Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, 31,7% da população nacional tem sintomas de insônia. Especialistas analisam o porquê e dão dicas para uma boa rotina de sono.

Há cerca de 25 anos, Samuel Lima passa grande parte das noites acordado e costuma dormir apenas cinco horas. Embora não saiba exatamente a causa da insônia persistente, ele acredita que a ansiedade e as preocupações do cotidiano pesam nas madrugadas em claro.
Outro fator que em sua avaliação dificulta o descanso é o hábito de assistir televisão antes de dormir, especialmente filmes de ação e partidas de futebol. À reportagem, Samuel contou que as poucas horas de sono costumam provocar irritação e cansaço já nas primeiras horas da manhã.
UM PAÍS QUE NÃO DORME
Samuel está no grupo dos cerca de 20% dos brasileiros que dormem menos de seis horas por noite, conforme dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde.
O mesmo levantamento, feito em 27 capitais do País, aponta que 31,7% da população adulta apresenta ao menos um sintoma de insônia, com maior incidência entre as mulheres (36,2%) do que entre homens (26,2%).
No público feminino, as maiores frequências de sintomas de insônia, segundo o Vigitel, foram registradas em Maceió (45,6%), Rio Branco (43,3%) e Macapá (41,5%). Já as menores em Florianópolis (32,5%), Natal (33,3%) e São Paulo (33,7%). Entre os homens, os índices mais elevados apareceram em Porto Velho (33,9%), Manaus (33,1%) e Macapá (31,0%); e os menores em João Pessoa (21,1%), Vitória (21,9%) e Porto Alegre (21,9%).
Leandro Moraes há cerca de cinco anos convive com noites curtas de sono. De segunda a sexta-feira, ele dorme, em média, de três e quatro horas, e sente as consequências na rotina de trabalho e outras atividades diárias. “Creio que a falta de sono não afete drasticamente muitos aspectos da minha vida, mas amplie características que já fazem parte de mim, como a irritabilidade, a dislexia e a dificuldade para perder peso”, avaliou à reportagem.
Ele recordou que já permaneceu cerca de 76 horas sem dormir para cumprir prazos profissionais. Nesse período, percebeu redução significativa da concentração, aumento da ansiedade e sensação de perda momentânea da capacidade cognitiva, sinais que, segundo ele, normalizam quando ele descansa de forma adequada.

COMO IDENTIFICAR O PROBLEMA
A dificuldade para dormir nem sempre significa um quadro clínico de insônia. Segundo Helena Hachul, médica ginecologista e especialista em distúrbios do sono e integrante do Instituto do Sono, é preciso observar a frequência e os impactos do problema na rotina para que o diagnóstico seja estabelecido.
Ao O SÃO PAULO, a especialista explicou que episódios ocasionais de dificuldade para dormir podem ocorrer, mas não caracterizam o transtorno: “O diagnóstico é feito quando a pessoa tem dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou se apresenta despertar precoce, pelo menos três vezes por semana, nos últimos três meses, com repercussões no dia seguinte”.
De acordo com a médica, antes de confirmar o diagnóstico, também é necessário descartar outros distúrbios do sono, como a apneia, além de verificar se a pessoa realmente tem oportunidade adequada para dormir, ou seja, se não consegue descansar mesmo tendo condições ideais para isso.
A especialista também detalhou que as causas da insônia costumam estar associadas ao que os médicos chamam de “três Ps”: fatores predisponentes, precipitantes e perpetuadores.
Entre os predisponentes estão aspectos genéticos que podem tornar algumas pessoas mais suscetíveis ao problema. Já os fatores precipitantes estão ligados a acontecimentos marcantes da vida, como a perda de um emprego, o falecimento de um familiar ou situações de grande estresse coletivo, como a pandemia. Por fim, os fatores perpetuadores dizem respeito a hábitos inadequados que mantêm ou agravam a dificuldade para dormir, entre os quais permanecer muito tempo na cama sem conseguir descansar, ter horários irregulares de sono e manter rotinas que prejudicam o repouso. Esses fatores, segundo a médica, costumam estar associados a estresse, ansiedade e depressão.

O QUE FAZER PARA DORMIR MELHOR
Entre as orientações para melhorar a qualidade do descanso está a chamada higiene do sono, conjunto de hábitos que favorecem o adormecer e a manutenção de uma noite reparadora. Segundo a especialista, a adoção de rotinas organizadas ao longo do dia é um dos primeiros passos para preparar o organismo para dormir.
A médica também destacou que o ambiente noturno deve ser adequado ao repouso. Segundo ela, levar celulares, computadores ou outros dispositivos eletrônicos para a cama pode dificultar o relaxamento necessário para o início do sono.
Outro cuidado está relacionado ao consumo de substâncias estimulantes. “Café e chás pretos, por exemplo, estimulam a vigília e devem ser evitados após as três ou quatro horas da tarde”, frisou.
QUANDO PROCURAR AJUDA
De acordo com Helena, é importante buscar orientação especializada quando a pessoa reserva tempo suficiente para dormir, mas ainda assim não consegue descansar adequadamente. Se mesmo após dormir o número adequado de horas, a pessoa despertar com sensação de cansaço, isso pode indicar algum problema. Dificuldade para iniciar ou manter o sono, ronco frequente e a persistência da insônia mesmo após a adoção de medidas de higiene do sono também são sinais de alerta.
O tratamento, segundo a especialista, começa prioritariamente com mudanças de hábitos e acompanhamento profissional.
Nos casos de insônia crônica, a abordagem pode combinar o uso temporário de remédios com estratégias não farmacológicas, como ajustes na rotina e acompanhamento psicológico. A médica alerta, porém, para os riscos do uso indiscriminado desses medicamentos, que podem provocar dependência e tolerância, levando à necessidade de doses cada vez maiores.



