiosa e se consagrou a Deus, a quem chamava carinhosamente de “o meu Patrão”.

Bakhita se dedicou por mais de 50 anos às várias ocupações no convento. Admirada por sua humildade, simplicidade e alegria, costumava dizer: “Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!”.

Após longa e dolorosa enfermidade, Bakhita morreu em 8 de fevereiro de 1947. Foi beatificada em 1992, por São João Paulo II, que a canonizou em 1º de outubro de 2000, após o reconhecimento da cura milagrosa de Eva Tobias da Costa, brasileira, que havia rezado pela intercessão da religiosa africana.

(Fonte: ACI Digital)

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