
Nesta edição, o Caderno Pascom em Ação entrevista Marcus Tullius, mestre em Comunicação Social pela PUC-Minas, bacharel em Comunicação Social e licenciado em Filosofia, que fala sobre o conceito de pastoral digital e os desafios e potencialidades que se apresentam aos comunicadores. Tullius também é integrante do Grupo de Reflexão sobre Comunicação (Grecom) da Comissão Episcopal para Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pesquisador da área de Comunicação e Religiões na Intercom, e de Comunicação, Teologia e Religião na PUC-Minas, além de autor do livro “Pastoral Digital: uma mudança paradigmática”, em parceria com a Irmã Joana T. Puntel, FSP.
PASCOM EM AÇÃO – Como podemos definir o conceito de pastoral digital?
Marcus Tullius: A pastoral digital não se reduz ao uso de ferramentas digitais, nem somente à presença da Igreja nas redes sociais. No livro, quando apresentamos a ideia de uma mudança paradigmática, trata-se da forma de compreender a ação pastoral em uma sociedade marcada pela cultura digital, reconhecendo que o digital é um ambiente existencial, um modo de viver, de se relacionar, de se informar e construir sentido. Por isso, a pastoral é chamada não apenas a “usar” o digital, mas a habitar esse ambiente de forma evangélica. Na perspectiva que seguimos no nosso livro, a partir dos pesquisadores italianos Fortunato Ammendolia e Riccardo Petricca, consideramos que é exatamente o conjunto de processos destinados a interagir a pastoral e as tecnologias digitais. Nesse sentido, a pastoral digital integra anúncio, escuta, vínculo, participação e discernimento, assumindo a lógica das redes, da interatividade e da circularidade da comunicação, em sintonia com uma Igreja em saída, relacional e sinodal.
Qual a importância e os desafios da pastoral digital para a Igreja e a sociedade?
A importância da pastoral digital está no fato de que grande parte da experiência humana contemporânea acontece no ambiente digital. Na exortação apostólica Christus Vivit, o Papa Francisco já dizia que o ambiente digital é o ambiente atual. Ignorá-lo significa afastar-se das perguntas, angústias, linguagens e buscas reais das pessoas. Para a Igreja, ela amplia as possibilidades de evangelização, comunhão e participação, respondendo à sua missão; para a sociedade, pode contribuir com presença ética, humanizadora e promotora do diálogo. Os desafios, contudo, são muitos e vão se atualizando. Podemos ressaltar o risco da superficialidade, do ativismo comunicacional, da lógica do desempenho e da polarização; na perspectiva religiosa, ainda há a tentação de reduzir a fé a conteúdo; e a dificuldade de formar agentes capazes de discernir criticamente as tecnologias.
Como a pastoral pode se adaptar às novas tecnologias e manter os valores cristãos?
A adaptação não acontece pela simples adoção de plataformas ou mudar de um ambiente para outro, mas por um discernimento pastoral e espiritual das tecnologias. Isso implica perguntar não apenas “como usar”, mas “para quê”, “a serviço de quem” e “com quais consequências humanas e comunitárias”. Manter os valores cristãos significa colocar no centro a dignidade da pessoa, o cuidado com as relações, a verdade, a escuta e a misericórdia, sempre em chave missionária. No capítulo 3 do nosso livro, acentuamos que a pastoral digital faz parte da identidade missionária da Igreja, que não se reduz às atividades, senão que é anúncio do Reino. A pastoral se adapta quando também educa para o uso crítico do digital, promove processos, valoriza a presença, mesmo mediada, e entende a tecnologia como meio e não fim da ação evangelizadora.

Quais são as principais dúvidas dos ‘pasconeiros’ em relação à Pascom e à pastoral digital?
Entre os agentes da Pascom, é comum surgir a dúvida se a pastoral digital substitui a Pascom ou se são realidades concorrentes. De antemão, dizemos que não: a pastoral digital não é para substituir a Pascom. O que buscamos refletir no livro é que não se trata de oposição, mas de ampliação de horizonte. A Pascom continua sendo a pastoral que articula comunicação, comunidade e missão. Quando pensamos em pastoral digital, não é a criação de uma pastoral, mas é interpelar todas as pastorais e a própria Pascom a repensar métodos, linguagens e processos, afinal, muitas pessoas de nossas comunidades ainda não estão conectadas. Penso que se pode correr um risco de confusão entre evangelização e marketing religioso, especialmente se se deixa levar pela lógica dos algoritmos e à insegurança diante das rápidas transformações tecnológicas. Diante disso, é importante e necessária a formação permanente, com uma espiritualidade cada vez mais encarnada na cultura digital e clareza de que comunicar, na Igreja, é sempre um ato pastoral e missionário, também – e talvez sobretudo – no ambiente digital.
Por Juliana Fontanari
Jornalista e membro do Grupo de Trabalho da Pascom Brasil


