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Padroeira dos ferroviários, Nossa Senhora Aparecida marca a história de bairro de São Paulo

Padroeira dos ferroviários, Nossa Senhora Aparecida marca a história de bairro de São Paulo
Procissão pelo bairro com a imagem de Nossa Senhora Aparecida (Foto: Paróquia Nossa Senhora Aparecida/out.2019)

Na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, nesta segunda-feira, 12, O SÃO PAULO recorda a história de uma comunidade paroquial da capital paulista que tem sua origem em uma antiga devoção marcada por uma “relíquia” histórica da padroeira do Brasil.

 Localizada na Mooca, na divisa com o Brás, bairros operários tradicionais da capital paulista, a Paróquia Nossa Senhora Aparecida é fruto da fé dos trabalhadores da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, no lugar onde também nasceu a União dos Ferroviários Católicos do Brasil.

Há indícios de que a devoção a Nossa Senhora Aparecida por parte dos ferroviários tenha cerca de um século. No entanto, um marco histórico foi o período da revolta paulista de 1924, da qual se desdobrou a Revolução Constitucionalista de 1932. Nessa época, como a ferrovia era o principal meio de transporte, havia muitos ataques e ameaças a essas oficinas.

Por isso, os ferroviários confiaram o seu trabalho à proteção de Nossa Senhora e fizeram uma promessa: se nenhum desastre acontecesse às linhas de ferro e nenhum ferroviário fosse morto ou ferido em serviço em decorrência desses conflitos, seria construída uma capela em honra à Padroeira, nas dependências da oficina.

PROTEÇÃO

Os ataques se intensificaram e vários pontos da cidade foram bombardeados por aviões federais, inclusive os bairros operários. Foi, então, que o telhado de uma das oficinas foi atingido por um artefato bélico que, para surpresa de todos, não explodiu. De igual modo, os conflitos que se sucederam na Revolução de 1932 também não vitimaram nenhum dos operários daquele trecho, fatos que foram considerados sinais da proteção de Nossa Senhora.

Desse modo, os trabalhadores obtiveram a autorização para transformar uma sala da seção de maquinistas em uma capela em honra à Virgem Aparecida. Para adornar o oratório, os ferroviários foram presenteados com uma das primeiras cinco cópias fac-símile da imagem da padroeira feitas no Brasil.

A primeira missa aconteceu no pátio da oficina, em 1º de maio de 1934. A data foi escolhida por ser o Dia dos Trabalhadores e, também, devido à celebração do Dia dos Ferroviários, em 30 de abril. Desde então, todos os anos, os operários das ferrovias e das fábricas do Brás se reuniam para celebrar a data com procissões em honra a Nossa Senhora Aparecida.

Em 1952, o Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, então Arcebispo de São Paulo, obteve a aprovação do Papa Pio XII para tornar Nossa Senhora Aparecida a padroeira dos ferroviários.

PARÓQUIA

A comunidade do entorno cresceu e, em 1968, foi construída uma capela maior ao lado da oficina, que hoje pertence à Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O templo passou a receber missas semanais, além da grande festa de maio. Em 1975, o Cardeal Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, erigiu a Paróquia Nossa Senhora Aparecida dos Ferroviários, com uma missa por ele presidida em 1º de maio daquele ano.

Com o passar dos anos, a pequena igreja dos ferroviários não comportava o número de fiéis do bairro, que já havia deixado de ser operário. Por isso, em 1998, foi construída uma nova matriz. Assim, a histórica imagem da padroeira foi trasladada para a nova sede, onde pode ser venerada pelos fiéis. Até hoje, além da festa da padroeira, em 12 de outubro, a comunidade comemora a devoção mariana dos ferroviários em 1º de maio. Atualmente, a antiga capela abriga atividades voltadas à juventude, organizadas pelo Arsenal da Esperança, localizado no bairro.

Padroeira dos ferroviários, Nossa Senhora Aparecida marca a história de bairro de São Paulo
Ferroviários e seus familiares participam de procissão na primeira metade do século passado (Foto: Paróquia Nossa Senhora Aparecida/arquivo)

REFORMA

Este ano, a Paróquia se prepara para mais um passo em sua história com a reforma da igreja matriz, logo após a festa da padroeira. O paroquiano Fábio Rodrigues dos Santos explicou ao O SÃO PAULO que a atual sede fora construída em um tempo muito acelerado, com os recursos que a comunidade possuía, e, por isso, não houve um projeto que considerasse o conjunto de suas necessidades. De acordo com o Pároco, Padre Lorenzo Nacheli, o novo projeto tem o objetivo de ampliar as dependências do templo e dar mais funcionalidade à construção.

No aspecto arquitetônico e artístico, haverá a reformulação do presbitério, para que seja dado maior destaque à imagem da padroeira, que está no centro da história da comunidade. O trabalho artístico será realizado pelo artista plástico Sergio Ricciuto Conte. O projeto também tem o objetivo de dar maior visibilidade à presença da Igreja no bairro, além de tornar a história da devoção e da comunidade mais conhecida pelas novas gerações. “Os ferroviários já não estão mais aqui. A Paróquia precisa ser um lugar de referência também para os novos moradores”, ressaltou Santos.

REVITALIZAÇÃO PASTORAL

Como a maioria das comunidades próximas do centro da cidade, o território de abrangência da Paróquia Nossa Senhora Aparecida dos Ferroviários é marcado por um contraste de realidades. Entre o crescimento dos condomínios de apartamentos, há uma presença significativa de moradias coletivas, pessoas em situação de rua, muitos idosos que vivem sozinhos e baixo índice de jovens que residem no bairro.

Por outro lado, há a juventude que frequenta o campus de um centro universitário que fez com que a rotina do bairro convergisse em grande parte para o atendimento desse público. “Nossa Paróquia está em uma área marcada por estabelecimentos comerciais, repúblicas estudantis, bares, tudo voltado para a juventude. Por isso, pensamos também em oferecer espaços para a acolhida desses jovens. Antes da pandemia, chegamos até a pensar em deixar a igreja aberta até as 23h, já que havia barzinhos abertos até esse horário, e a igreja fechava às 18h”, relatou Padre Lorenzo, sublinhando que a pandemia prejudicou esse projeto, mas que a comunidade espera retomá-lo quando a rotina se normalizar.

Nascida no bairro, a jovem Lívia Miranda não compreende a vida na Mooca sem essa comunidade paroquial em que ela cresceu. Nesse sentido, salientou que a reforma e a revitalização pastoral têm o objetivo de fazer com que a Paróquia continue sendo um lugar onde todos se sintam em casa. “Gostaria que as pessoas, de fato, se sentissem na ‘casa da Mãe’, como eu me sinto aqui desde a minha infância”, afirmou.

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