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Fratelli tutti: da fraternidade à política melhor

A natureza da solidariedade “fraterna” e sua real capacidade de mudar o mundo são os dois grandes temas transversais – e que precisam ser sempre aprofundados – da Fratelli tutti (FT), do Papa Francisco.

Caim elimina o seu irmão Abel e ressoa a pergunta de Deus: “Onde está Abel, teu irmão?” A resposta é a mesma que damos muitas vezes: “Sou, porventura, guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Com a sua pergunta, Deus coloca em questãotodo otipo de determinismo ou fatalismo que pretenda justificar como única resposta possível a indiferença

(cf. FT, 57)

Fraternidade e solidariedade são frequentemente consideradas válidas apenas para quem é da “nossa turma”, tem “as mesmas ideias” e posições políticas (cf. FT, 80-86). As irmandades são pensadas, em nossa sociedade, como organizações para autoproteção mútua dos associados, dos “irmãos” – enquanto, para a tradição da Igreja, são grupos que se reúnem justamente para ajudar aos outros, aos que sofrem e passam por necessidades.

Por isso, Francisco escolhe, no capítulo II da encíclica, a parábola do “bom samaritano”, que se dedica a ajudar aquele que poderia ser visto até como inimigo, para explicar a fraternidade.

Ela não implica apenas ser solidário com os que consideramos merecedores de ajuda, por serem nossos correligionários ou por estarem numa situação tão desfavorável que nos comove. A fraternidade implica ser solidário com todos, particularmente com aqueles que mais precisam.

Embora esteja inscrito como lei fundamental do nosso ser, é um apelo [o da fraternidade] sempre novo: que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano

(cf. FT, 66)

A consequência da falta dessa solidariedade, do predomínio do individualismo, é a perda de um projeto para todos (cf. FT, 15-17), “sonhos desfeitos em pedaços” (FT, 10-14), uma globalização e um progresso sem rumos (cf. FT, 29-31). Um mundo sem um ideal de bem, no qual os excluídos e os descartados sofrem com as injustiças, com o não reconhecimento de seus direitos (cf. FT, 18-24); no qual todos se tornam vítimas do medo, da insegurança e da solidão (cf. FT, 25-38).

Aqui, Francisco não se preocupa tanto em fazer um elenco das mazelas da sociedade, das situações de injustiça e exclusão (ainda que na encíclica toda a figura do “descartado”, do migrante e do refugiado ocupe um lugar de destaque (cf. FT, 19, 22, 37-41). O Papa denuncia um mundo sem perspectivas, no qual o próprio anseio de bem parece de certa forma perdido… E no qual as pessoas sofrem, no corpo e na alma, por causa disso.

Apesar destas sombras densas que não se devem ignorar […] desejo dar voz atantos percursos de esperança. Com efeito, Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade

(cf. FT, 54)

O Papa sabe que “o ser humano está feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude a não ser no sincero dom de si mesmo aos outros” (FT, 87). Citando o filósofo católico Gabriel Marcel, completa: “A vida subsiste onde há vínculo, comunhão, fraternidade […] Pelo contrário, não há vida quando se tem a pretensão de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte” (Idem).

A fraternidade nasce do amor, que é inerente a todo ser humano. Contudo, temos que superar uma visão romântica e individualista do amor (cf. FT, 88-96). O amor tem essa dimensão mais intimista, mas o coração humano foi feito para “abrir-se ao mundo inteiro” (título do capítulo IV).

Bento XVI, na primeira parte da Deus caritas est, percorreu esse mesmo caminho feito por Francisco nos capítulos III e IV da Fratelli tutti. Os dois pontífices perceberam que, para a mentalidade atual, o amor foi reduzido a uma dimensão particular, individualista, perdendo sua dimensão transformadora da sociedade. Por isso, ambos nos convidam a perceber que o “amor na verdade” (Caritas in veritate), isto é, compreendido integralmente, é a força que pode construir um mundo melhor e mais justo.

Fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível

(cf. FT, 68)

Voltemos à segunda questão que perpassa toda a encíclica: uma sociedade organizada a partir do amor e da fraternidade não seria essa uma ilusão bem-intencionada? Será que, na realidade, enquanto os “bonzinhos” querem construir um mundo baseado no amor, os maus é que estão construindo um mundo baseado no egoísmo?

No curto prazo, no intervalo de uma geração, essa pode ser a impressão dominante. No entanto, se contemplamos a história de povos e nações, numa perspectiva intergeracional, temos que reconhecer que os ideais de uma sociedade mais justa e solidária vão moldando as relações sociais.

Se compararmos, por exemplo, o mundo que enfrenta a epidemia da COVID-19 com aquele que enfrentou a Gripe Espanhola (1918-1920), veremos que existe muito mais paz e solidariedade entre as nações, a universalidade dos direitos é muito mais reconhecida, as democracias estão mais fortalecidas. Isso não quer dizer que tudo mudou para melhor, que o abismo entre ricos e pobres não tenha aumentado em muitos contextos, que o individualismo, a solidão e o vazio existencial não sejam mais evidentes.

A partir do “amor social”, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos podemos nos sentir chamados

(cf. FT, 183)

As sociedades não se desenvolvem igualmente, em todas as suas dimensões. Além disso, como salienta Francisco, acontecem momentos de aparente refluxo e retrocesso na construção de uma sociedade melhor. Por isso, permanece sempre atual o convite ao compromisso com o desenvolvimento humano integral.

Para que o amor e a fraternidade possam realmente transformar a sociedade, o amor tem que se tornar uma virtude política, que gradativamente vai orientando cada vez mais a participação social de cada cidadão e a conduta das personalidades públicas.

Ninguém é perfeito, mas é importante percebermos que, tanto na sociedade em geral quanto entre essas personalidades públicas, existem aqueles que se deixam guiar pelo amor. Para mostrar que isso é possível – e que essas pessoas não precisam ser católicas, pois esse chamado ao amor está no coração de todo ser humano, o Papa cita os exemplos de Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e de uma importante referência para o diálogo com o Islã no século XX, o Beato Charles de Foucauld, o qual compreendeu que “somente identificando-se com os últimos é que se chega a ser irmão de todos” (cf. FT, 286-287).

A tarefa educativa, o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar avida humana de forma mais integral, a profundidade espiritual são realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas, de tal modo que seja a própria sociedade a reagir face às próprias injustiças, às aberrações, aos abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos e midiáticos

(cf. FT, 167)

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