“A paz esteja com todos vós”. Com a mesma saudação com a qual se dirigiu pela primeira vez aos fiéis em 8 de maio de 2025, após sua eleição ao pontificado, Leão XIV inicia a mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro.
No apagar das luzes do ano passado e no começo deste 2026, as tensões entre Venezuela e Estados Unidos, China e Taiwan, Rússia e Ucrânia e os conflitos internos no Sudão indicam a urgência da busca de uma paz “desarmada e desarmante”, como tem insistido o Santo Padre.
Esta paz não se alcançará pelos méritos humanos, tampouco pela força das armas: ela provém de Deus, “que nos ama a todos incondicionalmente”, escreve Leão XIV.
E para que a humanidade não se afunde na escuridão das muitas situações atuais, é necessário que acolha a Luz – o Cristo – que a todos conduzirá à paz, que “deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence”.
A paz de Cristo é desarmada – “Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo” (Jo 14,27) – “porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais”, relembra o Papa, apontando para o paradoxo de que muitos hoje já não considerem mais “escandaloso que ela [a paz] possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la”, e, ainda, que não vejam problema algum no aumento das despesas militares – que cresceram 9,4% de 2023 a 2024 –, muitas vezes justificadas pelos governantes em razão da periculosidade alheia.
A paz que Cristo oferece ao mundo também é desarmante, Seu exemplo de bondade desarma os corações, e, como aponta Leão XIV, “talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém”.
Na mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz, Leão XIV também fala da necessidade de uma postura vigilante das religiões contra “a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras”.
O Pontífice lamenta que seja cada vez mais parte do panorama contemporâneo “arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfêmia que obscurecem o Santo Nome de Deus”, o que requer não apenas ações, mas também “cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecumênico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas”.
Leão XIV ressalta, ainda, que a construção da paz mundial passa pelo compromisso daqueles que têm responsabilidades públicas, aos quais exorta: “Investiguem ‘a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo’ [encíclica Pacem in terris, 113, de São João XXIII]. É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, em um contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais”.
Se as tensões do passado e as iniciadas nestes primeiros dias de 2026 fazem parecer que, em mais um ano, não alcançaremos a paz universal, ao menos nós, cristãos, não desanimemos tão cedo: a chama viva da esperança foi em nós renovada no Ano Jubilar e como bem ouvimos e testemunhamos ao longo do ano de 2025, “a esperança não desilude”, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).



