Especialistas ouvidos pelo O SÃO PAULO alertam sobre comportamentos de risco a serem evitados, especialmente por crianças e idosos

Os episódios recorrentes de engasgos do filho Bernardo, de 4 anos, mudaram a rotina de sua mãe, Ana Caroline Severino, e de toda a família, e a fez buscar cada vez mais informações sobre o tema para evitar o pior.
“Quando está se engasgando, a criança muda de cor, principalmente nos lábios e no rosto. O problema, porém, é que ela não chora nem emite som”, relatou a mãe, que já havia sido orientada pela pediatra sobre os sinais de alerta.
Bernardo tem uma descoordenação na respiração, que o torna mais suscetível a engasgos, por isso sempre há uma atenção redobrada: “Ele não dormia sozinho, não comia absolutamente nada sem supervisão. A escola foi avisada também”, detalhou Ana Caroline.
“Todos os cuidadores, não só as mães, precisam saber minimamente as manobras de desengasgo e a massagem cardíaca. Faz ‘parte do enxoval’”, enfatizou.
VÍTIMAS EM TODAS AS IDADES
O engasgo é uma das principais causas de morte acidental no Brasil, afetando indiscriminadamente todas as faixas etárias. De 2009 a 2019, por exemplo, foram 2.148 óbitos por este motivo em crianças de até 9 anos, segundo estudo publicado na Revista de Pediatria da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj).
Entre os idosos, ocorreram 3.704 óbitos entre 2022 e 2024, média de mais de 1,2 mil mortes por ano, segundo um levantamento da Universidade Veiga de Almeida, com base em dados do Ministério da Saúde.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, 84% dos engasgos ocorrem em menores de 5 anos. Com o envelhecimento, mudanças fisiológicas naturais tornam os idosos igualmente suscetíveis a essa emergência.
De acordo com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), verifica-se um número maior de casos em crianças e um aumento progressivo das ocorrências com o avanço da idade, com pico entre 80 e 90 anos.
POR QUE NOS ENGASGAMOS?
A médica Tânia Maria Russo Zamarato, pediatra e relatora do Departamento Científico de Prevenção e Enfrentamento das Causas Externas na Infância e Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, aponta para algumas possíveis razões para os engasgos recorrentes em crianças pequenas: “Elas exploram o mundo pela boca, são muito ativas enquanto comem e não têm capacidade para mastigar alimentos de forma completa”. Essa combinação de fatores anatômicos, fisiológicos e comportamentais, portanto, cria um cenário de vulnerabilidade particular.
Para idosos, o cenário é diferente. Com a idade, mecanismos de deglutição ficam mais lentos, tornando a alimentação um desafio maior. A perda de sensibilidade oral pode decorrer de alterações neurológicas, infecções virais e envelhecimento fisiológico.
A médica Bárbara de Souza, coordenadora de enfermagem do Samu 192 São Paulo, explica que “adultos e idosos também correm risco significativo de engasgo, especialmente aqueles com alterações na deglutição, uso de prótese dentária mal ajustada, doenças neurológicas ou uso de alguns medicamentos”.

