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A dignidade da mulher na Igreja 

No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Nessa data celebram-se as conquistas sociais, econômicas e políticas alcançadas pelas mulheres ao longo dos séculos. É também uma ocasião oportuna para recordar o modo elevado com que a Igreja sempre as considerou, afirmando desde o princípio a igual dignidade entre homens e mulheres, criados à imagem e semelhança de Deus. Além disso, a própria história da Igreja entrelaça-se profundamente com a presença feminina. Desde o Antigo Testamento encontram-se numerosas mulheres que desempenharam papel decisivo na história da salvação – realidade que culmina na mais perfeita das criaturas, a Virgem Maria. 

As origens da estima pelas mulheres possuem fundamento bíblico: Deus, ao criar a mulher, fê-la a partir da costela de Adão. Comentando esse trecho, São Tomás de Aquino explica que isso ocorreu para “significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés”. Tal verdade, já presente na ordem da Criação, manifesta-se plenamente na obra da Redenção: em Jesus Cristo “não há homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28). 

Essa convicção, porém, não permaneceu apenas no plano das palavras: no decorrer da história, vê-se claramente sua prática concreta. Ainda em vida, Jesus contou entre as mulheres algumas de suas seguidoras mais fiéis. Tal atitude chegava a causar espanto entre muitos de seu tempo. No episódio com a samaritana, por exemplo, São João nos narra que até os discípulos “se admiravam de que estivesse falando com uma mulher” (Jo 4,27). Isso confirma as palavras de São João Paulo II: “Admite-se universalmente – e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã – que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade” (Mulieris dignitatem, 12). 

Tomando Cristo como modelo, também a Igreja as defendeu contra abusos e injustiças século após século. Entre os séculos I e IV, opôs-se firmemente ao infanticídio (especialmente o de meninas), ao aborto, à contracepção, à poligamia e ao divórcio, protegendo-as da exploração sexual e do abandono. As viúvas, até então frequentemente marginalizadas, encontravam proteção e acolhimento no seio da Igreja. Depois, especialmente em ordens religiosas, teve papel fundamental na ampliação da educação para mulheres e meninas – algo ainda raro naquele período. Reconheceu as grandes contribuições que santas e intelectuais deram à filosofia, teologia e ciências naturais, como Santa Teresa, Santa Hildegarda de Bingen, Santa Catarina de Sena. 

O resultado disso pode ser visto, desde os primórdios, na coragem com que muitas mulheres defenderam sua fé mesmo diante do perigo. Na Paixão de Cristo, foi Verônica quem se arriscou para limpar o rosto ensanguentado de Jesus. Já durante Sua crucifixão, São Mateus nos conta que “havia ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servir” (Mt 27,55). Depois, nos primeiros séculos da Igreja, diversas foram as santas que desde cedo passaram a gozar da mais alta veneração, conquistada pelo próprio martírio, como Inês, Cecília, Anastácia, entre outras. Além disso, inúmeros historiadores, como Rodney Stark, observam justamente como o Cristianismo cresceu rapidamente porque atraía mulheres em proporção maior que outras religiões, e elas evangelizavam dentro das famílias. 

Portanto, que no Dia Internacional da Mulher celebremos alegremente todas as contribuições e conquistas das mulheres ao longo da história. Esse é um dia para recordar que todos somos imagem e semelhança de Deus e, por isso, não há exceção alguma quanto à dignidade que cada pessoa possui. Nesta data, incentivemos todas a buscar em suas vidas, independentemente do estado em que cada uma vive, a amar a Deus e o próximo. Por fim, no caso daqueles ainda hoje marginalizados, lembremo-nos que cabe também a nós acolhê-los, recordando as palavras de Cristo: “Todas as vezes que fizestes isso a um desses irmãos menores, a mim o fizestes” (Mt 25,40). 

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