Conexão permanente, imediatismo, intensa troca de informações e barreiras cada vez mais tênues entre o on-line e o off-line são alguns dos traços da atual sociedade digital. Imersa e conectada nesta realidade, a Igreja cada vez mais tem buscado entendê-la e nela marcar sua presença pastoral e evangelizadora, como afirmam estudiosos em comunicação entrevistados no Caderno Pascom em Ação, publicado nesta edição do O SÃO PAULO.
Marcus Tullius, mestre em Comunicação Social pela PUC-Minas, e autor do livro “Pastoral Digital: uma mudança paradigmática”, em parceria com a Irmã Joana Puntel, FSP, recorda que pastoral digital não se reduz ao uso de ferramentas digitais nem à simples presença da Igreja nas redes sociais. “No livro, quando apresentamos a ideia de uma mudança paradigmática, trata-se da forma de compreender a ação pastoral em uma sociedade marcada pela cultura digital, reconhecendo que o digital é um ambiente existencial, um modo de viver, de se relacionar, de se informar e construir sentido. Por isso, a pastoral é chamada não apenas a ‘usar’ o digital, mas a habitar esse ambiente de forma evangélica”.
A evangelização no ambiente digital, portanto, não deve ser entendida apenas como ter habilidade no uso das ferramentas e tecnologias que garantam mais compartilhamentos e curtidas, ou como bem sintetiza a Irmã Joana Puntel, “não se trata de abrir uma ‘gaveta espiritual’ quando entramos nas redes, mas de expressar aquilo que somos por inteiro. A evangelização nasce de uma vivência integrada do Evangelho”. Do contrário, haverá sempre o risco de reduzir a evangelização à produção de conteúdos, que, por mais bem feitos que possam ser, não expressam a autenticidade de uma vivência cristã. Como ressalta a Religiosa paulina, “as comunidades digitais precisam levar à comunidade presencial. A vivência da fé passa pelo encontro, pela Eucaristia e pela comunhão”.
Aos católicos que desejam se inteirar a respeito do agir da Igreja na sociedade digital, um bom começo é ler o documento “Rumo à presença plena: reflexão pastoral sobre a participação nas redes sociais”, publicado em 2023 pelo Dicastério para a Comunicação, no qual se destacam três aspectos: Conexão (todos estão imersos no mundo interconectado das mídias); Proximidade (as redes sociais podem gerar proximidade digital, interação, partilhas); e Encontro (a proximidade virtual não pode jamais substituir a vida em comunidade presencial).
Como aponta Moisés Sbardelotto, Doutor em Ciências da Comunicação, também entrevistado no Caderno Pascom em Ação, todas as transformações advindas da sociedade digital afetam a comunicação da Igreja e trazem um novo desafio: não submeter o anúncio do Evangelho à lógica do mercado digital, cuja eficácia é mensurada por curtidas, visualizações e engajamentos: “Quando a comunicação eclesial se deixa capturar por essa lógica, perde densidade evangélica e corre o risco de se tornar proselitismo. Em um ambiente marcado por fragmentação, discursos de ódio e desinformação, a Igreja é chamada a testemunhar outro modo de comunicar, baseado na escuta, no respeito, no diálogo e na coerência de vida”.
Se diante de tantas mudanças trazidas pela sociedade digital ser presença cristã neste ambiente pareça estar cada vez mais difícil, tenhamos no horizonte o que exorta o Papa Leão XIV na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais: “O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas”.





