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Hiperconectados: os impactos do excesso digital na saúde mental e no comportamento

Aumento de casos de ansiedade, depressão, irritabilidade e insônia, sobretudo entre adolescentes, são as consequências mais comuns

Hiperconectados: os impactos do excesso digital na saúde mental e no comportamento - Jornal O São Paulo
Ron Lach/Pexels

A forma de iniciar o dia e de reali­zar tarefas cotidianas mudou. Se antes a rotina começava com a vista do nas­cer do sol ou com os sons da própria natureza, hoje, desde os primeiros mi­nutos da manhã, as telas ocupam um espaço central. Seja para despertar, seja para pedir comida ou buscar entrete­nimento, o celular tornou-se a compa­nhia mais frequente.

Um levantamento da DataReportal, plataforma de inteligência digital que reúne relatórios globais sobre o uso da internet, aponta que os brasileiros pas­sam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectados. Desse total, mais de três horas e meia são dedicadas às redes sociais.

Nesse contexto, surgem questio­namentos: quais são as consequências de permanecer grande parte do dia conectado? De que maneira a hiperco­nectividade interfere na saúde mental?

O QUE É A HIPERCONECTIVIDADE?

A hiperconectividade pode ser defi­nida como o estado em que a tecnologia deixa de atuar apenas como ferramenta e passa a ocupar um papel central na organização do tempo, das relações e da vida psíquica.

Segundo a psicóloga e psicopeda­goga Rosilene de Sá, o fenômeno não se resume ao ato de estar on-line, mas à sensação de que é impossível se desco­nectar sem experimentar culpa, medo ou ansiedade.

“A hiperconectividade se tornou tão presente porque vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade constante, a disponibilidade imediata e a visibilidade. As tecnologias digitais intensificam esse cenário ao oferecer estímulos contínuos, recompensas rá­pidas e a ilusão de presença permanen­te, mesmo quando estamos emocional­mente ausentes”, explicou a especialista ao O SÃO PAULO.

MAIS CONECTADOS, MAIS ANSIOSOS

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Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que o uso excessivo de telas tem contribuído para o aumento de casos de ansiedade, depressão, irri­tabilidade e insônia, sobretudo entre adolescentes.

Rosilene de Sá também destacou que o fluxo contínuo de estímulos, in­formações e comparações mantém o sistema de alerta do cérebro constan­temente ativado. A mente quase não descansa, o que favorece quadros de ansiedade, sensação permanente de ur­gência e dificuldade de relaxamento.

No caso da depressão, o uso inten­sificado da internet pode aprofundar sentimentos de inadequação, solidão e vazio emocional, especialmente quan­do a vida fora das telas passa a parecer menos interessante do que aquilo que é exibido no ambiente digital.

OUTROS IMPACTOS

A comparação constante com a vida de outras pessoas nas redes sociais é um dos aspectos mais recorrentes da hiperconectividade e impacta direta­mente a autoestima.

“Nas redes, costumam ser exibi­dos recortes idealizados da realidade. Quando alguém confronta sua expe­riência concreta – marcada por limites, frustrações e dores – com essas versões editadas, surge um sentimento frequen­te de insuficiência”, salientou Rosilene.

Além disso, o uso prolongado de te­las interfere diretamente no sono. A ex­posição à luz azul, conforme a especia­lista, altera a produção de melatonina, dificultando o adormecer e comprome­tendo a qualidade do descanso.

No que diz respeito à concentração, o cérebro tende a se habituar a estí­mulos rápidos e fragmentados, o que dificulta manter o foco por períodos prolongados, ler textos extensos ou sustentar uma linha contínua de pen­samento. Com o tempo, esse processo pode gerar fadiga mental e sensação de baixa produtividade.

ESGOTAMENTO EMOCIONAL

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Para quem sofre os impactos da hi­perconectividade, a pressão pela dispo­nibilidade constante elimina os espaços de pausa, silêncio e elaboração emo­cional. O esgotamento surge quando a pessoa sente que nunca descansa, mes­mo dormindo ou permanecendo em casa.

“Esse limite costuma ser percebido quando o corpo começa a dar sinais, como dores de cabeça, tensão muscu­lar, alterações no sono, lapsos de me­mória e irritação frequente. No campo emocional, aparece a sensação de estar ‘no automático’, sem prazer ou sentido”, observou a especialista.

Crianças e adolescentes, segundo Rosilene, são ainda mais vulneráveis a esses efeitos, por estarem em pleno de­senvolvimento emocional, cognitivo e identitário. Além disso, jovens tendem a confundir visibilidade com valor pes­soal, o que pode afetar diretamente a autoestima e as relações sociais.

CONSTRUIR UMA RELAÇÃO SAUDÁVEL

Para lidar com o medo de julgamen­tos e a insegurança gerados pelas redes sociais, o primeiro passo é reconhecer que elas não refletem a realidade em sua totalidade. Fortalecer a identidade, o senso de valor interno e a capacidade de autorreferência é fundamental, con­forme apontado por Rosilene.

Segundo a psicóloga, uma relação saudável com a tecnologia envolve consciência, limites e intenção. Entre os hábitos recomendados estão definir horários para o uso das redes, evitar telas antes de dormir, silenciar notifica­ções desnecessárias, reservar momen­tos para o ócio e priorizar encontros presenciais, sempre que possível.

“Desenvolver vínculos reais, espa­ços de escuta e contato consigo mesmo contribui para reduzir o peso do jul­gamento externo. Não se trata apenas de escolhas individuais, mas de repen­sarmos, como sociedade, o valor que atribuímos ao descanso, ao silêncio e às relações humanas. A tecnologia deve servir à vida, e não o contrário”, conclui.

SINAIS DOS IMPACTOS DA HIPERCONECTIVIDADE NA SAÚDE MENTAL

  • Irritabilidade na ausência de uso do celular;
  • Dificuldade de concentração;
  • Cansaço constante;
  • Ansiedade sem causa aparente;
  • Comparação frequente com ou­tras pessoas;
  • Queda da autoestima;
  • Dificuldade em manter conver­sas e atividades off-line;
  • Medo persistente de “perder algo” ao se desconectar;
  • Sensação de vazio’ após longos períodos nas redes.

3 APLICATIVOS PARA MELHOR CONTROLE DO USO DO CELULAR

AppBlock (Android e iOS): bloqueia temporariamente apli­cativos e sites que causam distra­ções, ajudando a manter o foco.

Forest: (Android e iOS): app de produtividade com temporiza­dor gamificado que incentiva o foco em estudos e trabalho. Ofe­rece recompensas como árvores virtuais e sons ambientes confor­me o usuário atinge suas metas.

Space (Android e iOS): auxi­lia no controle do vício em smartphones, com metas perso­nalizáveis, monitoramento de padrões de uso por até 60 dias e orientações para um uso mais equilibrado do celular.

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