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‘Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo’ (Mt 5,13-14)

No Evangelho segundo Mateus (5,13-16), Jesus diz aos seus discípulos que eles são o sal da terra e a luz do mundo. Ele se refere àquilo que devemos ser no mundo, antes mesmo daquilo que devemos fazer. O ser vem antes do fazer. Sendo sal e luz, nossas ações, atitudes, julgamentos, decisões e palavras estarão em conformidade com a nova Lei do Amor da qual o Sermão da Montanha é o coração. 

Em um escrito do século II chamado “Carta a Diogneto”, um cristão anônimo afirma que “assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo” – expressão que nos ajuda a perceber o alcance da presença de “cristãos sal e luz” no mundo. 

Entre os usos do sal, sabemos que dá sabor aos alimentos (cf. Jó 6,6), os conserva e evita que se corrompam (cf. Br 6,27), era colocado em algumas oblações oferecidas a Deus (cf. Lv 2,13) e havia também a expressão “aliança de sal” para designar um contrato firme, uma aliança irrevogável (cf. Nm 18,19b). Já foi usado como moeda, de modo que a palavra “salário” teria aí sua origem. Afirma-se que era usado para ser espalhado sobre a neve, durante o inverno, de modo a derretê-la e evitar quedas nos degraus do Templo para que os peregrinos não caíssem, além de ser usado como pedras de calçamento em alguns lugares – nesses casos, ele era pisado pelas pessoas. Também podia servir de adubo, misturado ao esterco. 

A partir disso, reflitamos: se devemos ser sal da terra, devemos, portanto, temperar a vida e a história por meio de um testemunho autêntico do Evangelho; não devemos nos deixar corromper pelo mal e pelo pecado e, ao mesmo tempo, lutar contra todo tipo de corrupção que ameaça a justiça, o bem comum e a vida das pessoas. Como símbolo da fidelidade à Aliança, devemos ser fiéis à nova e eterna Aliança, plenamente realizada em Cristo e testemunhada na vivência da nova Lei do amor que Ele nos deixou: “Como eu vos amei, assim também deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). E assim como o sal derrete a neve, o testemunho do Evangelho do amor pode quebrar a dureza dos corações. 

Como o sal usado nas oblações e sacrifícios oferecidos ao Senhor, somos chamados a viver o espírito de renúncia e sacrifício em favor do Reino, exigência que Jesus fez aos seus: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Santo Agostinho, no Comentário ao Salmo 59, diz: “Por que não sofrer por amor a Deus? Por que não sofrer por Cristo e experimentar o sabor do sal?”. 

Não percamos o sabor, isto é, a chama da fé, esperança e caridade, testemunhada por uma vida coerente com o Evangelho, senão já não serviremos para mais nada. Tenhamos sempre sal em nós! (cf. Mc 9,5). O sal, no batismo, recordava-nos disso. 

Quanto à luz, seu simbolismo é bem mais evidente e direto: ela brilha nas trevas! (cf. Jo 1,5). Jesus é a luz do mundo (cf. Jo 8,12) e nos fez filhos da luz. No batismo, fomos iluminados para iluminar; daí Jesus dizer que não se pode acender uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha ou esconder uma cidade no cimo da montanha. Ele nos alerta para a necessidade do testemunho. Há um belo hino que ilustra bem isso: “Sim, eu quero, que a luz de Deus que um dia em mim brilhou, jamais se esconda, e não se apague em mim o Seu fulgor! Sim, eu quero que o meu amor ajude o meu irmão a caminhar guiado por Tua mão, em Tua lei, em Tua luz, Senhor!”. 

A Igreja, como um farol, porta consigo essa luz de Cristo, e aponta aos navegantes deste mundo o porto seguro que é Cristo. Seus membros devem deixar-se iluminar por Ele, de modo que o Corpo inteiro esteja iluminado (cf. Lc 11,36). Por isso, peçamos que a luz de Cristo, por meio de nosso ser e nosso agir, brilhe em nós e por meio de nós para que o Pai que está nos céus seja glorificado (cf. Mt 5,16) e possamos ser para o mundo – como disse aquele cristão a Diogneto – o que a alma é para o corpo! 

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