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Retiro espiritual: o deserto necessário na Quaresma a todos os batizados

Convite ao silêncio, à escuta da Palavra e à conversão, os exercícios espirituais ajudam a reorientar a Vida Cristã

Retiro espiritual: o deserto necessário na Quaresma a todos os batizados - Jornal O São Paulo
Luciney Martins/O SÃO PAULO

No caminho litúrgico da Igreja, a Quaresma é um tempo privilegiado de conversão, silêncio e retorno ao essen­cial. Durante esse período, os fiéis são convidados a intensificar a oração, o jejum e a caridade, preparando-se para a Páscoa. A própria liturgia ecoa o ape­lo de Cristo: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Nesse contexto, os retiros espirituais tornam-se uma prática especialmente recomendada, embora sejam valiosos em qualquer momento do ano.

A Sagrada Escritura oferece o fun­damento dessa tradição. Os evange­lhos afirmam que “Jesus retirava-se para lugares solitários e orava” (Lc 5,16) e que, antes de escolher os 12 apóstolos, subiu a um monte e “passou a noite inteira em oração” (Lc 6,12). Além disso, antes de iniciar sua vida pública, Cristo permaneceu 40 dias no deserto. Na Bíblia, o deserto é compre­endido como lugar de escuta, combate interior e renovação da missão.

Em sua mensagem para a Quares­ma de 2026, o Papa Leão XIV recorda que este é “um tempo favorável para voltar ao coração, onde Deus nos es­pera”, insistindo na necessidade de re­descobrir “o silêncio que abre espaço à Palavra e à conversão”. Ao propor que os fiéis vivam este tempo como cami­nho de retorno ao essencial, o Santo Padre reforça a importância concreta de práticas que favoreçam essa escuta – entre elas, os retiros espirituais.

A TODOS OS BATIZADOS

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O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a oração é a vida do co­ração novo” (CIC 2697) e recorda que a Igreja propõe “ritmos de oração des­tinados a alimentar a oração contínua” (CIC 2698). Os retiros inserem-se nes­sa pedagogia espiritual: são tempos fortes em que o cristão interrompe sua rotina para colocar-se mais intensa­mente diante de Deus.

O Concílio Vaticano II reafirmou a importância dos exercícios espiritu­ais, recomendando-os aos sacerdotes como sustento da vida interior (Pres­byterorum Ordinis 18), e o Código de Direito Canônico prevê a realização anual de retiros para os clérigos (cân. 276 §2, 4º). Contudo, essa prática não é exclusiva do clero.

A constituição dogmática Lumen gentium ensina que “todos na Igreja (…) são chamados à santidade” (LG 39), e o Catecismo recorda que todos os fiéis são convocados à perfeição da caridade (cf. CIC 2013). Se a vocação é universal, também o são os meios que a sustentam. O retiro espiritual, por­tanto, não é privilégio de poucos, mas caminho acessível e recomendável a todo batizado – leigos, jovens e famí­lias – como instrumento concreto de crescimento na vida cristã.

Entre os grandes mestres espiritu­ais, Santo Inácio de Loyola sistemati­zou os Exercícios Espirituais como um itinerário de discernimento e conver­são. Ele explica que os exercícios têm por finalidade “preparar e dispor a alma para tirar de si todas as afeições desordenadas e, uma vez afastadas, buscar e encontrar a vontade divina na disposição da própria vida”. Trata-se de um caminho estruturado de silên­cio, oração e exame interior.

Santa Teresa de Jesus insistia que a oração não é privilégio de poucos, mas caminho aberto a todos. No livro Castelo Interior, recorda que a oração mental não é outra coisa “senão tratar de amizade, estando muitas vezes tra­tando a sós com quem sabemos que nos ama”.

Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja e mestre de espiri­tualidade, afirmava com clareza que “quem reza se salva, quem não reza se condena”, sublinhando que a oração é necessidade universal e não prática reservada a religiosos. Em sua obra “A Prática do Amor a Jesus Cristo”, insiste que a santidade é possível em qualquer estado de vida, desde que a pessoa cul­tive o trato constante com Deus.

NÃO É UM SIMPLES ENCONTRO

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No Magistério recente da Igre­ja, São João Paulo II recordou que a formação espiritual exige “momentos fortes de oração” (Pastores Dabo Vobis 47). O Papa Bento XVI, em sua cate­quese sobre a oração, em 9 de mar­ço de 2011, ensinou que “o silêncio é capaz de abrir em nós um espaço interior para Deus”, recordando que o recolhimento não é ausência, mas condição para a verdadeira escuta.

Na exortação apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco advertiu contra a “acídia egoísta”, uma espécie de cansaço espiritual que leva à perda do entusiasmo na vida cristã, e afir­mou que sem momentos prolongados de adoração “as tarefas facilmente se esvaziam de sentido” (EG 262).

Assim, é importante distinguir o retiro de um simples encontro, o qual pode ser formativo ou celebra­tivo, com dinâmicas e convivência fraterna. O retiro espiritual, embora também possa incluir momentos co­munitários, caracteriza-se pelo reco­lhimento, pelo silêncio e pela centra­lidade da oração pessoal. Não se trata apenas de participar de atividades re­ligiosas, mas de criar espaço interior para o encontro com Deus. O silên­cio não é acessório: é condição para escutar.

TIPOS DE RETIROS

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Existem diferentes modalidades de retiro. O retiro anual, geralmente de dois a cinco dias, é vivido em cli­ma de silêncio, com meditações, cele­bração da Eucaristia, adoração e exa­me de consciência. Muitas dioceses, Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO paróquias e movimentos eclesiais o promovem na Quaresma, favorecen­do uma preparação mais intensa para a Páscoa.

Os Exercícios Espirituais inacia­nos constituem uma modalidade mais estruturada e profunda, poden­do ser realizados de modo intensivo ou adaptados à vida cotidiana.

Nos últimos anos, difundiram­-se retiros querigmáticos, centrados no anúncio do amor de Deus e na experiência pessoal de conversão. Embora mais dinâmicos, conser­vam um núcleo essencial de oração e escuta.

Além dos retiros prolongados, existem os recolhimentos espirituais, realizados ao longo de uma manhã ou tarde. São oportunidades periódicas de interromper a rotina, ouvir uma meditação, fazer exame de consciên­cia e renovar propósitos. Para muitos leigos e famílias, os recolhimentos mensais tornam-se um meio estável e concreto de crescimento espiritual ao longo do ano.

Mais do que uma simples “pausa psicológica”, o retiro é tempo de gra­ça: ocasião privilegiada para confron­tar a própria vida com o Evangelho, purificar intenções, retificar rumos e reacender a esperança. Seu fruto au­têntico não se mede pela intensidade das emoções, mas pela solidez das de­cisões que brotam do encontro com Deus. Ao propor esses tempos fortes, a Igreja recorda que o silêncio dian­te de Deus permanece um dos cami­nhos mais seguros para renovar a es­perança e avançar, passo a passo, no caminho da santidade.

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