No dia 25 de janeiro, a Igreja celebrou a conversão de São Paulo Apóstolo, um dos testemunhos mais eloquentes de que a graça de Deus é capaz de transformar radicalmente uma vida. A cena narrada nos Atos dos Apóstolos é conhecida: Saulo, perseguidor implacável dos cristãos, ruma para Damasco munido de autorizações para prender aqueles que invocavam o nome de Jesus. No caminho, é derrubado por uma luz do céu e interpelado por uma voz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4).
Esse encontro não se limita a um episódio do passado, mas permanece como ícone permanente da conversão cristã. Saulo não muda por força de argumentos ou por alguma estratégia pastoral. Ele muda porque encontra Cristo vivo. A conversão não é, antes de tudo, uma reforma moral, mas o início de uma relação nova. Ao perguntar “Por que me persegues?”, e não “Por que persegues os meus discípulos?”, Jesus revela o mistério profundo da Igreja: Ele se identifica com o seu Corpo. Perseguir a Igreja é tocar no próprio Cristo.
Há ainda um aspecto decisivo no caminho de São Paulo: Deus quis contar com a mediação humana. O Senhor poderia ter curado imediatamente a cegueira de Saulo, mas envia Ananias. Assim, ensina que a conversão, embora nasça de um encontro pessoal com Cristo, amadurece no seio da Igreja. Ninguém se converte sozinho. São necessários irmãos que acolham, imponham as mãos, devolvam a visão e reintegrem à comunhão.
Quando Ananias impõe as mãos, “caem dos olhos de Saulo como que escamas”. A luz retorna onde há obediência. Conversão sem obediência corre o risco de se reduzir a um entusiasmo passageiro. A obediência de Paulo não o diminui; ao contrário, liberta-o para a missão. Ele aceita aprender, esperar e ser enviado.
Também hoje somos chamados a reaprender a obedecer: à Palavra, à Igreja, à consciência iluminada pelo Espírito. Muitas cegueiras espirituais persistem porque resistimos a essa docilidade interior.
Saulo passa a ser chamado Paulo. Mais do que uma mudança de nome, trata-se de uma identidade nova. Ele não apaga o passado, mas o relê à luz da misericórdia. O perseguidor torna-se apóstolo; o violento, anunciador da graça. A conversão cristã não consiste em negar quem fomos, mas em permitir que Deus ressignifique a nossa história. O que parecia apenas culpa pode tornar-se testemunho; o que era ferida pode transformar-se em fonte de compaixão.
Paulo não foi poupado do sofrimento. Ao contrário, o Senhor afirma: “Eu lhe mostrarei quanto ele deve sofrer por causa do meu nome” (At 9,16). A conversão não nos isenta da cruz, mas nos ensina a carregá-la com sentido. Por isso, o Apóstolo pode dizer com verdade: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13), não por autossuficiência, mas por total dependência da graça.
Celebrar a Conversão de São Paulo é, portanto, um convite direto a cada um de nós: deixar Cristo nos encontrar no caminho em que estamos, aceitar cair para que Ele nos levante, permitir que a Igreja nos acompanhe e assumir com coragem a missão que nos é confiada. Que esta festa não seja apenas uma lembrança histórica, mas um novo começo espiritual, marcado por uma conversão sincera, contínua e fecunda, para que também a nossa vida possa proclamar: “A graça de Deus não foi estéril em mim” (1Cor 15,10).





