As Campanhas da Fraternidade resgatam, anualmente, o mandamento essencial do amor aos pobres em um Brasil no qual a pobreza mudou de rosto, mas não desapareceu. Enquanto cerca de 23% da população ainda vive em situação de grande vulnerabilidade, o drama da moradia revela a necessidade do compromisso cristão com a promoção humana e as mudanças sociais. Cristo veio morar entre nós – e nos convoca a garantir que todos tenham onde morar com dignidade.

Aproximando-se da Quaresma, os olhos da Igreja no Brasil se voltam para a Campanha da Fraternidade (CF), em sua 63ª. edição, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Muita coisa mudou ao longo destas décadas. Quando a CF foi idealizada, mais de 90% da população brasileira era católica e mais de 60% podia ser considerada em situação de pobreza. Hoje, a porcentagem de católicos caiu para cerca de 56% e a de pobres está em cerca de 23%. Contudo, hoje, assim como naquela época, o amor aos pobres permanece como um dos maiores mandamentos de Cristo para seus seguidores. Esta é a mensagem de Leão XIV na primeira exortação apostólica de seu pontificado, Dilexi te. No contexto quaresmal, a comunidade católica ganhou, com este documento, um poderoso instrumento para compreender o vínculo profundo entre a proposta que anima a CF e a conversão cristã. Oração, jejum e esmola são os três pilares das práticas quaresmais. Nenhum deles elimina, por si só, os demais. A CF não vem para substituir esses pilares, mas nos ajuda a atualizar o tema da esmola, inserindo-o no contexto de nossa complexa sociedade atual. Ao longo da história, a humanidade foi se dando conta de que o tema da pobreza transcendia a moral individual. Não se trata de haver ricos egoístas, como os frequentemente retratados nas parábolas evangélicas, e pobres “preguiçosos” ou “desqualificados”, como as ideologias modernas propuseram muitas vezes. Na raiz do problema, existe uma estrutura social, que se reproduz ao longo das gerações, que leva a uma apropriação desigual dos recursos.
De uma abordagem mais focada na moral individual e no assistencialismo, o combate à pobreza foi se desenvolvendo sob a forma de vários projetos e obras de promoção humana e de propostas políticas de transformação da estrutura econômica e social. A Doutrina Social da Igreja não se opõe, a priori, a nenhum destes caminhos. Pelo contrário, procura abraçá-los e valorizá-los em sua positividade, criticando, sempre que necessário, seus desvios e inadequações. A verdade é que sempre haverá aqueles que, em extrema fragilidade social, necessitarão da assistência desinteressada; bem como aqueles aos quais falta um justo apoio para seu desenvolvimento pessoal e comunitário, como demonstrado por tantos trabalhos bem-sucedidos realizados pelo Terceiro Setor. Tanto a assistência quanto a promoção humana, porém, implicam uma “política melhor”, na expressão do Papa Francisco na Fratelli tutti, que construa uma economia e uma estrutura social realmente comprometidas com o bem comum.
Em nosso mundo plural e complexo, não podemos ter a expectativa de que as respostas ao drama da pobreza sejam unificadas em uma solução consensual. Mesmo entre os católicos, haverá sempre o debate programático sobre o que é melhor fazer em cada circunstância e momento histórico. O que permanece como ponto de unidade – e de realização da própria vocação cristã – é o amor ao próximo, em particular aos pobres e aos mais vulneráveis, aqueles dos quais Cristo disse: “Quando fizestes a qualquer um deles, foi a mim que o fizeste” (cf. Mt 25,40).
A prova tangível do amor a Deus
[…] O Apóstolo João escreve: “Aquele que não ama o seu ir-mão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4,20). Na sua resposta ao doutor da lei, Jesus retoma dois antigos mandamentos: “Amarás o Se-nhor, teu Deus, com todo o teu coração” e “Amarás o teu próxi-mo como a ti mesmo”, unindo- -os em um único mandamento. [É inegável que, no ensinamen-to de Jesus] não se pode amar a Deus sem estender o próprio amor aos pobres. O amor ao próximo é a prova tangível da autenticidade do amor a Deus […] “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40) […] A Igreja “reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e procura neles servir a Cristo” (Lumen gentium, LG 8) (Dilexi te, DT 7, 15,24-26,35).