COMO AJUDAR A QUEM SE ENGASGA?
A médica Tânia recomenda que se a criança estiver tossindo efetivamente, em razão de um engasgo, não se deve mexer nela: “Não chacoalhe, não bata nas costas, não vire de ponta cabeça”. Ela ressalta que o organismo tem na tosse “a manobra mais eficaz para retirar o corpo estranho” e que se criança está tossindo é porque ainda está conseguindo respirar.
Para idosos, sinais críticos em decorrência de engasgos incluem ausência de tosse, pele arroxeada, fraqueza, falta de fala ou confusão mental. Agir rapidamente diante destes sintomas é crucial, já que diferentemente das crianças, os idosos podem não apresentar sinais óbvios de engasgo, tornando a situação ainda mais perigosa.
CADA SEGUNDO IMPORTA
“Em caso grave, o tempo de resposta é crucial, pois o cérebro não tolera muito tempo sem oxigênio. De 1 a 3 minutos sem oxigênio, geralmente ocorre perda da consciência se a obstrução não for resolvida”, detalha a médica Bárbara de Souza.
Além disso, a coordenadora de Enfermagem do Samu 192 São Paulo destaca que a identificação precoce é essencial. “No engasgo leve, a pessoa ainda consegue tossir e emitir algum tipo de som; já no engasgo grave, a vítima não consegue mais tossir nem falar, a respiração torna-se ausente e os lábios apresentam-se arroxeados”.
Ela alertou sobre o que NÃO FAZER se alguém estiver tendo um engasgo:
- Não coloque os dedos na boca da pessoa;
- Não ofereça água a ela;
- Não a faça correr;
- Não abane a vítima, nem a sacuda;
- Não interrompa a pessoa enquanto ela tosse;
- Jamais use objetos para puxar aquilo que causou o engasgo.
PRIMEIROS SOCORROS
Tânia detalha que se uma criança menor de 1 ano de idade não emitir som enquanto está se engasgando, deve ser colocada de bruços sobre o antebraço com a cabeça mais baixa: “Aplique cinco batidas nas costas, entre as escápulas. Vire de barriga para cima e faça cinco compressões no osso do peito. Repita até que ela consiga expelir o objeto ou desmaiar”.
Para as maiores de 1 ano, recomenda-se a Manobra de Heimlich: “Posicione-se atrás da criança, apoie a mão em punho entre o umbigo e osso do peito, realizando compressões para dentro e para cima até que possa expelir o objeto”.
Para idosos, a Manobra de Heimlich também é o procedimento ideal, mas é importante incentivar a tosse. Caso essas ações não sejam efetivas, o recomendado é acionar a emergência pelo número 192.

QUANDO ACIONAR A EMERGÊNCIA?
Se a pessoa não consegue emitir sons, não consegue respirar, as manobras não funcionarem, houver perda da consciência ou sintomas como respiração ruidosa, tosse persistente ou confusão, é a hora certa de solicitar um pedido de socorro.
Porém, a coordenadora de enfermagem do Samu reforça que é importante manter a calma após reconhecer a gravidade da situação, para agir corretamente. “A capacitação da população em primeiros socorros é fundamental pois salva vidas, reduz complicações e sequelas e fortalece a resposta comunitária às emergências e a responsabilidade social, além de promover a cultura de prevenção”, concluiu.
EVITE ESTES ALIMENTOS E OBJETOS
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, alguns alimentos aumentam o risco de engasgo em crianças: pipoca, nozes, amendoim, milho, feijão, salsichas, uvas inteiras e tomate cereja.
Pequenos objetos também representam perigos: peças de brinquedos, moedas, tampas de canetas, parafusos e balas. Balões de látex são particularmente fatais.
Para idosos, alimentos de consistência inadequada, muito quentes ou frios, e texturas mistas, como sopas com pedaços, representam maior risco.
PREVENÇÃO: A MELHOR ESTRATÉGIA
Para prevenir engasgos, o melhor caminho é que se crie uma cultura de prevenção. No caso das crianças, desde a tenra idade, devem ser ensinadas a não colocar pequenos objetos na boca; precisam comer alimentos bem cortados e mastigá-los bem. Além disso, recomenda-se que não se dê alimentos duros a menores de 4 anos, bem como um maior cuidado com alimentos que se amoldam na via aérea.
Não menos importante é certificar-se de que a criança esteja acordada antes de oferecer comida, e que ela nunca se alimente deitada nem mastigue enquanto anda, brinca ou fala.
Para idosos, o acompanhamento fonoaudiológico periódico, hidratação adequada, cuidado com higiene oral são as melhores recomendações.
Saiba mais sobre os procedimentos em https://bvsms.saude.gov.br/engasgo





