No tempo da Quaresma, a Igreja reforça frequentemente a necessidade de se fazer penitências, geralmente enfatizando o papel do jejum. Este, juntamente com a oração e a esmola, compõe a “tríade” que guia os fiéis no período de preparação para a Páscoa, auxiliando-os a crescer na intimidade com Cristo e a se configurar a Ele. Entretanto, para muitos fiéis, essa prática ainda é vista como algo ultrapassado, não mais necessário na atualidade. Ainda que aqueles que reproduzem esse pensamento possam ter, em seu íntimo, boas intenções, ele provém, na verdade, de um desconhecimento do sentido espiritual da penitência e dos efeitos que ela é capaz de produzir. Nesse sentido, é válido recordar o porquê de os cristãos, ao longo da história, sempre adotarem tal prática.
Primeiro, é importante recordar o que é a penitência. De forma simples, ela pode ser definida como o ato de realizar atividades que vão contra a nossa vontade, visando a conquistar algum benefício espiritual. Via de regra, as penitências estão muito ligadas ao perdão – geralmente parcial – das penas dos pecados, motivo pelo qual após o fiel confessar-se o sacerdote geralmente indica alguma oração ou atitude que o penitente precisa fazer. Todavia, a razão não se esgota somente nisso. Pelo contrário, nesse caso o papel que ela possui é principalmente o de criar as disposições interiores necessárias para que aquela pessoa não volte mais a pecar, cresça em virtudes e torne-se íntima de Deus.
Da mesma forma que ocorre no sacramento da Reconciliação, a penitência continua tendo o mesmo objetivo quando ocorre fora dele. Ao longo de toda a Quaresma, somos lembrados dessa verdade nos Prefácios rezados nas Santas Missas. Quanto ao jejum, por exemplo, a liturgia afirma que “pelo jejum quaresmal, corrigis os nossos vícios, elevais nosso espírito e nos dais força e recompensa”. A abstinência, por sua vez, não é limitada a um sacrifício pessoal, mas visa também ao crescimento da generosidade: “Vós quisestes que vos rendêssemos graças por meio da abstinência, para que, por ela, nós, pecadores, moderemos nossos excessos, e, partilhando o alimento com os necessitados, sejamos imitadores da vossa bondade”.
Em todos os casos, a mesma verdade se repete: as penitências são uma maneira pelo qual, por meio de ações exteriores, buscamos converter o coração. Em si mesmas elas não são um fim, mas apenas um meio para uma verdadeira transformação interior. E, embora ocorram no íntimo de nossa alma, observamos seus efeitos cotidianamente em nossa vida ordinária: suportamos com mais paciência os defeitos alheios, fortalecemos nossa vontade frente às dificuldades, aumentamos nossa generosidade com as pessoas ao nosso redor. Em suma, a penitência abre portas para que nos desprendamos de nós mesmos e possamos viver os dois maiores mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo.
Por isso, enquanto nos preparamos ansiosamente para viver a Páscoa, que nós utilizemos este tempo com sabedoria e conquistemos grandes frutos interiores. Sofrer voluntariamente para progredir em santidade é uma forma bela e nobre de vivermos a vocação cristã, além de fazer-nos solidários com Cristo sofredor na Cruz. Portanto, que cada um faça um exame de consciência sobre um aspecto que gostaria de melhorar em sua vida e usufrua desse período como próprio para se penitenciar e receber as graças de Deus para a nossa perfeição.





