Em diferentes unidades hospitalares do Brasil, cães, palhaços e musicoterapeutas atenuam os medos e angústias de quem passa por internações e tratamentos prolongados

O som de um violão ecoa suavemente pelo corredor da UTI. Em um outro quarto pediátrico, uma cachorrinha oferece a pata a uma menina que, até então, se recusava a receber medicação. Em outra ala, uma alta gargalhada quebra o silêncio. Cenas como essas, antes impensáveis, estão se tornando parte fundamental de uma nova abordagem de cuidado no Brasil: a humanização do tratamento hospitalar.
Com apoio de médicos e psicólogos, projetos que utilizam palhaçaria, musicoterapia e terapia assistida por animais ganham espaço ao reduzir a ansiedade dos pacientes, melhorar a adesão ao tratamento e promover o bem-estar. A humanização foca o indivíduo por trás da doença e mostra que o cuidado vai além dos medicamentos.
ABORDAGEM PSICOSSOCIAL

Valéria Batista, psicóloga hospitalar há 26 anos no Hospital da PUC-Campinas, assegura que o atendimento humanizado é essencial nos hospitais, pois aborda o paciente como um indivíduo com uma história biopsicossocial: “Não olhamos somente para a situação de um corpo doente; a doença afeta não só o corpo, mas também emoções, pensamentos e relações”.
A psicóloga destaca que o atendimento humanizado começa pela escuta empática, ajudando o paciente a se sentir seguro e iniciar seu processo de adaptação ao ambiente hospitalar.
No atendimento pediátrico, o brincar se torna ferramenta clínica. “Muitas vezes, as crianças não sabem ou não conseguem explicar seus sentimentos. O desenhar, o brincar, ouvir histórias e dar continuidade a essas narrativas permitem que ela mostre possíveis respostas como medo, tristeza, traumas e raiva de um jeito que já faz parte do seu universo, de uma forma mais natural”.
Essas práticas ajudam os pacientes a reduzir os temores acerca do ambiente hospitalar. “Pelo brincar, esses estímulos vão sendo dessensibilizados, e isso auxilia muito no repertório da criança para que ela possa enfrentar os procedimentos”, explica Valéria
‘AQUI É LUGAR DE PALHAÇO?’ E DE CRIANÇA?

Há 34 anos no Brasil, os Doutores da Alegria hoje são reconhecidos como colaboradores para a humanização do atendimento hospitalar, mas nem sempre foi assim: “Quando o trabalho começou, em 1991, o palhaço não era bem visto. Muitas vezes, a gente escutava: ‘O hospital não é lugar de palhaço’”, recorda David Taiyu, diretor artístico do grupo.
Foi preciso, então, inverter esta lógica: “No nosso pensamento, o hospital também não é lugar de criança. Lugar de criança é na escola, na rua, brincando no jardim, em casa com os amigos. E se a criança está dentro do hospital, então a gente também está ali com a tarefa de lembrá-la de que ela é criança e que precisa existir neste universo”, afirma David. “A arte não atrapalha o cuidado. Ela potencializa o cuidado, o olhar, e a escuta”, enfatiza.
David menciona os impactos verificados pela ação dos Doutores da Alegria: “Uma criança não falava e passou a se comunicar por meio de um jogo. Um pai chorou depois de rir, dizendo que havia semanas que não se permitia acessar essa emoção. Uma mãe disse: ‘Hoje meu filho foi criança de novo’”.
E quando a criança deixa o hospital? Nessa hora, o palhaço também chora. “A gente acompanhou uma criança durante um ano inteiro, e no dia em que toda a família dela estava reunida para se despedir, chamou os palhaços para se despedir deles também”.
TERAPIA DE FOCINHO’ E CARINHO

Nessa mesma linha de cuidado afetivo, o Terapia Cão Carinho, de São Paulo, utiliza o “amor incondicional dos cães” para quebrar o isolamento provocado pela internação. Segundo Rita de Cacia Gonçalves da Silva, representante da ação, a iniciativa nasceu da “união de pessoas dedicadas a transformar o bem-estar social por meio do amor incondicional dos cães”
Andrea Zgouridi, colaboradora do projeto, relata um episódio marcante: “Em um hospital, uma menina não permitia que a enfermeira acessasse a veia para administrar a medicação. Uma das nossas voluntárias disse que também tinha medo, mas que a Nala, uma das nossas cachorrinhas, lhe daria coragem. A menina segurou a pata da Nala e estendeu o outro braço para a enfermeira, confiante”.
Priscila Lotufo, zootecnista e especialista em comportamento animal, explica que todos os cães que participam do projeto são sociáveis, mesmo com pessoas desconhecidas: “Devem ser tolerantes a diferentes tipos de contato físico, pacientes e acostumados a diversos ambientes. Também precisam saber alguns comandos básicos e ser sociáveis com outros cães”.
Mara Bernardes, também colaboradora da ação, descreve a transformação que as visitas proporcionam no ambiente hospitalar: “Muitas vezes, chegamos e encontramos as pessoas quietas, preocupadas ou até desanimadas, mas quando os cães entram, tudo muda. Os sorrisos aparecem, as conversas aumentam, os olhos brilham e até a equipe do hospital entra no clima”.
Ainda segundo Mara, é muito comum ver pacientes que estavam mais quietos começarem a interagir, contar histórias e fazer carinho nos cães. “Parecem até esquecer, nem que seja por alguns minutos, que estão ali por causa de um tratamento. Depois que a visita termina, parece que a ala ganha ‘um respiro’, uma sensação de acolhimento e alegria. Não é só o paciente que se beneficia. Familiares e profissionais também acabam sendo ‘contagiados’ por esse momento tão simples, mas tão especial”.
O SUPORTE AO TRATAMENTO HUMANIZADO

No Hospital da PUC-Campinas, o voluntariado é coordenado pela área de Comunicação e Marketing. Todos passam por capacitações e orientações da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar. Atualmente há de 200 a 250 voluntários, entre palhaços, músicos, corais, agentes da Pastoral da Saúde, além dos cães terapêuticos.
“As famílias e acompanhantes também são favorecidos com as práticas humanizadas. O ambiente hospitalar torna-se mais acolhedor, diminuindo tensões. Quando observam o paciente sorrindo e interagindo, a angústia da família também diminui, e a confiança na equipe aumenta”, comenta Crislaine Gava, assessora de imprensa e responsável pela comunicação do hospital.
E POR QUE FAZ TÃO BEM?

A melhora percebida pelos pacientes tem explicação bioquímica. Valéria afirma que “o abraço e o riso podem reduzir hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol, e aumentar hormônios ligados ao bem-estar, como a ocitocina”.
Pesquisas sobre terapias assistidas por animais também apontam benefícios como melhora dos sinais vitais, autoestima e redução do tempo de internação. Segundo Valéria, o atendimento humanizado também previne traumas psicológicos, especialmente em crianças e idosos.
Para Alexandre Simões, um dos voluntários do Terapia Cão Carinho, “a maior mensagem sobre o papel dos animais no atendimento humanizado e na recuperação emocional dos pacientes é a de que o amor puro, incondicional e verdadeiro deles é uma mensagem de Deus.
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Doutores da Alegria @doutoresdaalegriaoficial
Terapia Cão Carinho @terapiacaocarinho
Contato para voluntariado do Hospital da PUC-Campinas: a[email protected].





