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Lázaro: três convites à vida

O salmista nos conduz ao coração da fé ao recordar que a nossa esperança não repousa em nós mesmos, mas no Senhor. Quando tudo parece fechado, quando a vida se apresenta marcada pelo limite e pela fragilidade, proclamamos com confiança: “No Senhor está a misericórdia e junto dele é copiosa a redenção” (Sl 129). Essa certeza ilumina o sinal da ressurreição de Lázaro (Jo 11,3-45), o último e mais eloquente dos sinais narrados pelo Evangelho segundo João, por meio do qual Jesus revela quem Ele é e para onde conduz aqueles que Nele creem. 

Diante desse episódio, a Palavra de Deus nos oferece três convites essenciais para a vida espiritual. 

O primeiro é abrir os nossos túmulos. O túmulo simboliza o lugar da morte, do silêncio e do fechamento. Contudo, nem sempre ele se encontra fora de nós. Muitas vezes está dentro do próprio coração, quando permitimos que o pecado, os vícios, os ressentimentos, o egoísmo e a indiferença ocupem espaço em nossa vida. Aos poucos, o coração se torna endurecido, incapaz de amar, de perdoar e de acolher. Deus, porém, não se resigna diante de um coração de pedra. Pelo profeta Ezequiel, Ele promete: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo” (Ez 36,26). Abrir os túmulos interiores é deixar que o Espírito Santo nos liberte e nos recrie por dentro, conduzindo-nos à verdadeira liberdade dos filhos de Deus, como recorda o apóstolo Paulo. 

O Papa Francisco, refletindo sobre esse Evangelho, disse: “Por isso, somos chamados a remover as pedras de tudo o que cheira à morte: por exemplo, a hipocrisia com que se vive a fé é morte; a crítica destrutiva dos outros é morte; a ofensa e a calúnia são morte; a marginalização dos pobres é morte. O Senhor pede-nos para remover essas pedras do coração, e a vida então florescerá novamente ao nosso redor”. 

O segundo convite é acreditar que Jesus é a Ressurreição e a Vida. No relato joanino, Jesus se revela não apenas como alguém que realiza milagres, mas como o Senhor absoluto da vida. Diante do túmulo de Lázaro, Ele clama em voz alta: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). Esse grito atravessa os séculos e continua ecoando na história humana. Ele proclama que a morte não tem a última palavra. Quem se encontra com Cristo, escuta a sua Palavra, caminha como seu discípulo, e começa, já agora, a experimentar a passagem da morte para a vida. Aquilo que parecia definitivamente perdido pode ser restaurado, e a fé nos assegura que somos chamados à ressurreição. 

O terceiro convite é enfrentar e vencer as mortes sociais. A espiritualidade cristã não se limita à dimensão interior; ela se expressa em compromisso concreto com a dignidade humana. No tempo quaresmal, que neste ano de 2026 será iniciado com a Quarta-feira de Cinzas, no dia 18 de fevereiro, a Igreja no Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade, convida-nos a refletir sobre a Doutrina Social da Igreja, com o tema “Fraternidade e moradia”. A falta de moradia digna é uma grave forma de morte social que atinge milhares de irmãos. Diante dessa realidade, a Igreja, fiel ao Evangelho da vida, é chamada a denunciar as injustiças e a colaborar na construção de caminhos que promovam condições dignas de habitação para todos. 

Ao longo do caminho quaresmal que logo vamos iniciar, somos convidados a renovar nossa esperança. Não queremos ser acusados de omissão diante do sofrimento humano. Por isso, denunciamos o mal, anunciamos os valores do Reino e testemunhamos que a vida encontra seu sentido pleno quando é vivida no amor. 

Jesus, o Deus da vida, ressuscitou Lázaro do túmulo e continua hoje a nos chamar para fora de todas as formas de morte. Pelos sacramentos, Ele nos faz passar da morte para a vida e nos prepara para seguir, com o coração renovado, o caminho daquele que vence a morte entregando a própria vida, para que todos tenham vida em abundância. 

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