
Na Quaresma, os cristãos são chamados a práticas que os fortalecem na fé, em preparação para a Páscoa da Ressurreição de Jesus
Revisão de hábitos de vida, reconciliação com o Senhor e com os irmãos, maior escuta à Palavra de Deus e realização das práticas do jejum, da esmola e da oração são parte do itinerário proposto pela Igreja aos fiéis na Quaresma, iniciada na Quarta-feira de Cinzas, dia 18.
Ao longo de 40 dias, há um grande chamado à conversão e à penitência, em preparação para o centro do mistério cristão: a Páscoa da Ressurreição de Jesus.
E POR QUE 40 DIAS?
O nome deste tempo litúrgico deriva da expressão latina “quadragesima dies” (o quadragésimo dia).
“Este número não representa um tempo cronológico exato, uma soma de dias. Indica, mais do que isso, uma paciente perseverança, uma longa prova, um período suficiente para ver as obras de Deus, um tempo no qual é necessário se decidir e assumir as próprias responsabilidades. É um tempo de decisões maduras”, disse o Papa Bento XVI na audiência da Quarta-feira de Cinzas de 2012.
Por 40 dias, o próprio Cristo jejuou no deserto e resistiu às tentações do demônio, preparando-se para a Sua missão (cf. Mt 4,1-11). O número 40 também alude a outros momentos significativos da história da Salvação: por 40 dias e 40 noites um dilúvio cobriu a terra enquanto Noé e sua família aguardaram na arca, com os animais, a renovação do mundo (cf. Gn 7); por 40 anos, o povo de Israel peregrinou no deserto até chegar à terra prometida (cf. Nm 14,33); por 40 dias, Moisés jejuou no Monte Sinai antes de receber os 10 Mandamentos da Lei de Deus (cf. Ex 34,28).
O SIGNIFICADO DAS CINZAS
O rito penitencial de imposição das cinzas no primeiro dia da Quaresma indica o desejo pessoal de conversão a Deus. O celebrante profere a fórmula litúrgica “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19) ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
“Recebemos as cinzas inclinando a cabeça, como que para nos olharmos a nós mesmos, para nos olharmos por dentro. As cinzas ajudam-nos a fazer memória da fragilidade e da insignificância da nossa vida: somos pó, fomos criados do pó e voltaremos ao pó (…) recordam-nos, também, a esperança a que somos chamados, porque Jesus, o Filho de Deus, misturou-se com o pó da terra, elevando-o ao céu. Ele desceu às profundezas do pó, morrendo por nós e reconciliando-nos com o Pai”, escreveu o Papa Francisco na homilia para a Quarta-feira de Cinzas de 2025.
PENITÊNCIA E REORIENTAÇÃO DA VIDA INTERIOR
atecismo da Igreja Católica, os apelos de Jesus à conversão e à penitência não se voltam primordialmente a obras exteriores ou mortificações, mas sim “à conversão do coração, à penitência interior: sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras; pelo contrário, a conversão interior impele à expressão dessa atitude em sinais visíveis, gestos e obras de penitência” (CIC 1430).
A penitência interior, portanto, é uma “reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça” (CIC 1431).
O Catecismo aponta para três formas principais de penitência interior: “o jejum, a oração e a esmola, que exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros” (CIC 1434), também chamadas de exercícios quaresmais de conversão.
JEJUM

O jejum é a privação voluntária de alimento, durante algum tempo, por motivo religioso, como ato de culto perante Deus. Essa prescrição da Igreja deve ser observada para quem tenha de 18 a 59 anos, tanto na Quarta-feira de Cinzas quanto na Sexta-feira da Paixão, assim como a abstinência de carne, também prevista em todas as sextas-feiras do ano aos maiores de 14 anos de idade. As pessoas doentes ou com a saúde debilitada não estão obrigadas a cumprir esses preceitos.
Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Leão XIV afirma que o jejum “constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão, precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos ‘fome’ e o que consideramos essencial para o nosso sustento (…) no entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque ‘não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus’ [Catequese de Bento XVI de 9 de março de 2011]”.
ESMOLA

O Catecismo aponta que “a esmola dada aos pobres é um testemunho de caridade fraterna; é também uma prática de justiça que agrada a Deus” (CIC 2462).
Na Quaresma, portanto, os cristãos são especialmente chamados à caridade por meio das obras de misericórdia, sejam as corporais (Dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; acolher os peregrinos; visitar os enfermos; visitar os encarcerados; e enterrar os mortos), sejam as espirituais (dar bom conselho; ensinar os ignorantes; admoestar os pecadores; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; suportar com paciência as fraquezas do próximo; e rezar a Deus pelos vivos e mortos).
ORAÇÃO

A Quaresma também é tempo oportuno para o aprofundamento da vida de oração. O Catecismo lembra que “a oração cristã é uma relação de aliança entre Deus homem em Cristo. É ação de Deus e do homem; jorra do Espírito Santo e de nós, toda orientada para o Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito homem” (CIC 2564).
Na mensagem para a Quaresma de 2020, o Papa Francisco indicou que “a oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade”.
CONFISSÃO SACRAMENTAL

