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Sentir com a Igreja

A Igreja é apresentada no Novo Testamento com diversas imagens significativas: corpo de Cristo, lavoura de Deus, construção de Deus e família de Deus, povo de Deus. Todas essas imagens ajudam a compreender algo da realidade profunda da Igreja, que é bem mais do que as próprias imagens e aquilo que vemos na sua aparência exterior.

Na Carta aos Efésios, o autor exorta os cristãos a não se sentirem estranhos uns em relação aos outros, mesmo vindo de origens culturais, étnicas e religiosas diferentes: “Já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo Jesus” (Ef 2,9-20). Entre os cristãos há algo em comum muito forte, que os aproxima e supera todas as diferenças.

Esse “algo em comum” é a relação com Jesus Cristo, a fé nele e a acolhida do Evangelho como um valor fundamental para a vida, a mesma referência moral, a mesma esperança. De fato, entre os que foram batizados estabeleceu-se um laço que os une profundamente, mesmo quando estão distantes ou são desconhecidos entre si. É por isso também que, viajando para outras regiões do Brasil ou para outras partes do mundo, podemos frequentar as igrejas locais e nos sentir parte delas. Na Igreja, o cristão está sempre “em casa” e na sua família, onde ninguém precisa sentir-se estrangeiro ou estranho. Somos irmãos, membros da mesma família espiritual.

Assim compreendemos bem as expressões usadas por São Paulo: “Embora muitos, nós somos em Cristo um só corpo” (Rm 12,5). Entre os cristãos não devem existir discriminações nem divisões: “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Vós todos que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,26-28).

Na Carta aos Efésios encontramos um forte chamado à superação das brigas e diferenças eventualmente existentes entre os membros da comunidade: “Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a levardes uma vida digna da vocação que recebestes, com toda humildade e mansidão e com longanimidade; suportai-vos uns aos outros no amor, solícitos em guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também há uma só esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos e em todos” (Ef 4,1-6). São profundos os motivos para que os cristãos vivam a comunhão entre si, superando divisões, ressentimentos e brigas. E isso não por questão de simpatia ou de mera escolha pessoal, mas por um motivo muito forte: em Cristo, formamos um só corpo e, no corpo de Cristo, não há lugar para lutas e divisões.

São Paulo combateu com vigor as divisões que foram surgindo nas comunidades no início da Igreja: ”Irmãos, eu vos exorto, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a que estejais todos de acordo no que falais e não haja divisões entre vós. Pelo contrário, sede bem unidos no mesmo pensamento e na mesma intenção” (1Cor 1,10). Em seguida, ele se refere ao ponto da discórdia que havia na comunidade de Corinto: “Informaram-me que existem discórdias entre vós. Digo isso, porque cada um de vós diz: ‘Eu sou de Apolo’; outro diz: ‘Eu sou de Paulo’; outro: ‘Eu sou de Cefas’; outro: ‘Eu sou de Cristo’. Acaso Cristo está dividido?” (1Cor 1,12-13). Cristo não está dividido e, portanto, quem está em Cristo, também não pode estar dividido.

Não faltam hoje também certas divisões dentro da Igreja: há quem se diga progressista, quem se diga conservador, de direita, de esquerda, tridentino, “renovado”… É hora de lembrar que “todos somos um, em Cristo”. Os membros do corpo podem ter funções diferentes, mas sentem-se parte do mesmo corpo e não brigam entre si; os filhos de uma família podem ter diversidade de pensamento, mas não se odeiam entre si. É hora de lembrar e valorizar o que nos une e destacar menos o que cria divisões.

A teologia sobre a Igreja desenvolveu um conceito muito bonito para falar da comunhão e da unidade na Igreja: Sentir com a Igreja. Quem, pelo Batismo, está na Igreja, deve sentir-se parte dela, como os filhos se sentem parte da família. Fazendo caminho juntos, crescendo juntos na fé em Cristo e em torno dos mesmos fundamentos comuns, os filhos da Igreja aprendem a se manter unidos, a pensar e sentir uns com os outros, “no mesmo pensar e no mesmo amor, como em uma só alma, a cuidar do que é dos outros, e não apenas do que é seu (cf. Fl 2,2-4). Mais ainda: a “ter os mesmos sentimentos que houve em Cristo Jesus” (cf. Fl 2,5).

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