Uma Igreja edificada com o sangue dos mártires

Protomártires da Igreja de Roma, vítimas da perseguição do imperador Nero, no ano de 64 (reprodução da internet)

Os primeiros três séculos do Cristianismo foram marcados pela expansão da pregação do Evangelho aos diferentes povos, com inúmeras conversões e o surgimento de novas comunidades. Além do anúncio da Palavra, o desenvolvimento da Igreja primitiva também se deve, em grande parte, ao sangue derramado por muitos cristãos em meio às perseguições.

Essa época, também conhecida como a Era dos Mártires, é bem descrita pelo historiador cristão Eusébio de Cesareia, em sua obra “História Eclesiástica”, na qual reúne textos e relatos de fontes como Flávio Josefo, Tertuliano, Fílon e Tácito, que dão legitimidade aos seus escritos.

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Nesses textos, o martírio é apresentado como modelo de fé a ser seguido por todos os cristãos da época. Tais fontes mostram que, no final do século I, o avanço dessa nova religião chamou a atenção das autoridades civis e religiosas. Por isso, o Cristianismo foi declarado uma “religião ilícita e estranha”, “perniciosa”, “malvada e desenfreada”, “nova e maléfica”, “obscura e inimiga da luz”, “detestável”, entre outros adjetivos.

A Igreja de Cristo, assim, estava fora da legalidade, perseguida e considerada o mais perigoso inimigo do poder romano, pois concorria com o culto ao imperador, símbolo e instrumento da força do Império.

As perseguições ao Cristianismo primitivo podem ser divididas em três fases. A primeira foi marcada pelas perseguições ocasionais, esporádicas e espontâneas, em épocas determinadas, geralmente de origem popular. A segunda se deu por meio de leis editadas especialmente com o objetivo de impedir sua expansão ou, ao menos, desorganizá-lo. Já na terceira fase, predominaram as perseguições sistemáticas e generalizadas por todo o Império Romano.

Somente em 313, com o famoso Édito de Milão, o imperador Constantino deu ao Cristianismo a liberdade para viver e conviver no Império.

Nero

A primeira grande perseguição do Império contra a Igreja foi impetrada pelo imperador Nero, após o incêndio da cidade de Roma, em 64, cuja culpa recaiu sobre os cristãos. Nessa época, muitos cristãos foram martirizados de forma bárbara. Alguns relatos atestam que São Pedro e São Paulo foram martirizados no contexto dessa perseguição. Tácito descreve com detalhes esses fatos:

“Além de matá-los (aos cristãos), os fez servir de diversão para o público. Vestiu-os em peles de animais para que os cachorros os matassem a dentadas. Outros foram crucificados. E a outros acendeu-lhes fogo ao cair da noite, para que a iluminassem. Nero fez que se abrissem seus jardins para esta exibição, e no circo ele mesmo ofereceu um espetáculo, pois se misturava com as multidões, disfarçado de condutor de carruagem, ou dava voltas em sua carruagem. Tudo isso fez com que despertasse a misericórdia do povo, mesmo contra essas pessoas que mereciam castigo exemplar, pois via-se que eles não eram destruídos para o bem público, mas para satisfazer a crueldade de uma pessoa”.

Pintura retrata cristãos sendo atacados e mortos enquanto celebraram a Eucaristia nas catacumbas (reprodução da internet)

Outros perseguidores

Dominicano assumiu o Império no ano 81 e dirigiu uma perseguição aos cristãos e a todos os que se recusavam a aderir às tradições religiosas romanas.

O Apocalipse de São João foi escrito durante esse período. No livro, o apóstolo descreve Roma como “a grande rameira … ébria do sangue dos santos, e do sangue dos mártires de Jesus” (Ap 17,1-6). E Pérgamo, a capital da região da Ásia Menor, é o lugar “onde está o trono de Satanás” (Ap 2,13).

Também se destacam as perseguições de Trajano (98-117), Marco Aurélio e Maximino (161-238), Décio (249-251) e Valeriano (249-251).

O período entre os anos 303 e 313 ficou marcado por uma violenta perseguição aos cristãos sob o comando do imperador Diocleciano.

Nessa época, foram editadas as leis que ordenavam a destruição geral de igrejas, objetos de culto cristãos e a destituição de funcionários que fossem adeptos da “nova” religião; a libertação dos cristãos em caso de apostasia, além de ordenar toda a população a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos sob pena de morte ou trabalhos forçados em minas.

Culto

Sobretudo a partir do século II, os relatos dos martírios ganharam maior popularidade entre os cristãos, que tinham os mártires como verdadeiros heróis da fé, sendo venerados pelas comunidades como modelos de seguimento a Jesus Cristo.

Já nessa época, essas testemunhas de Cristo eram invocadas nas Eucaristias, muitas vezes celebradas sobre seus túmulos, nas catacumbas. Na Oração Eucarística I, por exemplo, os nomes de alguns desses mártires são mencionados até hoje: “Estêvão, Matias, Barnabé, Inácio, Alexandre, Marcelino, Pedro, Felicidade, Perpétua, Águeda, Luzia, Inês, Cecília, Anastácia”.

Inspiração

Dentre os vários relatos de martírios, destaca-se o de São Policarpo, Bispo de Esmirna – que recebeu a ordenação episcopal pelas mãos do próprio Apóstolo São João, sendo respeitado em todo o Oriente. Com a perseguição, Policarpo, aos 86 anos, escondeu-se até ser preso e levado ao governador, que tentou forçá-lo a renegar a fé e a reconhecer os antigos deuses. Ele, porém, não cedeu.

Diante da firmeza do ancião, o juiz ordenou que Policarpo fosse queimado vivo e toda a população saiu para apanhar ramos para preparar a fogueira. Quando estavam a ponto de acender o fogo, Policarpo elevou os olhos ao céu e orou em voz alta: “Senhor Deus Soberano […] dou-te graças porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. […] Por isso te bendigo e te glorifico. […] Amém”.

Assim como o testemunho de Policarpo, os relatos de tantos outros mártires se espalhavam e, em vez de desencorajar a Igreja nascente, a inspirava cada vez mais. Tertuliano, um dos padres da Igreja, dizia que “o sangue dos mártires é a semente dos novos cristãos”.

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