A Quaresma deste ano vai chegando à sua conclusão, para dar lugar à celebração do Tríduo Sagrado de paixão, morte, sepultura e ressurreição gloriosa de Jesus. Durante a Quaresma, a Igreja nos chamou à penitência e à conversão, recomendando-nos a uma sincera revisão de vida sobre nossa fé e amor a Deus e o amor ao próximo. Os exercícios quaresmais do jejum, esmola e oração tiveram este objetivo: atualizar e aprofundar nossa fé e nossa prática cristã, dando primazia ao amor a Deus e ao próximo, como resumo de toda a religião.
E agora, na conclusão da Quaresma, somos convidados a fazer dois gestos de fraternidade cristã, como sinais de nossa sincera penitência e conversão em preparação à celebração da Páscoa: o gesto concreto da Campanha da Fraternidade, no Domingo de Ramos, e a coleta em favor dos “Lugares Santos”, na Sexta-feira Santa. Nossa fé e caridade também precisam desses gestos, como sinais de nosso amor sincero, feito não apenas de palavras de boas intenções.
A coleta da Campanha da Fraternidade é tradicional na Igreja do Brasil. Mas é bom saber que, em outros países, existe algo semelhante, mesmo que não tenha esse nome. E a Igreja, naqueles países, também faz o apelo à partilha concreta e à solidariedade cristã na Quaresma. A Campanha da Fraternidade tem um tema diverso a cada ano, mas o objetivo é constante: despertar o senso concreto de fraternidade e caridade na comunidade cristã e, também, mais amplamente, em toda a comunidade civil. A Campanha da Fraternidade, de fato, é uma campanha de evangelização, que visa a alcançar aquilo que está no centro do Evangelho: o amor ao próximo, que é inseparável do amor a Deus. Neste ano, a falta de moradia digna para milhões de pessoas no Brasil questiona nosso senso de fraternidade e de justiça.
Por isso, a oferta ou “gesto concreto de fraternidade”, feito em todas as celebrações católicas do final de semana do Domingo de Ramos, é mais do que uma esmola ocasional: ele deveria ser a expressão da nossa penitência e conversão quaresmal e da nossa generosa partilha com o próximo. Por exemplo, ele poderia representar os cigarros que deixei de fumar como penitência quaresmal; ou a cerveja não tomada; ou algo supérfluo que deixei de comprar; ou aquilo que colocamos de lado ao longo da Quaresma para ser partilhado com o próximo como expressão de nossa penitência e conversão quaresmal. Em família, antes de ir à igreja no Domingo de Ramos, seria bonito combinar juntos sobre a partilha a ser feita como gesto concreto de fraternidade da família no final da Quaresma.
Aquilo que se recolhe em todas as celebrações das igrejas no Domingo de Ramos é repassado integralmente pelas paróquias, logo a seguir, à Cúria da Arquidiocese, para ser destinado aos seus fins: 60% para projetos de caridade social na própria Arquidiocese; e 40%, para o Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em favor de pequenos projetos de caridade social em várias partes do Brasil.
Na Sexta-feira Santa, no contexto da comemoração da Paixão e Morte redentora de Jesus, a Igreja nos pede um segundo gesto de fraternidade, antes da Páscoa: desta vez, é em favor dos “lugares santos”, entendendo-se os lugares bíblicos das origens da nossa fé e da Igreja de Cristo. De maneira especial, são considerados “lugares santos” os que estão relacionados com a vida de Jesus, de Maria e José, dos Apóstolos e das primeiras comunidades cristãs. Mais amplamente, também se consideram como “lugares santos” os lugares de peregrinação que se relacionam com a fé dos Patriarcas e dos Profetas do Antigo Testamento.
Por quais motivos a Igreja nos pede esse gesto concreto de fraternidade em favor dos “lugares santos”? A razão é bastante fácil de se compreender. Os lugares das origens da nossa fé e da Igreja situam-se no Oriente Médio, onde os cristãos são uma minoria e, por vezes, uma minoria mínima. Por vezes, vivem sua fé de maneira heroica, com muitas restrições. Se eles não forem ajudados a ficarem nesses lugares preciosos para a memória da nossa fé e da Igreja, não poderão continuar a prestar o seu testemunho de fé cristã e vão desaparecer dali. E seria uma grande pena! Com nosso gesto solidário, os irmãos cristãos e católicos que vivem na Terra Santa conseguem manter vivo o testemunho do Evangelho naqueles lugares onde tudo começou e de onde partiram os primeiros missionários para o mundo inteiro.
Com a coleta da Sexta-feira Santa é constituído um fundo na Santa Sé para ajudar a Igreja na Terra Santa, de maneira muito concreta: paróquias, igrejas de peregrinação, escolas, obras sociais, mosteiros e conventos, os bispados, os seminários, o clero e as múltiplas iniciativas de presença pública da Igreja naqueles lugares de grande diversidade religiosa. Os cristãos da Terra Santa precisam do nosso apoio. Por isso, pensemos neles na Sexta-feira Santa, durante a comemoração da Paixão de Jesus, e expressemos nossa fraternidade na fé por meio do gesto generoso da coleta em favor dos “lugares santos”.



