As festas da liturgia católica são organizadas pela Igreja de maneira pedagógica para celebrar os mistérios da fé e promover a evangelização. Não fazem referência a eventos isolados, mas são itinerários da fé anunciada, professada e celebrada. Por isso, são expressões muito ricas da fé vivida pela Igreja.
A Quaresma não é um tempo litúrgico fechado sobre si mesmo, só para fazer penitência, sem outra referência. A penitência, certamente, é feita e os exercícios quaresmais do jejum, esmola e oração são fortemente recomendados em vista da nossa conversão a Deus e como preparação à celebração da Páscoa, que é o centro da liturgia cristã. Nela, celebramos o mistério do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus e, também, a nossa participação na paixão, morte e ressurreição de Jesus mediante o Batismo.
É por isso que a Quaresma traz muitas referências ao Batismo, para que os que devem ser batizados na Páscoa se preparem para a boa recepção do Batismo e os que já foram batizados se preparem para renovar as promessas feitas no Batismo e revivê-las de maneira renovada a cada Páscoa. Na celebração da Vigília Pascal, na noite do Sábado Santo, realizam-se batizados e se renovam solenemente as promessas do Batismo a cada ano. É uma celebração muito rica e, geralmente, ainda pouco participada. Seria muito bom se, na Vigília Pascal, nossas igrejas se enchessem e os fiéis participassem com fé e entusiasmo dessa que é “a mãe de todas as vigílias”.
A liturgia do 4º Domingo da Quaresma traz fortes referências batismais. A passagem do Evangelho sobre a cura do cego de nascença é uma riquíssima catequese batismal. O cego não enxergava e vivia nas trevas. Jesus curou-o e ele começou a ver claramente. É aquilo que se passa no Batismo mediante a recepção da fé: a passagem das trevas para a luz de Cristo. Os fariseus questionam a cura do cego e ele precisa afirmar e testemunhar a sua cura, defendendo também aquele que o curou, Jesus, que não é um pecador, mas alguém enviado por Deus para curar as cegueiras da humanidade. Por fim, o cego curado fez a profissão clara da fé em Jesus Cristo, Filho do Homem, Filho de Deus. É a fé em Jesus que faz passar das trevas para a luz, da morte para a vida. Jesus é a luz do mundo e quem O segue não anda nas trevas (cf. Jo 9,1-41).
No Batismo, recebemos uma vela acesa, simbolizando a luz de Cristo dada a todo aquele que professa a fé. Quem é batizado é iluminado pela luz de Jesus e deve fazer brilhar essa luz ao longo de toda a vida. Foi o que o cego de nascença fez, com coragem e decisão. Quem é batizado deve zelar para que essa luz não se apague, a fé não se perca e não haja retorno à vida nas trevas, mediante o pecado, longe de Deus. E se, no peregrinar da vida, acontece de retomar o caminho das trevas, existe sempre a possibilidade de sair das trevas e voltar para a luz, mediante a conversão e a busca da misericórdia de Deus. A Quaresma traz o chamado a rever a vida, para dar-nos conta se estamos nas trevas ou se vivemos na luz de Cristo.
A 2ª leitura do 4º Domingo da Quaresma foi exatamente nessa mesma direção (cf. Ef 5,8-14). São Paulo exortava os cristãos da comunidade de Éfeso a permanecerem firmes e perseverantes na graça do Batismo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz”. Pelo Batismo, os pagãos passaram à fé em Cristo e à vida nova segundo o Evangelho. Foi uma passagem das trevas para a luz. Agora, como batizados, os cristãos devem esforçar-se para viver de acordo com essa nova condição de “filhos da luz”. O autor da Carta aos Efésios é bem concreto, indicando quais são os frutos da luz: bondade, justiça, verdade e tudo o que está de acordo com a vontade de Deus. E as obras das trevas também são conhecidas: toda forma da maldade, injustiça e desonestidade, o que é contrário à verdade, à vontade de Deus e fere a dignidade humana e a de quem é filho da luz.
O Prefácio da missa do 4º Domingo da Quaresma tem uma passagem bonita, que sintetiza mais uma vez essa “passagem/páscoa” que se realiza mediante a fé em Cristo e o Batismo: “Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado, fazendo-os renascer nas águas do Batismo”.
De fato, o Batismo é nossa participação na morte de Cristo, morte ao pecado e ao homem velho, que são “sepultados com Cristo” nas águas do Batismo; e, também, é participação na ressurreição de Jesus, mediante a vida nova recebida pela graça do Espírito Santo. A cada celebração da Páscoa, temos a ocasião de renovar-nos no dom incomensurável do Batismo e da vida cristã.