E se o caminho de preparação para a Páscoa deve levar a uma sincera revisão de vida e à conversão, indispensável é a Confissão sacramental, pois “aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e, ao mesmo tempo, são reconciliados com a Igreja” (CIC 1422).
O penitente deve confessar todos os pecados graves (mortais) ainda não confessados, ou seja, aqueles em que há matéria grave, plena consciência e consenso deliberado em cometê-los, podendo se referir diretamente a Deus, ao próximo ou a si mesmo; bem como os pecados veniais, os de matéria leve, ou mesmo grave, mas sem pleno conhecimento ou sem o total consentimento ao cometê-lo, os quais, embora não rompam a aliança com Deus, enfraquecem a caridade na alma.
TEMPO DE GRATIDÃO A DEUS E DE ESPERANÇA
Todo este itinerário penitencial não deve ser visto como um “peso” imposto ao fiel, mas como oportunidade de crescimento na fé. “A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do cotidiano”, escreve o Papa Leão XIV na mensagem deste ano.
A Quaresma também é ocasião de gratidão a Deus, como apontado por São João Paulo II na mensagem de 1999: “É o tempo favorável para manifestar ao Senhor sincera gratidão pelas maravilhas realizadas a favor do homem em todas as épocas da história e, em particular, na Redenção para cuja realização não poupou o seu próprio Filho (cf. Rm 8,32) (…) “[a Quaresma] faz-nos levantar o olhar para além do presente, da história, do horizonte deste mundo, fixando-o na comunhão perfeita e eterna com a Santíssima Trindade e convida-nos a superar a tentação de considerar definitivas as realidades deste mundo, e reconhecer que ‘a nossa pátria está nos céus’ (Fl 3,20)”.
As recomendações de São Francisco de Sales aos penitentes
No livro “Filoteia: Introdução à vida devota”, São Francisco de Sales (1567-1622), bispo, doutor da Igreja e fundador da Ordem da Visitação de Santa Maria, apresenta reflexões para os que buscam a santificação da vida no cotidiano. Entre suas indicações está a da frequência ao sacramento da Reconciliação. “Abra bem o seu coração para que, pela Confissão, os pecados possam deixá-lo, pois, à medida que eles o deixarem, o precioso mérito da paixão divina entrará nele para enchê-lo de bênção”.
O Santo lembra que na Confissão não basta que o penitente faça afirmações superficiais, tais como “Eu não amei a Deus tanto quanto deveria”, pois não expressam seu verdadeiro estado de consciência. Assim, orienta: “Acuse-se da falta que tiver cometido, simples e naturalmente. Por exemplo, você se acusa de não ter amado o próximo como deveria, talvez porque não socorreu um pobre em grande necessidade, com o qual se deparou e ao qual poderia facilmente ter socorrido e consolado… Acuse-se simplesmente daquilo que você perceber ter faltado, sem alegar aquela generalidade, que não surte nenhum efeito na Confissão”.
São Francisco de Sales lembra, ainda, que a objetividade na Confissão evita que se tente justificar os erros cometidos, mas que é oportuno detalhar algumas situações: “E, se ainda houver necessidade de particularizar as palavras para acusar-se adequadamente [palavras ditas em momentos de fúria, como um ‘palavrão’, por exemplo], penso que seria bom referi-las, pois, ao acusar-se assim naturalmente, não se revelam apenas os pecados que se cometeram, mas também as más inclinações, costumes, hábitos e outras raízes do pecado, por meio dos quais o pai espiritual [sacerdote confessor] toma maior conhecimento do coração que ele está tratando e dos remédios que lhe são próprios”.
O doutor da Igreja lembra, ainda, que, pela Confissão, o penitente não só receberá a absolvição dos pecados veniais “mas também uma grande força para evitá-los no futuro, uma grande luz para discerni-los bem e uma graça abundante para reparar toda a perda que eles lhe causaram”.
Entre os parágrafos 1450 e 1460 do Catecismo da Igreja Católica há detalhamentos sobre os atos recomendados ao penitente antes, durante e depois da confissão, como o exame de consciência sobre suas ações, pensamentos, palavras ou omissões; a contrição (o sincero e profundo arrependimento dos pecados); o propósito de não voltar a cometê-los, a Confissão em si; e a satisfação, que consiste em cumprir a penitência indicada pelo confessor para reparar o dano causado pelo pecado e para dar graças a Deus pelo perdão recebido. Tal penitência “pode consistir na oração, em um donativo, nas obras de misericórdia, no serviço ao próximo, em privações voluntárias, sacrifícios e, sobretudo, na aceitação paciente da cruz que temos de levar” (CIC 1460).
OUTRAS BOAS PRÁTICAS
Na mensagem da Quaresma de 2020, o Papa Francisco fez estas recomendações complementares:
- Desligar a televisão e abrir a Bíblia;
- Usar menos o celular e ler mais o Evangelho;
- Rezar mais;
- Renunciar a palavras inúteis, conversas, boatos e tagarelices;
- Fazer a “limpeza do coração” da “demasiada violência verbal”.
O Papa Leão XIV, na mensagem deste ano, recomenda “a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias”. Também convida a cultivar a gentileza “na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz”.





