Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Quaresma: jejum, esmola e oração

Depois do feriado de carnaval, com a cerimônia da Quarta-feira de Cinzas, entramos de cheio na Quaresma. Parece haver aqui uma enorme contradição entre dois mundos: o mundo da folia, da música, das fantasias, dos desfiles… e o mundo que, com enorme realismo, nos lembra de que somos pó. Aliás, uma das explicações do termo carnaval, segundo alguns, seria carnevale: uma espécie de festa de despedida da carne, que, em outros tempos era totalmente suprimida durante os 40 dias da Quaresma. O sentido mais profundo da penitência, especialmente deste tempo de Quaresma, é abrandar a dureza do nosso coração. Reconhecer os próprios erros, admitir que muitas vezes fomos egoístas, andamos atrás das nossas coisas, fechamos o nosso coração aos outros. As práticas tradicionais da Quaresma são o jejum, a esmola e a oração. Assim, o jejum tem um significado religioso: deixar algum alimento para superar o egoísmo e viver a lógica da doação. Privar-nos de algumas coisas – não só do supérfluo, mas do necessário – e desviar o olhar do nosso “eu” para enxergar as pessoas ao nosso lado. A esmola tem por finalidade vencer a idolatria, o desejo de possuir cada vez mais e colocar as coisas materiais no lugar de Deus. E a terceira característica deste tempo litúrgico é incrementar a oração: meditar a Paixão de Jesus, considerar a nossa vida na perspectiva da eternidade, do preço dos nossos pecados, do desejo de purificação e de crescimento na santidade. 

Há pessoas que fazem jejum de carne às sextas-feiras da Quaresma; outros, jejum de chocolate, de refrigerante, de cerveja. Outros ainda, jejum de novela, jejum de curiosidade: por exemplo, só 30 minutos na internet. O jejum mais grato a Deus, porém, é o jejum de pecar: de criticar, de mentir, da preguiça, dos desejos e atos contra a castidade etc.

Um dos objetivos da Quaresma é melhorar também a nossa oração. Colocar-nos diante de Deus e pedir sua ajuda com confiança e insistência, porque só Jesus tem o poder de nos curar e a conversão é obra de Deus em nossas vidas. Não podemos perder estes momentos únicos, em que Deus passa muito perto de nós: por exemplo, quando participamos da Santa Missa, na Comunhão, ou estamos diante do sacrário. Às vezes, pode assaltar-nos a tentação de pensar: “Do que adianta rezar? Você pede e não consegue nada! Deus não lhe ouve, não está interessado em seus pedidos…” Às vezes, nós mesmos podemos sofrer esta tentação: “Minha oração cai no vazio… Deus não me escuta…” Mas nada disso é verdade. O que acontece é que nos falta fé e confiança no poder de Deus.  

E a esmola? Evidentemente, devemos ajudar de maneira substancial as pessoas necessitadas e/ou as entidades que realizam um serviço valioso a quem é realmente vulnerável. Assim, esmola significa levar algo aos outros: além de comida e roupa, consolo, atenção e afeto. Dar a esmola da atenção: ouvir com paciência a pessoa que nos interrompe para pedir algo, um conselho, uma ajuda… Dar a esmola do otimismo: não ser pessoas pessimistas. Dar a esmola da alegria: contar coisas divertidas para alegrar a vida de quem convive conosco. Dar a esmola da ajuda: não só o estritamente necessário, mas algo que possa exigir um sacrifício para nós: sacrificar umas horas de sono para ir até a farmácia à noite, levar alguém ao hospital ou dar uma carona que nos tira do nosso itinerário… sacrificar uma tarde de domingo para visitar o avô ou a avó. Dar a esmola da compreensão com os outros, para, na convivência com as pessoas, saber prescindir do interesse pessoal e contribuir para que haja um ambiente agradável à nossa volta. Enfim, as penitências mais interessantes são aquelas que nos ajudam a corrigir os nossos modos, a ser mais delicados ao dar nossa opinião, mais compreensivos e abertos aos outros. Não é penitente quem anda apenas atrás das suas coisas e aborrece os outros com suas manias. Podemos tirar outros propósitos bem concretos: preparar uma boa Confissão, com um exame de consciência sincero e profundo; meditar às sextas-feiras as estações da Via-Sacra; ler algum livro sobre a Paixão de Cristo. Enfim: este é o sentido mais profundo deste período de penitência e de oração mais intensas da Quaresma: preparar a nossa alma para reviver a Paixão de Cristo e, assim, poder ressuscitar com Ele na Páscoa. 

Deixe um comentário