Doença, com variadas manifestações, atinge cerca de 40 mil brasileiros. Conheça os principais sintomas e veja um relato de quem convive com a enfermidade

“Na adolescência, eu já sentia dormências, formigamentos e fadiga intensa, mas não entendia que eram sinais da doença. Somente anos depois, percebi que meu corpo tentava me alertar. Os sintomas que me levaram de fato ao diagnóstico foram o formigamento no lado direito do corpo, que me causou parestesia, além da visão dupla (diplopia)”.
O relato é de Ana Carolina Rocha Guimarães, 33, que há cerca de cinco anos compartilha nas redes sociais sua rotina como alguém diagnosticada com esclerose múltipla.
Administradora, criadora de conteúdo, palestrante e ativista pela causa das do enças raras, ela teve o diagnóstico definitivo aos 28 anos de idade. Na adolescência, Ana Carolina já havia passado por diversos médicos, mas somente mais tarde, depois de uma crise intensa, foi internada. A confirmação da esclerose múltipla aconteceu por meio da ressonância magnética e da punção lombar.
SINAIS TÍPICOS
Segundo o neurologista Frederigo Jorge, do Hospital Santa Catarina, a esclerose múltipla ocorre quando a proteção dos nervos, chamada mielina, é atacada pelo próprio organismo. Como essa camada envolve todo o cérebro, os sintomas podem variar bastante: alterações de força, sensibilidade, visão, equilíbrio, vertigem e até perda urinária.
Esses sinais geralmente persistem por dias ou semanas, até que o corpo consiga se recuperar parcialmente. Com o tempo, novas crises surgem em diferentes regiões do sistema nervoso, o que dá origem ao nome da doença: esclerose múltipla, caracterizada por múltiplas lesões.
Embora ainda não exista uma causa definida, Frederigo ressalta que fatores ambientais e genéticos podem influenciar, como infecção prévia por alguns vírus, entre eles o Epstein-Barr, e deficiência de vitamina D, associada à maior atividade da doença. A esclerose múltipla atinge principalmente pessoas jovens, com maior incidência entre mulheres.
INFORMAÇÃO E AUTOCUIDADO
Ana Carolina relatou à reportagem do O SÃO PAULO que a confirmação da doença gerou um choque emocional em si e em sua família, em razão do desconhecimento sobre a esclerose múltipla. Desde então, ela vem aprendendo a ouvir seu corpo, respeitar seus limites e colocar o autocuidado como prioridade.
Atualmente, Ana Carolina utiliza uma bengala devido a complicações na visão e na mobilidade. Ela realiza acompanhamento neurológico contínuo, faz uso de imunobiológico por infusão semestral para controlar a progressão da doença e mantém um estilo de vida que ajuda a reduzir sintomas, incluindo alimentação equilibrada, fisioterapia neurológica e exercícios leves.
“Além do tratamento médico, práticas como pilates, alongamentos, meditação, alimentação anti-inflamatória e até momentos simples de autocuidado fazem diferença no controle dos sintomas”, explicou Ana Carolina.
NÃO É SENTENÇA DE FIM DA VIDA

Durante o tratamento, Ana Carolina começou a participar de grupos e redes de apoio, tornando-se porta-voz em associações. Criou, também, o projeto Minha Voz Importa, que busca dar visibilidade às pessoas que convivem com a esclerose múltipla: “Isso também me conecta a outras pessoas que vivem realidades parecidas”.
“A esclerose múltipla não é uma sentença, não é o fim da vida. Cada paciente é único e, mesmo com os desafios, é possível viver, sonhar e realizar. O que precisamos é de compreensão, acessibilidade e informação. Compartilhar minha jornada, dar voz a quem passa pelo mesmo, e ver o impacto disso me dá forças nos dias difíceis. Além disso, minha família é a grande aliada que me ‘reenergiza’ e me levanta todos os dias”, afirmou.
Para o futuro, ela pretende ampliar o projeto, lançar um livro que está escrevendo, casar-se, viajar ao exterior do país e fazer com que mais pessoas com doenças crônicas e raras se sintam representadas.
Àqueles que, assim como ela, receberam o diagnóstico de esclerose múltipla, deixa um recado: “No começo, o medo fala alto, é tudo muito confuso, mas com o tempo você percebe que a vida continua, só que de um jeito diferente. Se permita sentir, mas também se permita recomeçar. Você não é a doença, você é muito mais que isso”.
30 DIAS DE CONSCIENTIZAÇÃO
Criada pela organização Amigos Múltiplos pela Esclerose (AME) em 2014, a campanha Agosto Laranja visa a dar visibilidade à esclerose múltipla, doença neurológica, crônica e autoimune, que afeta o sistema nervoso central. Atualmente, há cerca de 40 mil pessoas diagnosticadas no Brasil.
Celebrada em agosto, em razão do Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, comemorado no dia 30 deste mês, a iniciativa busca informar a população sobre os sintomas, incentivar o diagnóstico precoce e combater o preconceito.
O laranja, cor escolhida para simbolizar a campanha, representa vitalidade, energia e superação.
DIFERENTES MANIFESTAÇÕES
O neurologista Frederigo Jorge explicou que a esclerose múltipla pode se manifestar de diferentes formas. A mais comum é a Esclerose Múltipla Recorrente Remitente (EMRR), que representa cerca de 85% dos casos. Nesse tipo, o paciente apresenta surtos inflamatórios com sintomas, seguidos de períodos de melhora parcial, até que uma nova lesão apareça em outra região.
Já a Esclerose Múltipla Primariamente Progressiva, mais rara (5% a 10% dos casos), é considerada mais grave, pois leva à perda contínua das funções, sem tantos episódios de inflamação.
Existem ainda formas intermediárias, como a Progressiva com Surto e a Secundariamente Progressiva, que ocorre quando, após anos vivendo com a forma recorrente, a doença evolui para um estágio degenerativo.
O especialista destacou que cada surto pode deixar sequelas, que variam conforme a área do sistema nervoso afetada.
FORMAS DE TRATAMENTO

O tratamento farmacológico pode ter duas abordagens: em casos de inflamação ativa, utiliza-se altas doses de corticoides para conter o processo; já quando a doença é diagnosticada precocemente, é possível adotar um tratamento preventivo.
O acompanhamento deve ser multidisciplinar, envolvendo fisioterapia motora e respiratória, terapia ocupacional, psicologia, nutrição, fonoaudiologia, enfermagem, manejo da dor e psiquiatria.
“Eu costumo dizer que a esclerose múltipla é a doença sobre a qual a medicina mais avançou nas últimas décadas. Hoje, o paciente recém-diagnosticado pode contar com a esperança de não ter novas lesões. É claro que o tratamento tem suas complexidades, mas do ponto de vista médico, vivemos um momento muito avançado de eficiência e segurança”, concluiu Frederigo Jorge.