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Onde mora teu irmão?

A fraternidade está novamente em campanha no Brasil. A campanha é promovida pela Igreja Católica, mas interessa a todos, cristãos e não cristãos, crentes e não crentes. Morar dignamente é um direito humano fundamental, assegurado pela Constituição Brasileira, mas está longe de ser efetivado para grande parte da população.

Pensemos nos numerosos moradores de rua, sem teto e sem lar, que perambulam pelas nossas metrópoles, a começar por São Paulo. Pensemos, também, nos milhões de brasileiros que moram em condições absolutamente precárias e inadequadas, em casebres apertados, muitas vezes sem serviços públicos, sem titularidade e sem endereço. Quantos moram em áreas alagáveis ou de risco geológico nas pendências das montanhas e colinas, prontas para virem abaixo com as chuvas fortes de verão, como acontece todos os anos em alguma parte do Brasil.

Quem se faz presente nas periferias extensas de São Paulo, com extensos bairros formados espontaneamente, nos quais faltam até mesmo ruas para a entrada de ambulâncias ou de bombeiros em situações de emergência, é levado a se perguntar: como as pessoas podem morar assim? Muitas vezes, essa situação já se arrasta por décadas e décadas, sem haver sinal de solução. Até quando isso continuará sendo assim? Também no centro da cidade, há muitas situações degradantes, com cortiços em prédios abandonados ou simplesmente ocupados, em que as pessoas acabam sendo exploradas e aviltadas em sua dignidade.

A Campanha da Fraternidade nos leva a perguntar: isso está bem assim? É possível encontrar alguma solução? Com o passar do tempo, nos acostumamos a essa situação humilhante para tantas pessoas e já nem mais nos causa reação ou indignação o fato de haver tantas pessoas morando na rua ou vivendo em moradias absolutamente inadequadas. A quem cabe a responsabilidade de promover o acesso à moradia digna para todos? Certamente o Poder Público é fortemente interpelado diante desse problema social grave. Se a moradia digna é um direito de todos os cidadãos, assim como a saúde, a educação, a segurança pública, então ela deve merecer atenção semelhante de quem tem a missão de assegurar o respeito aos direitos e à dignidade das pessoas.

Evidentemente, ninguém imagine que a questão seja de fácil solução e não será no final da Campanha da Fraternidade que o problema estará resolvido, como por encanto. A Campanha tem primeiro objetivo de levantar a questão e de chamar a atenção sobre ela mediante informações, que levem a uma tomada de consciência sobre esse problema social. Em seguida, a Campanha conclama para a busca de soluções em diversos níveis de competência e ação, para suscitar iniciativas que enfrentem o problema. É muito desejável que, a partir da Campanha da Fraternidade, surjam projetos de lei nas câmaras municipais e assembleias legislativas dos estados com o foco nas questões da moradia digna para a população.

Para muitos cristãos ainda fica a pergunta sobre a relação deste tema com a Quaresma, a preparação para a Páscoa e com a nossa fé e moral. É frequente a queixa de que a Campanha da Fraternidade atrapalha a vivência da Quaresma, desviando o foco dos exercícios quaresmais. Em resposta, é preciso deixar claro que a Campanha da Fraternidade não existe para atrapalhar a vivência da Quaresma; pelo contrário, ela existe para tornar mais concreta a vivência quaresmal e nossos exercícios de conversão cristã. A Quaresma é um chamado à volta para Deus e à autenticidade de nossa vida cristã, conforme nossas promessas batismais, que consistem na renúncia a Satanás, suas seduções e suas obras, e à adesão firme a Deus mediante a fé verdadeira. Jesus sintetizou a vida cristã no duplo mandamento do amor a Deus e aos irmãos. Nada disso muda e os exercícios quaresmais do jejum, da esmola e da oração continuam sendo recomendados a todos, junto com a conversão sincera dos vícios e a confissão dos pecados, em preparação para a celebração da Páscoa.

A Campanha da Fraternidade deve ser vista como uma ajuda à vivência da Quaresma no que diz respeito à caridade e nos provoca a revermos nossas atitudes diante de questões sociais nas quais, claramente, há falta de caridade, fraternidade e justiça. Nossa fé e a vivência dos mandamentos de Deus não interessam apenas ao foro privado, mas também às nossas relações e responsabilidades sociais, lembrando que somos cidadãos e, como cristãos, temos o dever de contribuir com nossas convicções e nossas ações para tornar o convívio social justo, respeitoso e solidário, especialmente em relação às pessoas mais vulneráveis do convívio social. 

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