Hoje, celebramos a Epifania do Senhor, uma das festas mais antigas da liturgia cristã, anterior até mesmo à celebração do Natal em algumas regiões do Oriente. O termo “epifania” vem do grego epipháneia, que significa “manifestação”, “aparição” ou “revelação”. Esta solenidade marca a manifestação pública de Jesus como o Messias, o Filho de Deus e Salvador não apenas de Israel, mas de toda a humanidade. No Evangelho de hoje, vemos que os primeiros a reconhecerem e adorarem Jesus como rei não são judeus, mas estrangeiros — os magos vindos do Oriente. O evento da Epifania revela a universalidade da salvação, já anunciada pelos profetas e agora realizada em Cristo. Algumas coisas nos chamam a atenção nesta solenidade.
Os magos, por exemplo: representam a humanidade pagã em busca da verdade. A tradição, embora não nomeada nas Escrituras, os identificou como reis, e suas origens foram associadas a regiões como a Pérsia, a Arábia ou a Babilônia. Mais do que figuras históricas, os magos são figuras teológicas: símbolos de todos os povos chamados à salvação em Cristo. São homens sábios, atentos aos sinais dos tempos, que, iluminados pela razão e pela fé incipiente, percebem na estrela um chamado à busca do verdadeiro Rei. Como ensina o Concílio Vaticano II na Lumen Gentium, “todos os homens, de qualquer religião, participam, de algum modo, da busca pela verdade e pela vida plena” (cf. LG 16). Eles viram a estrela. A estrela não força, convida. Deus não se impõe — Ele atrai. Chegando a Jerusalém, os magos perguntam: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?”. Os chefes dos sacerdotes e escribas recorrem à Escritura — e veem que o Messias deveria nascer em Belém, conforme a profecia de Miquéias (Mq 5,1): Belém significa “Casa do Pão”, e isso já antecipa o mistério eucarístico. Jesus, o Verbo feito carne, nascerá em Belém, e se tornará, mais tarde, o Pão da Vida.
Há aqui um contraste catequético: os que conhecem a Escritura (Herodes e os sacerdotes) não se movem, enquanto os que vêm de longe, sem acesso à Lei ou aos Profetas, partem ao encontro do Messias. A fé exige mais do que saber: exige acolhimento e resposta. Ao encontrarem o Menino com Maria, sua mãe, os magos se prostram e O adoram. Este é um momento profundamente teológico: eles reconhecem naquela criança a presença de Deus. Além disso, Lhe oferecem presentes que não são apenas simbólicos — são profundamente catequéticos, revelando quem é Jesus: o ouro – dom oferecido a reis quer aludir a Jesus que é o Rei dos reis: mas não à maneira dos reis terrenos, seu trono é a cruz, e sua coroa, de espinhos; o ouro, portanto, representa sua dignidade real. O incenso – utilizado no culto divino – mostra que Jesus é Deus verdadeiro, digno de adoração. Ele é o novo templo, onde Deus habita em plenitude (cf. Jo 2,21). A mirra, por sua vez, – usada para embalsamar corpos – aponta para sua humanidade e seu sofrimento redentor. Desde o nascimento, já se vislumbra a cruz. Esses dons, portanto, são uma profissão de fé cristológica: Jesus é Rei, Deus e Homem, mistério que será proclamado nos credos da Igreja.
Por fim, o Evangelho conclui com uma nota rica de significado: “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram por outro caminho.” Essa mudança de caminho é sinal de conversão. O encontro com Cristo transforma e exige nova direção de vida. Aqueles que verdadeiramente se encontram com o Senhor não podem mais caminhar como antes. Este é o itinerário do discípulo: busca, encontro, adoração e conversão. Isso faz com que assumamos compromissos eclesiais: Aquele que é manifestado ao mundo é a Cabeça do Corpo, que é a Igreja. Por isso, a Igreja é chamada a ser sacramento da luz, sinal visível da presença de Cristo entre os povos.
Queridos irmãos e irmãs, a estrela cumpriu sua missão ao guiar os magos até Cristo. Hoje, nós somos chamados a ser essa estrela, luz que aponta para Cristo. Através do nosso testemunho, da caridade vivida, da fé professada com alegria, somos chamados a guiar os que ainda estão longe. Que a Epifania nos desperte para a vocação missionária da Igreja: ser luz das nações, reflexo da Luz verdadeira que veio ao mundo. Que a Virgem Maria, silenciosa no Evangelho de hoje, mas sempre presente, nos ensine a contemplar, guardar no coração e oferecer Cristo ao mundo.





