
‘Sem acompanhamento médico, a pessoa pode até perder peso, mas não de forma saudável, correndo o risco de prejudicar a saúde’, alerta a nutricionista Darcilene Lauriano.
Bastam poucos minutos navegando pelas redes sociais para ser bombardeado com dicas de dietas e medicamentos que prometem emagrecimento rápido em poucos dias. Assim que o “algoritmo” identifica o interesse por perda de peso, surgem inúmeros influenciadores dispostos a convencer o público a experimentar supostas soluções “milagrosas” disponíveis no mercado.
Mas será que todas essas recomendações realmente favorecem a saúde? Quais os riscos de seguir orientações e usar medicamentos sem o devido acompanhamento profissional? Especialistas alertam: nem tudo o que viraliza nas redes é totalmente seguro para o seu corpo.
PODEM SER ALIADOS
Em entrevista ao O SÃO PAULO, a nutricionista clínica Darcilene Lauriano explicou as principais diferenças de dois medicamentos injetáveis para emagrecimento muito citados por influenciadores digitais: Mounjaro e Ozempic.
O Mounjaro contém tirzepatida, substância que imita dois hormônios naturais do corpo, GLP-1 e GIP, os quais ajudam a controlar os níveis de açúcar no sangue, reduzir o apetite e prolongar a sensação de saciedade após as refeições. Por isso, este medicamento tem sido muito indicado tanto para o controle do diabetes tipo 2 quanto para a perda de peso.
Já o Ozempic age somente sobre o GLP-1, controlando o apetite e a glicemia, porém com efeito menos intenso. Ambos devem ser aplicados uma vez por semana.
Segundo Darcilene, os medicamentos são indicados para pacientes com diabetes tipo 2 de difícil controle; obesidade ou sobrepeso associados a comorbidades (pressão alta, apneia do sono, resistência à insulina etc.); ou quando há risco à saúde devido ao excesso de peso. Também podem ser prescritos para quem já tentou alternativas como dieta, atividade física e mudança de hábitos, mas não obteve resultados consistentes.
MAS TAMBÉM VILÕES
Entre os principais riscos apontados pela nutricionista na utilização dos dois medicamentos estão: hipoglicemia (queda de açúcar no sangue), mesmo em pessoas sem diabetes; desnutrição por ingerir poucos alimentos; efeito sanfona após a interrupção do tratamento; além de aumento repentino do apetite e falta de controle dos efeitos colaterais, que podem ser intensos no início (náuseas, vômitos etc.).
“Sem acompanhamento médico, a pessoa pode até perder peso, mas não de forma saudável, correndo o risco de prejudicar a saúde”, alertou.
Os efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia, constipação, azia, desconforto abdominal e perda de apetite. Em casos mais graves, podem ocorrer pancreatite, pedras na vesícula, hipoglicemia severa, alergias ou reações adversas graves
Ao interromper o uso de forma abrupta, o paciente pode apresentar retorno intenso do apetite, ganho rápido de peso e aumento da glicemia (em caso de diabetes).
“O metabolismo não fica ‘viciado’, mas o corpo tende a voltar ao padrão anterior. Isso dá a sensação de que tudo ‘desandou’. Como o remédio reduz muito o apetite, ao parar, o corpo
tenta compensar com mais fome. É uma resposta natural. Por isso, o acompanhamento nutricional é fundamental, tanto durante quanto após o uso”, frisou.
Além disso, Darcilene alertou para o risco de deficiências nutricionais causadas pelo uso prolongado desses medicamentos. Entre as principais estão anemia, queda de cabelo, fraqueza muscular e alterações de humor ou concentração.
Segundo ela, isso ocorre porque, com a redução do apetite, a pessoa tende a consumir menos alimentos ricos em ferro, vitaminas do complexo B, proteínas e outros nutrientes essenciais, o que pode comprometer a saúde de forma geral.
UM RECOMEÇO CUIDADOSO

A comerciante Mayara Campos Arruda, 31 anos, iniciou seu processo de emagrecimento em 2017. Ela chegou a pesar cerca de 130 quilos e enfrentava problemas de saúde como gordura no fígado, pré-diabetes, má circulação e pressão alta.
Após avaliação médica, foi orientada a realizar uma cirurgia bariátrica e, posteriormente, passou a ser acompanhada por uma equipe multidisciplinar, incluindo nutricionistas.
“Eu sempre fui uma criança e adolescente acima do peso. Desde pequena, o mundo das dietas fez parte da minha vida, porque meus pais sabiam que eu tinha tendência a engordar. Toda a minha família tem alguma questão com peso. A comida, muitas vezes, foi meu consolo”, contou Mayara.
Na nova fase, ela passou a introduzir alimentos ricos em vitaminas e proteínas, priorizando os legumes e o consumo de três litros de água por dia, um dos maiores desafios, segundo ela.
“Todo novo hábito tem uma certa dificuldade até que ele vire rotina. Sempre gostei muito de doces; então precisei me policiar para ter sucesso no meu processo de emagrecimento”, recordou.
UM PASSO DE CADA VEZ
Mayara também passou a praticar atividades físicas. No início, fazia esteira, pulava corda e caminhava. Com o tempo, começou a treinar musculação, o que foi essencial para que fortalecesse os músculos e ganhasse massa magra. No começo, ela frequentava a academia três vezes por semana; hoje, treina de segunda a sábado.
“Quando você começa a se cuidar e percebe as mudanças, seja na disposição, seja nas roupas que finalmente voltam a servir, isso o motiva ainda mais. E não é algo temporário, é para a vida. Cuidar da alimentação e se exercitar são hábitos que precisam permanecer”, destacou.
Com a perda de peso, Mayara relatou melhora no condicionamento físico e o desaparecimento das dores nas costas, pernas e região lombar: “Essa mudança não é só física, mas também emocional. Passei a me cuidar mais, a me arriscar, a comprar roupas de que realmente gosto, e não apenas as que me servem. A transformação foi completa”, disse.
A comerciante reforça que o acompanhamento profissional foi essencial em todo o processo: “Ter orientação me deu direção, motivação e segurança. Sozinha, provavelmente teria desistido”.
“Meu conselho é: dê o primeiro passo, mesmo que pequeno. Não espere o momento perfeito. O importante é não desistir e buscar ajuda para entender o que funciona para você. Aos poucos, tudo se encaixa. Cada escolha conta, e os resultados vêm com o tempo”, concluiu
FIQUE ATENTO!
Os medicamentos Mounjaro e Ozempic só podem ser adquiridos mediante receita médica, que deve ser retida pela farmácia, garantindo seu uso seguro e supervisionado. Não compre nenhum desses medicamentos sem prescrição médica e sempre o faça em farmácias autorizadas
PROGRAMA PESO SAUDÁVEL
Na plataforma “Meu SUS Digital” https://meususdigital.saude.gov.br – também acessível pelo app de mesmo nome, é possível encontrar o link para o programa “Peso Saudável”, com orientações práticas para ajudar a prevenir o excesso de peso.





