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Caridade e justiça

“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4,16). Essas palavras do apóstolo São João para exprimir quem é o Senhor, por mais simples que possam parecer em um primeiro momento, possuem uma profundidade imensurável. Tê-las marcadas no coração e compreendê-las com sinceridade é essencial para que alguém seja verdadeiramente discípulo de Cristo: é entender que toda a criação, toda pessoa, todo acontecimento provém ou é permitido por amor; significa que, especialmente quando em estado de graça, o Amor habita efetivamente em cada um; por fim, mostra à imagem de quem fomos criados e a responsabilidade que isso implica para todas as pessoas. 

Ter isso em mente faz com que compreendamos que todo afastamento de Deus – isto é, todo pecado – não se limita a uma falta privada ou a uma experiência meramente interior. O pecado rompe relações, gera desordem e produz feridas que ultrapassam o indivíduo, alcançando a vida social, econômica e cultural. Nenhum pecado é verdadeiramente isolado: ele sempre carrega consigo um impacto sobre os outros. Mesmo sobre os pecados mais íntimos, Nosso Senhor nos alerta: “Pois é do interior do coração das pessoas que provêm os maus pensamentos, a prostituição, os roubos, os homicídios” (Mc 7,21). 

Nesse sentido, é preciso superar a visão reducionista que compreende o pecado apenas como uma transgressão individual da lei moral. Quando escolhemos o egoísmo em vez da doação, a indiferença em vez da solidariedade, o comodismo em vez da responsabilidade, colaboramos – ainda que de modo silencioso – para a manutenção de estruturas injustas e para o enfraquecimento dos laços que sustentam a vida em comum. A sociedade ferida, que tantas vezes lamentamos, não surge do nada: ela é alimentada, dia após dia, por escolhas concretas que negam o amor. 

Assim, neste tempo de Quaresma, em que os fiéis são especialmente chamados à conversão e à prática da caridade, é oportuno retomar esse aspecto tão importante da fé: se há um impacto social nas mazelas praticadas, o empreendimento de boas obras é, sobretudo, um dever de justiça. A caridade, desse modo, torna-se também um caminho de restituição pelo egoísmo praticado, a gentileza recusada e a violência cometida. Ao realizá-la, os fiéis reconhecem-se como corresponsáveis pela maldade que há no mundo e esforçam-se, na medida de suas possibilidades, em corrigi-las. Também, por meio delas, buscam cumprir o que diz São Pedro: “Mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede também santos em todas as ações” (1Pd 1,15). 

Nesse sentido, não nos faltam exemplos de santos nos quais podemos nos inspirar. O próprio São Paulo, antes de sua conversão, foi um dos principais perseguidores de cristãos, tentando destruir a Igreja nascente e aprovando incontáveis mortes. Então, após ser chamado pelo Senhor, tornou-se um dos principais anunciadores do Evangelho, e justificou: “O amor de Cristo nos impele, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram. Ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,14.15). 

Portanto, neste tempo de Quaresma, não nos deixemos intimidar em praticar a caridade! Fazê-lo é um dever de justiça e será fonte de remissão de nossas faltas. Guardemos as palavras contidas em Tobias: “A esmola preserva da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola serão saciados de vida” (Tb 12,9). Analogamente, esforcemo-nos mais, especialmente neste período, para morrer para nós mesmos e servir os irmãos, lembrando que só é possível dar fruto a semente que morre. 

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