Encontramos o Messias 

Conta-se que o físico, inventor e matemático grego Arquimedes (Siracusa, 287-212 a. C.), recebeu uma missão inusitada. Certa vez, o rei Híeron desejou oferecer uma coroa aos seus deuses. Para isso, ele contratou um ourives e deu-lhe uma porção de prata e outra de ouro em pó para que fosse feita uma coroa digna de uma oferta. Ao receber o ornamento, o rei desconfiou da quantidade de ouro utilizada em sua fabricação e, como não havia provas para incriminar o ourives, pediu a Arquimedes que encontrasse a verdade. 

Ele, então, passou a procurar algum jeito de descobrir se o material utilizado na coroa era mesmo conforme o que fora encomendado. Durante seu momento de banho, o cientista percebeu que, ao mergulhar seu corpo na banheira, o nível da água subia. Então, Arquimedes compreendeu que poderia encontrar a verdade a respeito da coroa. Conta ainda a história que, ao perceber que poderia solucionar a dúvida do rei, o cientista saiu correndo, completamente nu, gritando: “Eureka! Eureka!” (“Encontrei! Encontrei”). 

A partir daí, Arquimedes preparou blocos de prata e ouro com o mesmo peso da coroa e, mergulhando um de cada vez em um recipiente com água, observou o aumento nos níveis do líquido. Percebendo que o volume de água deslocado pelos dois blocos era diferente, Arquimedes conseguiu determinar as massas aproximadas de ouro e prata utilizadas na confecção da coroa. Tão interessante quanto o teorema desenvolvido a partir da observação de Arquimedes durante o próprio banho foi a expressão de alegria de quem encontrou inesperadamente alguma coisa que estava procurando com todo o empenho: “Eureka!” Essa palavra grega ficou famosa no curso da História. Pois, o Evangelho segundo São João diz que João Batista, ao ver Jesus passar, indicou para dois de seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). 

Os dois discípulos foram atrás de Jesus e, quando Ele percebeu que estava sendo seguido, perguntou-lhes o que procuravam. Eles perguntaram onde Ele morava. Em seguida, ficaram o dia todo com Ele. André, irmão de Simão Pedro, era um deles. Saindo dali, encontrou Simão e lhe disse: “’Encontramos o Messias’, o que, traduzido, é Ungido” (Jo 1,41). Curiosamente, André, ao dizer isso, utilizou a mesma expressão usada por Arquimedes: “Εὑρήκαμεν” (Eurekamen = “Encontramos”). A força da expressão não está simplesmente em descrever uma descoberta aleatória, mas, sobretudo, por externar uma alegria incontida, resultado de se encontrar aquilo que se estava procurando com todas as forças. 

Para Arquimedes, tratava-se de encontrar uma solução para o caso, que ele esperava descobrir a partir de muito esforço, mas que acabou encontrando durante o banho. Para André e Pedro, tratava-se de encontrar aquilo que seria a ação de Deus, que tanto esperavam, mas que só poderia realizar por vontade divina, no momento e no lugar onde Deus quisesse. Portanto, a alegria de André manifesta também uma gratidão incomensurável, porque Deus lhes havia reservado esse privilégio. Cristo não é apenas uma descoberta! Ele é a razão de tudo! “Tudo foi criado por intermédio dele e para ele; e ele existe antes de tudo, e tudo nele tem subsistido” (Col 1,16). E não somente no que se refere ao mundo, mas especialmente no que diz respeito ao ser humano: “A alma humana é naturalmente cristã” (Anima humana naturaliter Christiana – Tertuliano). 

“Cristo, Redentor do mundo, é Aquele que penetrou, de uma maneira singular e que não se pode repetir, no mistério do homem e entrou no seu coração. Na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem. Cristo, que é o novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela também plenamente o homem ao mesmo homem e descobre-lhe a sua vocação sublime” (cf. João Paulo II, encíclica Redemptor Hominis, 8). 

Talvez esse pensamento justifique o que disse a Samaritana quando conheceu Jesus: “Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não seria ele o Cristo?” (Jo 4,29), ou o que disse Pilatos quando o apresentou ao povo: “Ecce homo” – “Eis o homem” (Jo 19,5). 

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