Dom Edson Oriolo: ‘Uma paróquia bem gerenciada atinge com eficiência o seu objetivo: a evangelização’

Dom Edson Oriolo (Foto: Diocese de Leopoldina)

Bispo de Leopoldina (MG), Dom Edson José Oriolo dos Santos dedica-se há alguns anos à temática da gestão eclesial. Mestre em Filosofia Social, especialista em Marketing e pós-graduado em Gestão Estratégica de Pessoas, ele é autor de algumas publicações sobre esse tema.

Por ocasião de sua participação no curso de extensão sobre secretariado paroquial, promovido pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (PUC-SP) e a Faculdade de Direito Canônico São Paulo Apóstolo, Dom Edson concedeu uma entrevista ao O SÃO PAULO, na qual destacou os fundamentos da gestão eclesial e seus desafios na perspectiva pastoral, tema de seu livro “Gestão Paroquial para uma Igreja em saída”, publicado pela Paulus Editora.

O SÃO PAULO – Em linhas gerais, o que é gestão?

Dom Edson José Oriolo dos Santos – Gestão é um substantivo feminino derivado do latim gestione, que significa executar, obter sucesso com meios adequados. Refere-se, portanto, à ação e ao efeito de gerir ou administrar. Esse é um termo que causa muita dúvida. Mas é bom lembrar que todos fazem gestão. Gestão nada mais é do que usar de todos os recursos para atingir um objetivo. Assim sendo, significa ter objetivo claro, planejar passos, criar estratégias, saber delegar tarefas, não se omitir perante conflitos, desenvolver parcerias, confiança, criatividade, flexibilidade, conhecimento da realidade, determinação, persistência, responsabilidade, valorizar a equipe, ressaltar o que os outros têm de melhor, fortalecer a equipe, envolve motivação, superação.

É nesse sentido que podemos falar de uma gestão eclesial?

Sim. A Igreja é mistério, como ensina a constituição dogmática Lumen gentium, do Concílio Vaticano II. Ela não tem origem sociológica ou cultural e, “para perscrutar este mistério, convém meditar primeiro sobre sua origem no desígnio salvífico da Santíssima Trindade e sua realização progressiva no curso da história”. Assim, a Igreja – Una, Santa, Católica e Apostólica – é, ao mesmo tempo, sobrenatural (mistério) e visível (instituição), dotada de hierarquia, tradição e de um estatuto legal. Ela sempre se preocupou em responder a essa vocação de ser portadora da Boa-Nova e ser sacramento universal da salvação. Para tanto, no decorrer do tempo, criou estruturas, e a paróquia é uma delas. Nesse sentido, podemos entender que uma paróquia bem gerenciada consegue atingir os seus objetivos e se tornar eficiente.

Como isso acontece de maneira concreta?

Darei um exemplo. Na segunda metade da década de 1970, quando eu era coroinha na Paróquia São José Operário, em Itajubá (MG), acompanhava os diversos trabalhos ministeriais do meu pároco, Monsenhor Vicente Pereira Gomes. Lembro-me de sua preocupação com a evangelização tradicional, sobretudo com a administração dos sacramentos, pregação da Palavra e cultivo da devoção, mas também com o social, com a acolhida adequada aos paroquianos e com o seu bem-estar. Recordo-me de que naquela época, Monsenhor Vicente se preocupou em instalar um escritório paroquial, coisa inédita até então, para o atendimento adequado das pessoas. Com o passar do tempo, no início da década de 1980, estando eu já no seminário, foi inaugurado um centro de pastoral nessa paróquia, com salas para reuniões, convivência fraterna, Catequese e prestação de serviços sociais. De lá para cá, vimos crescer vertiginosamente essas necessidades, impensáveis até a década de 1960.

Essa evolução foi um processo fácil?

Embora essas transformações acontecessem, em geral, com absoluta transparência econômica, a ética nos procedimentos, na obtenção de recursos e prestação de contas se dava em nível local, ou seja, na própria paróquia. Tudo se desenvolvia, no campo financeiro administrativo, de maneira extraoficial, sem nenhuma preocupação jurídica e trabalhista. Tudo se justificava pela “boa fé”. Havia um verdadeiro abismo entre a diocese e cada paróquia. Balancetes e prestações de contas foram despontando nas décadas seguintes.

No entanto, com o passar do tempo, a evolução conceitual verificada na sociedade civil, no que concerne a direitos, deveres e legalidade jurídica, fez com que nossas comunidades paroquiais tivessem que se adaptar às exigências que atingem a todas as instituições de maneira igualitária, sem distinções. Custou a muitos perceber e, mais que isso, admitir que nossas dioceses e paróquias, no ordenamento do estado, possuem um número de CNPJ [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica] como qualquer outra instituição e corporação do chamado terceiro setor. Surgiram, assim, no nível da administração eclesial, inúmeros conceitos e grandes desafios para os quais, muitas vezes, ainda não estamos suficientemente preparados.

No seu livro, o senhor também comenta sobre a gestão de conflitos. Pode falar sobre isso?

Os conflitos fazem parte da vida de uma paróquia. Na minha experiência de mais de 25 anos como sacerdote em várias paróquias, me deparei com inúmeros conflitos. Poderia enumerar uma lista enorme deles. Desde pouca participação nas celebrações, murmuração tomando conta das conversas, falta de visão missionária, pintura da igreja, reformas, troca de microfones e até de relacionamento humano. Gerenciar conflitos é gerenciar pessoas. Atrás dos conflitos há pessoas, e onde há pessoas existem emoções. Não se gerenciam emoções! Assim, os sacerdotes responsáveis pelas paróquias têm que ter uma visão ampla e sistêmica dos conflitos para poder escolher o melhor caminho e exercer a sua missão de cuidar das coisas sagradas e zelar por elas. Quando se constata na paróquia um ambiente de mútua confiança, o sacerdote exerce a função de mediador de conflitos e responsável por tornar nossas paróquias comunidades de discípulos missionários, comunidades proféticas e misericordiosas.

Portanto, a gestão eclesial deve ser pensada em vista da missão evangelizadora da igreja?

Sem dúvida. Não existe missão mais grandiosa que servir a Deus na pessoa de Jesus Cristo por meio do serviço aos outros. O sucesso não está em fazer algo, mas em ir além. O mais importante é que as pessoas comprometidas com a missão de evangelizar sejam dedicadas a Deus e aos seus semelhantes. Pessoas dedicadas à missão, pois, quanto mais comprometidas estiverem, mais produtivas elas serão e toda a organização será beneficiada. Esta realidade é um componente crucial para o sucesso da missionariedade.

Um dos sucessos da missão é valorizar a autenticidade pessoal acima de todas as coisas. É essa distinção que, em geral, está ausente nas nossas organizações, bem como na nossa vida pessoal. Devemos deixar falar o coração a respeito da missão. Temos que orientar, focar a missão para obtermos uma boa estrutura organizacional. Precisamos de uma “reorientação” radical de prioridades. A eficiência e a execução, justificadamente, têm precedência na missão. Os interesses da missão ultrapassam a tática da mera execução. Precisa-se sentir orgulho de dizer às pessoas que se trabalha para esta organização. É preciso estar extremamente satisfeito com a organização como local de trabalho; ainda mais quando a organização é a Igreja, e esta continua a missão de Jesus, hoje, aqui e agora.

Comentários

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe!

Últimas Notícias

Assine nossa Newsletter