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O Cristianismo, o politicamente correto e a cultura do cancelamento

Nos Estados Unidos, na esteira dos protestos gerados pelo assassinato de um negro, George Floyd, por um policial branco, reacendeu-se o debate sobre a “cultura do cancelamento”, que seria uma forma de censura, praticada pelos defensores do “politicamente correto”, não permitindo a liberdade de expressão a quem tem uma posição diferente da sua. O ponto alto dessa retomada da questão é “Uma carta sobre justiça e debate aberto”, documento assinado por cerca de 150 intelectuais que – apesar de condenarem a discriminação racial e as injustiças sociais, atacarem o chamado “iliberalismo” atual e o presidente Trump – consideram que as esquerdas vêm realizando uma censura ideológica a quem pensa diferente, enfraquecendo a democracia e a liberdade. O mais impactante é o amplo espectro de signatários do documento, com nomes consagrados à esquerda, como Noam Chomsky, e à direita, como Francis Fukuyama, feministas como Gloria Steinem, e acusados de “transfobia”, como J. K. Rowling.

Muitas vozes se levantaram contra a carta, atacando principalmente os seus signatários, tidos como progressistas e de esquerda, que passaram a ser vítimas dessa “cultura do cancelamento” que condenam. Temos que reconhecer que é difícil encontrar um ponto de equilíbrio entre políticas afirmativas, que ajudam a superar injustiças históricas e construir o bem comum, e uma nova discriminação, que repete erros do passado, apenas invertendo os sinais. Criamos e recriamos um mundo iníquo, onde os mais fracos – na prática – permanecem com direitos pouco reconhecidos e menos oportunidades. Apenas mudamos, um pouco, o perfil de quem são esses mais fracos.

Com isso, a sociedade permanece marcada pelo ressentimento mútuo, que agora atinge tanto aqueles identificados historicamente como “minorias” quanto os que recentemente passaram a se perceber como perseguidos ou ter seus valores não respeitados.

Se retrocedermos no tempo, encontraremos um vínculo inegável entre o Cristianismo e o reconhecimento dos direitos humanos e a solidariedade ao mais vulnerável. São decorrências naturais do amor fraterno e da caridade. Não por acaso, a universalização dos direitos, o reconhecimento da dignidade da pessoa e a democracia se desenvolveram no Ocidente cristão. Não podemos negar, igualmente, no entanto, as chagas da escravidão moderna e dos genocídios de povos indígenas. Assim, os discursos ideológicos – de ambos os lados – tendem a lembrar um aspecto e esquecer o outro.

A justiça, sem amor, pode punir os erros e instaurar uma igualdade formal entre as pessoas. Dificilmente, contudo, será eficiente em reparar as injustiças e promover integralmente a humanidade de cada um. Esse é o grande drama das propostas atuais, frequentemente turbinadas pelo ressentimento e pela raiva diante de injustiças que, de fato, acontecem, mas que carecem do amor pelo outro, que pode gerar tanto a reparação dos erros quanto a construção do bem comum.

A superação das injustiças históricas pressupõe uma cultura do perdão e da reconciliação. Frequentemente, imaginamos que esse perdão e essa reconciliação seriam uma desculpa dos poderosos e dos opressores para se saírem ilesos num tempo de mudança. Isso seria um cancelamento injusto dos erros cometidos ou uma relativização de valores universais. Trata-se, na verdade, de todos reconhecerem seus erros e seus limites e buscarem o entendimento e um abraço que ilumina a humanidade, tanto de quem abraça quanto de quem é abraçado.

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