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Eu creio, nós cremos

Durante a Quaresma, preparamo-nos para, na Páscoa, fazer a renovação das promessas do Batismo e da nossa profissão de fé. Entre os exercícios quaresmais que nos são propostos ao longo deste tempo, também estão a tomada de consciência de nossa fé batismal e a revisão de vida sobre o modo como estamos professando e vivendo essa fé, que nos distingue como cristãos católicos.

Para tanto, ajudam certamente as pregações e reflexões quaresmais e a acolhida à palavra de Deus com renovada abertura de coração. Mas também é oportuno e, talvez, necessário, que retomemos a leitura e o estudo do Catecismo da Igreja Católica, que é o livro oficial da explicação da fé, da moral e da oração da Igreja Católica. Isso se faz tanto mais necessário em tempos de confusão, quando se apresentam numerosos “mestres e pregadores” (cf. 1Tm 1,3) que, por sua conta, pretendem ensinar a fé católica sem estarem em comunhão com a mesma Igreja Católica. Já no início da Igreja, as pregações que não estavam em conformidade com “a doutrina dos apóstolos” (cf. At 2,42) eram um problema e introduziam confusão nas comunidades da Igreja. E a recomendação era sempre esta: fiquemos unidos na comunhão da fé recebida dos apóstolos e transmitida pela tradição viva da Igreja.

O ato de fé é um ato de abertura a Deus, de acolhida de sua palavra e de obediência à sua vontade na vida pessoal e social. Abraão, Maria, José, os Santos da Bíblia e da história da Igreja são exemplos dessa fé (cf. Catecismo, nº 144 e seguintes). Crer é um ato pessoal e de adesão livre Àquele que se manifestou e se manifesta à humanidade e a cada pessoa para o seu bem. Dizer sinceramente “eu creio” significa: eu reconheço a Deus e O acolho em minha vida, dispondo-me a Lhe obedecer e orientar a minha vida a Ele. A fé é para a salvação e para a vida e quem acolhe Deus livremente e adere a Ele de todo o coração recebe a salvação e a vida em plenitude. Para crer, precisamos da graça de Deus, que a concede se a desejarmos e pedirmos com humildade e perseverança.

Crer não é um sentimento vago ou uma ideia bem elaborada sobre Deus ou sobre “alguma coisa lá em cima”. O ato de fé cristão tem um conteúdo essencial, que a Igreja elaborou nos dois símbolos da Profissão de Fé da Igreja: Símbolo Apostólico (o mais curto) e Símbolo Niceno-Constantinopolitano (o mais longo). Essas duas fórmulas da Profissão de Fé da Igreja são a referência obrigatória e universal para todos os membros da Igreja Católica. Quem é batizado professa a fé da Igreja Católica por inteiro. Ao longo da vida, muitas vezes, renovamos nossa profissão de fé segundo essa “regra de fé” da Igreja Católica. Na Quaresma, nos preparamos para fazer isso novamente na noite do Sábado Santo, na solene liturgia da Vigília Pascal.

O que dizer de afirmações como: “Eu creio do meu jeito” ou “Eu creio, mas…”, fazendo restrições ao conteúdo da fé? É compreensível que haja dificuldades pessoais em relação à compreensão de alguns artigos da fé da Igreja. A fé não é ainda a visão clara das coisas que se creem, mas “a certeza das coisas que se esperam” (Hb 11,1). No entanto, do cristão espera-se que cresça na fé e alargue também a sua compreensão do conteúdo e das implicações da fé que abraçou. É por isso que a Igreja pede, durante a Quaresma, que Deus nos ajude com Sua graça a “crescer na compreensão do mistério de Cristo e a correspondermos com ele com uma vida santa” (Oração do 1º Domingo da Quaresma). Mas não cabe a nós fazermos a exclusão de artigos da fé da Igreja. O nosso ato de fé pessoal e livre é adesão à fé da Igreja que crê e professa essa fé. Por isso, ao mesmo tempo que deve ser buscada e aprofundada pessoalmente, a fé é um dom incomensurável, que nos é dado por graça (e de graça) no Batismo. Não cremos sozinhos, mas com a comunidade eclesial que crê. Não cremos sozinhos, mas com os que creem hoje e com os que creram no passado, e muitas vezes deram a vida até no martírio por essa fé.

É bonito pensar que cremos “com a Igreja e como a Igreja crê”. Por isso é que, antes da profissão solene da fé, como no Batismo e na noite da Páscoa, nós invocamos a Santíssima Trindade e cantamos as ladainhas de todos os Santos: a fé sobrenatural necessita da ajuda da graça de Deus; e o testemunho de todos os Santos, que, de muitas maneiras, viveram e testemunharam essa mesma fé, nos ajuda, fortalece e alegra. A Quaresma é uma boa ocasião para uma renovada tomada de consciência de nossa fé pessoal e de uma avaliação da nossa maneira de crer. Que tal retomar o Catecismo da Igreja Católica (nº 26 e seguintes)? Boa vivência da Quaresma.

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