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Pandemia e Doutrina Social da Igreja: a sociedade se move

Ao lado das notícias a respeito da pandemia em São Paulo, das estatísticas acerca do isolamento social, número de doentes e mortes, chegam até nós relatos de inúmeras ações solidárias que ocorrem em toda a cidade. Trata-se de iniciativas de indivíduos, grupos de amigos, comunidades, associações civis ou religiosas, pequenos e grandes empresários e artistas, que rapidamente se espalham nas redes sociais. Vemos empresários doando recursos, disponibilizando equipamentos para produzir máscaras e insumos, grupos de amigos entregando kits de higiene e marmitas a pessoas em situação de rua, artistas arrecadando milhões em lives, restaurantes preparando refeições para quem trabalha em hospitais e um número considerável de voluntários anônimos em tantas outras funções.

A dura realidade da pandemia, que expõe a fragilidade da nossa condição humana, parece revelar também que há algo em movimento na sociedade, que não se detém diante da desolação, mas está pronto a recomeçar. É assim o coração do homem: diante da necessidade, ele se abre e revela sua natureza – abertura ao outro e ao Mistério, que dele se aproxima.

Engana-se, porém, quem pensa que as ações solidárias são decorrentes da pandemia. Basta um olhar atento à sociedade brasileira para identificar uma vasta rede de solidariedade, composta por milhares de entidades sociais que atuam silenciosamente no dia a dia, empenhadas em valorizar as pessoas, em buscar soluções para os problemas de saúde, educação, moradia ou capacitação profissional, e cuidar, em especial, dos mais vulneráveis, como idosos, crianças, jovens de baixa renda, dependentes e pessoas em situação de rua. Essas entidades, nascidas da livre iniciativa das pessoas, vivenciam diretamente os problemas sociais, estando em condição mais favorável para intervir e criar alternativas mais eficazes do que a esfera governamental. Podemos citar como exemplo a prática de assistência alimentar, a capacitação profissional de jovens e o estímulo às atividades produtivas locais, existentes em muitas comunidades antes da pandemia.

São pessoas comuns que não esperam passivamente os benefícios do Estado, mas agem, passando de receptores/ espectadores à condição de protagonistas, criando obras de grande alcance social, cultural e político.

No momento em que as políticas governamentais parecem incapazes de oferecer soluções à altura dos desafios trazidos pela pandemia, é oportuno recuperar o valor do princípio de subsidiariedade, que, aliado à solidariedade, à valorização da pessoa e do bem comum, compõe o cerne da Doutrina Social da Igreja.

O princípio de subsidiariedade (cf. Compêndio da doutrina social da Igreja, CDSI, 171ss) valoriza a liberdade, a criatividade, a iniciativa e a responsabilidade da sociedade na resolução de seus problemas. De acordo com este princípio, o Estado deve atuar de forma subsidiária, auxiliando os grupos somente quando as tarefas ultrapassem sua capacidade de ação, sem substituí-los ou torná-los dependentes. Isto não retira o papel do Estado, mas o redefine, colocando-o genuinamente a serviço da sociedade.

Já é hora de os políticos brasileiros reconhecerem o papel decisivo que as instituições desempenham na formação do tecido social, atuando diretamente na construção do bem comum, desempenhando uma função pública, embora não estatal. Por isso, as propostas para superar as desigualdades brasileiras baseadas exclusivamente no aumento da intervenção do Estado ou na livre expansão dos mercados se mostrarão sempre limitadas, se não contarem com a participação da sociedade como sujeito ativo deste processo.

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